1 de fevereiro de 2021

TRÁGICO RECORRENTE

 CIRES PEREIRA

Naquela tarde alaranjada
Num beco fétido e cinzento
Do morro cravejado de barracos
A arma empunhada pelo branco
Cospe várias balas prateadas
Duas delas encerradas no corpo
suado, franzino e preto do rapaz
Seu sangue vinho agora escorre
Sobre a puída bermuda de time
Diante dos olhares resignados
Após vários gritos de desespero e dor
O suspiro longo anuncia o último ato
De uma breve vida que até sexta última
Frequentava a escola e a igrejinha.
Sirenes do furgão vermelho e branco
Se confundem com o grito e o choro
De seus pais que tentam, em vão,
Irromper a fita preta e amarela
Colocada às pressas pelos fardados.

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