CRIANÇADA, JÁ PRA ESCOLA! PAIS, AO TRABALHO!

CIRES PEREIRA 
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Comecei a trabalhar aos oito anos e jamais parei. como a maioria das crianças, também era uma de família pobre. Todos de minha família tiveram que, concomitantemente, trabalhar e estudar. Não tínhamos outra (e melhor) opção.

Aprende-se trabalhando? Claro que não, apenas. É preciso estudar. Preferivelmente, quando criança ou adolescente, apenas estudar é o mais adequado. É óbvio que eu queria ter viajado pelo mundo e brincado muito mais, mas estes “privilégios” eram para as poucas crianças ricas de minha cidade. Se meus pais pudessem, teriam proporcionado aos seus filhos algo semelhante.

No segundo grau, precisei estudar à noite, pois tinha que continuar trabalhando oito horas todos os dias. Com certeza, se não tivesse que trabalhar e tivesse recursos, teria tido aproveitamento escolar bem melhor.

Na faculdade, a mesma rotina: trabalhava oito horas por dia e estudava à noite. Teria sido melhor se pudesse dedicar aos estudos apenas? Com certeza.

Trago minha experiência pra dizer ao Presidente Bolsonaro o quão ele se equivoca em enaltecer o trabalho infantil. Mas há que se considerar que ele não o faz movido apenas por um suposto equívoco. Ele e a elite, a qual ele representa, entendem que as crianças que puderem somente estudar, deverão somente estudar. Por suposto, as crianças “deles”.

Segundo a elite, o trabalho braçal deve se destinar à grande maioria pobre, que não precisa muita “instrução”, logo é bobagem “gastar” o tempo das crianças pobres com diversão e instrução. Sem contar que isto “compromete as contas públicas e interdita a atração de capitais estrangeiros”, este um “mantra” sempre escarrado pelas elitistas bocas cheias de alvos dentes e adornadas com o melhor batom.

Em suma, a elite tupiniquim, ora sob a presidência de um estafermo, quer que o país “ amanhã” continue comandado pelos seus “bem instruídos” filhos. Quanto à maioria, reles e pobres mortais em pleno século XXI, continuará cativa aos passados colonial e oitocentista, como bem escreveu o sociólogo Jessé de Souza no seu clássico “A elite do Atraso”.

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