MARIA DE LURDES

CIRES PEREIRA 15 DE FEVEREIRO DE 2020
Dia sem mulher” e sem Congresso em Foco | Congresso em Foco

Oi
Sou Maria de Lurdes, filha de Evanilson, que trabalhou principalmente como lavrador, e fui criada sem mãe. Minha mãe morreu após dar à luz ao meu irmão caçula, Cleiton, dois anos após meu nascimento.
Morávamos numa cidade de três mil habitantes, próxima a Montes Claros. Meu pai arranjou um emprego em Uberlândia e então viemos pra cá em 1990, um mês após meu décimo aniversário.
Por dez anos na cidade, o máximo que papai conseguiu foi de caseiro num rancho próximo a Uberlândia. Lá ficamos, eu e meus dois irmãos com nosso pai, por três anos na casa do caseiro. Em 1994, o proprietário, falido por causa dos Planos do Collor e do Itamar, vendeu-o pra pagar acertos com ex funcionários, incluindo meu pai.

Não nos restavam outra saída a não ser retornar pra Uberlândia, nosso pai e seus três filhos. Eu com quatorze anos e meus irmãos com treze e doze anos. Muito desesperançoso, papai logo se apegou à bebida e, por isso, passou a ter dificuldade pra arrumar um emprego com tudo regulamentado. Passou, então, a nos custear, fazendo bicos.

O meu sonho era estudar, mas não tinha como pois precisei arrumar emprego. Mesmo sem saber ler e escrever e já com dezoito anos, consegui um emprego de doméstica.
A família que me contratou era muito legal, mas tinha dificuldades pra me pagar em dia e integralmente. O meu patrão também teve problemas com a falta de emprego fixo, o país do final dos anos 90 estava muito instável e o desemprego atingia também a classe média.

Em 1999 perdemos nosso irmão Cleiton pra o danado do crack, era usuário e, pra se sustentar, começou a traficar e acabou morto pelos seus “amigos”. Era uma “queima de arquivo”, muito comum neste ambiente. Enquanto isso meu outro irmão, com dificuldades de aprendizagem (os entendidos diziam que era o tal de déficit de atenção), abandonou o primeiro colegial e pegou a estrada. A última notícia que tivemos dele é que ele passou a morar com uma mulher mais velha, numa cidade perto de Santos. E que ambos passaram a trabalhar na cooperativa de catadores de reciclados naquela cidade. Não nos falamos desde esta época.

Meu irmão, Cleber, mesmo sabendo da morte de nosso pai em 2005, não pode vir, pois encontrava-se hospitalizado com apendicite aguda e precisou fazer a cirurgia às pressas.

Praticamente sozinha no mundo e com vinte e cinco anos, resolvi, com o auxílio de minha patroa, entrar na escola. Saber ler e escrever era meu maior sonho e o governo estava realmente se esforçando pra reduzir o analfabetismo. Foram três anos de muito aprendizado e esperança. Em 2008, com o certificado de conclusão do primeiro grau, ingressei no supletivo do segundo grau e, ao final de dois anos, lá estava eu aprovada em todas as disciplinas. 

Mas queria mais, queria a faculdade e consegui entrar em pedagogia noturno na UFU. Entre 2010 e 2015 foi um sufoco, trabalhando em dois empregos como babá e atendente de supermercado. A noite, cursava pedagogia.

Fazia tudo a pé e vendia os passes de ônibus que ganhava do supermercado pra juntar um dinheiro e, com ele, comprar dólares. Em 2015 já tinha juntado 1.240 dólares. Naquele ano, enfim, passei a trabalhar como professora na rede pública estadual e cá estou até hoje. 

Meu esforço, somados às políticas de inclusão do governo federal, me trouxeram pra onde estou. Em 2016, o governo passou a ser outro e ali comecei a perder as esperanças de que pudesse contar com o governo pra alguma coisa. O meu outro sonho, que era conhecer a Disneylândia, infelizmente vai ter que esperar.

Hoje, sem o 13 salário de 2019, após ter que usar todos os meus dólares pra pagar uma parte da cirurgia bariátrica. A minha obesidade estava comprometendo minha condição de trabalhar, então desisti de esperar na longa fila de espera do SUS.

Com algumas prestações sem pagar e sem poder fazer uma reforma na casa que consegui comprar com o programa “minha casa minha vida”, não acredito que conseguirei a tão sonhada viagem e, mesmo com o dinheiro pra fazê-la, duvido muito que conseguisse o “visto” do governo dos EUA. Perfil como o meu, a “América” quer distância, senão veja quantos estão sendo “descarregados” no Brasil, após terem tentado entrar nos EUA.

Resolvi desabafar depois que me contaram sobre o Ministro da Economia ter dito que as empregadas domésticas do Brasil estavam conseguindo, com o dólar baixo, visitar a Disneylândia. 

Aí me perguntei, será que com 1.240 dólares, arrumaria passaporte e visto, compraria as passagens, conseguiria me hospedar e compraria ingressos pra os parques? 
Com certeza não!

Tive então a possibilidade de comprovar o que o nosso pastor prega. Segundo ele, tudo que se edifica com o ódio, continuará fraco e podre e não terá vida longa. É o que acho sobre este governo. 

Quanto ao Ministro, suspeito que ele pouco ou nada entende de matemática, logo pouco ou nada sobre economia. Minha suspeição me leva a uma convicção, este governo ignora nossa condição e não se sensibiliza com a condição das milhões de “Marias de Lurdes” de todo o Brasil.

Hoje entendo, na plenitude, o conceito de GOLPE. Antes tarde do que nunca.

Nota do autor: (Cires Pereira) Segundo “eles”, esta é, tal como o documentário de Petra Costa “Democracia em Transe”, uma “obra de ficção”.

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