Ei, você? Sim, é com você mesmo!

CIRES PEREIRA 25 JANEIRO 2020
Ei você – Blog - Felício Bombonato
Nos anos 80, você elogiava pontualmente os governos militares, mas era implacável na crítica quanto à postura ditatorial dos mesmos. Portanto, entre um e outro elogio, fazia questão de dizer que preferiria a democracia. Preocupava-se em se apresentar como “politicamente correto”.

Hoje percebo que sua preocupação era apenas com “o que os outros vão pensar de mim”. Agora não, perdestes a vergonha em defender o que está aí.

No início dos anos 90, você, temendo o que parecia-lhe ser radical, optou por um “democrata moderado, defensor da economia de mercado e do liberalismo econômico”. Assim continuou, ao longo da década, aplaudindo a política neoliberal de quem antes dizia ser crítico dela, mas que era preciso “esquecer o que tinha escrito”.
Em nome da estabilidade monetária e segundo as vontades dos credores, o governo negligenciou o social e o que se viu foi o avanço das desigualdades. Mas você, insistia em afirmar que o “remédio precisava ser amargo”, por continuava execrando os tais “radicais”.

Abriu-se um novo milênio com as esperanças renovadas diante da possibilidade de suplantar em toda a América Latina este modelo marcadamente excludente. 

As maiores economias, com exceção do México e da Colômbia, puderam então ser conduzidas por um novo modelo, mas você insistia em dizer que os investidores desapareceriam, o Estado ficaria mais endividado e os pobres mais acomodados diante das “migalhas recebidas em troca de votos”. Canhestramente adjetivava-nos como “populistas”.

Mas as economias continuaram em ritmo de recuperação, os mercados internos “saíram das cordas” e o desemprego arrefeceu. Mesmo assim, você insistia em dizer que havíamos tomado um caminho errado. 

Na passagem da primeira pra segunda década deste século, uma forte crise acomete os mercados centrais. Crise, frise-se, resultante da aplicação de um modelo econômico por você aplaudido. Ora era óbvio que esta reverberaria nas economias em desenvolvimento como a nossa e a de nossos vizinhos. A crise cá também se instalou. E, acredite, menor do que poderia ser caso não houvéssemos adotado o modelo (anti cíclico) por você criticado.
Nesta crise, você não hesitou em responsabilizar os governos aqui, mas pouco ou nada dizia contra os poderosos empresários mundo afora e daqui também, além, claro, dos governos das economias centrais. 

A culpa, pra você, era o governo aqui. 

Soma se a isto, os escândalos de corrupção envolvendo empresários, políticos e membros do governo. Era a circunstância mais adequada pra, em nome da “superação da crise”, extirpar o “mal”. 

Ocorre que o por você dito “mal”, havia sido reeleita em 2014, logo caberia a este governo enfrentar a crise, jamais destituí-lo. Ainda assim, mesmo não havendo provas materiais que pudessem corroborar seu interdito, você estufou o peito e passou a exigir o seu fim. 

Neste momento já havia se tornado crível e seu discurso contra o jogo democrático pra o bem da nação e de uma “outra quem sabe suposta democracia”.

Mas você não se importou com “estes detalhes”, vestiu-se com as cores do Brasil, arrogando-se no direito em dizer ser mais brasileiro que os seus adversários. Tomou as ruas exigindo o “fim da corrupção, a melhoria das condições de vida pra maioria” e a queda de quem havia sido democraticamente eleita.

Pronto, extirpado o “mal”, era urgente a ”reconstrução nacional”. O novo governo foi conduzido por alguém que bebe na fonte doutrinal que também você bebe, ainda que insistisse que era uma “cria nossa”. Mas a crise, ao contrário do que você esperava, recrudesceu ainda mais. 

Foi então que decidiu você optou em partir “pra ignorância”, apoiando um político de extrema direita, amante da ditadura militar, racista e homofóbico. Mas todos estes adjetivos que, num passado não muito remoto, você se levantara pra combater, agora deviam ser ignorados. Tudo em nome “da estabilidade, o bem da Nação e pra acabar com a corrupção” (jura que você crê nisto!?).

Mas qual é a receita deste governo? 

Aplicação da política neoliberal que levou as economias mundo afora pra o pântano desde 2008 e que, se não for revista, prepara uma dose cavalar pra tempos próximos. Quem diz isto não somos nós apenas, mas também pensadores do seu campo neoliberal. 

E os de cá, Guedes à frente, o que pensam sobre uma possível nova e cavalar crise? 

Este é o nosso drama, eles sequer pensam. Não queria dizer isto, mas sou forçado a dizê-lo. O Brasil de hoje parece-se com a Argentina de exatos vinte anos atrás, comandada Fernando De La Rua. Estratégias econômicas muito semelhantes. A sensação é que o Guedes “copia e cola” o (Domingos) “Cavallo”. E sabemos bem o final desta história. Aguda recessão, desemprego e muitas falências.

Desemprego, corrupção, supressão de direitos da maioria, sucateamento dos serviços públicos, estes são os tais “efeitos colaterais” que os brasileiros temos que aguentar por um, dois ou até seis anos, caso você e outros continuem crendo que este é o caminho certo. 

“Você”, que leu o texto certamente não vai curtir, tampouco compartilhar. Sem problemas, afinal de contas este é um texto-desabafo.

Comentários