PROTETORADO À BRASILEIRA

CIRES PEREIRA 20 04 2020


INGLATERRA 1654

Na Inglaterra, no longínquo ano de 1653, o então chefe de governo Oliver Cromwell resolveu depurar de seu governo algumas lideranças aliadas que questionavam pontualmente sua conduta à frente do governo instalado em 1649.

Visando não permitir uma reação parlamentar, determinou a dissolução do Parlamento e deu início a um processo sistemático de perseguição contra seus opositores. Concomitantemente, foi investido na condição de “LORD PROTECTOR OF COMMONWEALTH” e passou a governar com os seus asseclas puritanos e as forças militares. 

Cromwell não teria dado um golpe se não tivesse a convicção de que a maioria das elites nacionais (nobreza e burguesia) o apoiava. Sob a justificativa de que estaria “protegendo a grandeza da Inglaterra e a liberdade (ele havia liderado os “cabeças redondas” na campanha militar vitoriosa contra o absolutismo de Carlos I em 1649), desde 1653 o “Protetor” (eufemismo pra ditador), passou a governar vitaliciamente.

Portanto, Cromwell instituiu uma ditadura pessoal, religiosa e militar que perdurou até sua morte em 1658. Em sua autoritária gestão muitos foram mortos, especialmente os setores populares que justamente se lançavam por reforma agrária e o fim da superexploração a que estavam submetidos. Após esta pequena e tensa experiência republicana, as forças moderadas reabriram o parlamento e restauraram a monarquia em 1660. 

BRASIL 2020
Algo semelhante se nota no Brasil 367 anos depois, o atual mandatário da República tem espalhado em todos os cantos que os demais poderes (legislativo e judiciário) estão inviabilizando sua gestão. 

Bolsonaro é egresso das forças armadas que num passado não muito distante ocuparam o governo federal e impuseram uma infame ditadura que perdurou 21 anos. Não esconde sua posição favorável ao regime militar ditatorial, ainda que tenha sido democraticamente eleito em 2018. Sequer se constrange pra parabenizar figuras proeminentes daquele regime, como o torturador Brilhante Ulstra.

Vivemos uma crise geral sem precedentes, uma crise que tem uma face econômica (agravada com a aplicação do modelo neoliberal); uma face social, com o desemprego na casa dos dois dígitos, uma crise política, diante dos desentendimentos entre os poderes e uma crise sanitária, face à pandemia provocada pelo “Coronavírus” que pode fazer do Brasil, o seu epicentro.

Bolsonaro se mostra cada vez mais decidido pra materializar a “sua” solução pra esta crise, e tudo indica que o ponta pé inicial seria um “autogolpe”, como havia feito o inglês Oliver Cromwell em 1653.

Seu discurso diante de uma “matilha de lobos” customizados com seus “abadás verde-amarelos”, uma fração daqueles que, em 2016, pressionarem pelo destituição de uma presidente eleita democraticamente em 2014. Sedentos por uma intervenção militar no país, estes “lobos” querem que século reedite outro Ato Institucional, como o AI 5 de 1968, visando amparar juridicamente um governo “patriótico, democrático, redentor e defensor da liberdade pra que a bandeira brasileira jamais seja vermelha”. 

Até então faltava uma cabeça pra este “governo”, mas neste domingo dia dezenove de abril de 2020, a encontraram, Jair Messias Bolsonaro. 

O Presidente reúne, pra estes lobos intervencionistas, os atributos necessários pra ser uma espécie de LORD PROTECTOR OF BRAZIL, a saber:
.Conteve a reação da esquerda, representada pela candidatura Fernando Haddad em 2016;Tem o apoio das elites empresariais brasileiras .Conta com o apoio do governo da maior economia do mundo, Donald Trump..Tem disposição em reagir com violência contra opositores que querem um governo popular e democrático..É cria das hostes militares, alinhado com as teses de extrema-direita..Tem disposição em implantar uma ordem unilateral na América Latina sob o protagonismo do Brasil.
Aos opositores de Bolsonaro, encerro fazendo um apelo pra que deixemos de lado nossas pontuais divergências e unamo-nos contra o autogolpe que, desde ontem, imprimiu um ritmo de galope. Democratas, liberais, social-democratas, socialistas, trabalhistas, petistas e comunistas devem se unir numa frente ampla que impeça a fasticização do Estado brasileiro. 


É imperativo que não tergiversemos mais, encontramo-nos diante de reiteradas condutas e falas “presidenciais” contra a ordem democrática pautada na carta constitucional de 1988. O governo Bolsonaro tem que ser interditado, do contrário estaremos sob uma ordem abjeta é humilhante, semelhante àquela imposta pelo SENHOR PROTETOR DA COMUNIDADE BRITÂNICA em meados dos “seiscentos”. 

Comentários