FOGO NO CÉU E NA TERRA

CIRES PEREIRA


A Imprensa se viu forçada a reportar ambos os fogos, de modo exultante o primeiro e, de modo preocupante, o segundo. 

No momento em que labaredas consomem viaturas, prédios e vitrines pelos quatro cantos da maior potência do mundo, outra era forjada pelo motor do foguete que lançou na estratosfera seres humanos pra uma “viagem de negócios”. Sim, meus senhores e senhoras, a NASA arrendou para uma empresa privada da Califórnia, sua tecnologia e sua infraestrutura. 

Nada é mais atual que o poema de Carlos Drummond de Andrade, intitulado “O homem e as Viagens, pra exprimir com a arte o que se passa, trago-lhes o excerto final desta “beleza”:

“Restam outros sistemas fora do solar a colonizar
Ao acabarem todos, só resta ao homem (estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem de si a si mesmo:
Pôr o pé no chão do seu coração
Experimentar, Colonizar, Civilizar, 
Humanizar o homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria de conviver.”

Astronautas a bordo da cápsula “Crew Dragon”, estão viajando, por 19 horas, pelo espaço sideral. A cápsula foi projetada pela SpaceX, empresa do bilionário Elon Musk que fez uma parceria com a NASA, a Agência Aeroespacial dos EUA. 

O Presidente Trump que acompanhou o lançamento, assim disse: “É Incrível, o poder, a tecnologia. Foi uma vista bonita".

Trump, antes de ter exultado este empreendimento público/privado, referiu-se ao “fogo que arde em terra”, consumindo viaturas policiais, prédios e vitrines privadas, com as seguintes palavras:

"... Esses bandidos estão desonrando a memória de George Floyd, e eu não deixarei isso acontecer. Acabei de falar com o governador Tim Walz e lhe disse que os militares estão com ele o tempo todo. Qualquer dificuldade e assumiremos o controle, mas, quando o saque começa, o tiroteio começa. Obrigado!"

Quem, consternado pela humilhação de ver um irmão de pele preta ser esganado pelo joelho branco de um “bicho fardado”, se indigna e se manifesta (a grande maioria é pacífica) é tratado como “bandido” e ainda tem que ouvir deste “topete branco” que “quando os saques começam, os tiros começam”.

Ora quem conhece alguma coisa sobre a história recente dos EUA, bem sabe o que esta frase quer dizer. No auge dos protestos contra a guerra e a discriminação racial nos EUA, liderados por Martin Luther King até o dia em que morreu, 04 de Julho de 1968, um delegado assim o disse em resposta aos protestos. 

Em meio a exasperação popular, a direita americana levou a melhor nas eleições no final daquele ano. O republicano Nixon derrotou o democrata Humprhey por meio ponto de vantagem e, o mais curioso, os 13,5 % dos votos dados ao segregacionista George Wallace, do Alabama. Intensificou-se, desde então a máxima Law and Order” pra conter o “fogo na terra do Tio Sam”, enquanto se aplaudia os feitos “lunares” do projeto Apollo. 

“Decolagem do Falcon Heavy” – Foto: Pauline Acalin

Enfim, o poeta tinha razão, ao vaticinar que as conquistas humanas no espaço contrastam com a carência de compreensão do universo humano. A exultação da primeira pelo establishment branco e liberal tem sido diretamente proporcional à criminalização dos seres que, excluídos e violentados, exigem um mínimo de atenção.

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