É INACEITÁVEL COMEMORAR O GOLPE E INADMISSÍVEL DEFENDER A DITADURA

Será que é correto defender, pertinente homenagear e ético propagandear um regime político ditatorial? Absurdo não é mesmo, mas é o que se depreende do vídeo produzido e veiculado pelo governo nas redes sociais neste 31 de março de 2019. Golpe que os golpistas e seus seguidores insistem em denominar de “Revolução Redentora”.

Todos sabemos que o ocorrido naquele Primeiro de Abril de 1964, foi um golpe institucional, afinal de contas destituíram um presidente eleito democraticamente. Este golpe foi comandado pelos militares que não tinham prerrogativas constitucionais pra perpetra-lo. O que se viu em seguida foi a subtração, por vinte e um anos, da liberdade e das garantias individuais e coletivas.

As associações de classes, os sindicatos e os partidos tiveram que, pra continuarem funcionando, adequar aos limites estabelecidos pelos ditadores.

Os jornais, as televisões e os rádios, bem como o conjunto das manifestações culturais tiveram que passar pelos crivos de um censura cruenta e burra. Não foram raras as máculas deixadas pelos censores, muitos tiveram que deixar o país pra continuarem sobrevivendo com seus atributos intelectuais e/ou artísticos.

Como ousam afirmar que livraram o Brasil de “algo pior”, algo que poderia ter sido instalado se houvesse o triunfo das “esquerdas”?

Como puderam ser tão intelectualmente desonestos em ver no governo João Goulart esta possibilidade?

E, mesmo se houvesse tal possibilidade, que direitos tinham os generais em se imiscuirem na disputa política?

No vídeo insistem na rasa e carcomida argumentação de que pretendiam proteger o Brasil da ditadura. Contraditoriamente, foi exatamente a ditadura o que eles impuseram.

As manifestações e as organizações que defendiam o regime tinham ampla liberdade, já as oposições eram perseguidas, controladas e reprimidas. Que democracia foi esta que os militares e seus cúmplices tanto alardeiam?

Está mais que comprovado que em 64 houve um Golpe de Estado e o que se seguiu por vinte e um anos foi uma ditadura militar.

Grande parte das elites nacionais, o capital estrangeiro, o governo dos EUA e uma expressiva parcela da sociedade civil apoiaram este regime enquanto os indicadores econômicos e sociais apresentavam melhoras até meados dos anos 1970.

A partir de meados dos anos 70, a desaceleração do crescimento econômico, o avanço das desigualdades sociais e o aumento do desemprego e dos passivos financeiros do governo criaram um ambiente de crescentes mobilizações e manifestações contrárias ao regime. Os militares tiveram então que ceder, até que foram desalojados do poder em 1985 com a vitória de uma candidatura de oposição, Tancredo Neves.

A constituição cidadã, em 1989, sedimentou o novo ambiente pautado na democracia, nas liberdades e nas garantias individuais. Pela lei da anistia “ampla, geral e irrestrita”, os crimes cometidos pelos agentes públicos ficaram sem investigação, logo sem punição.

Foram vinte um anos marcados por sequestros, arapongagem, censura e intimidações. Mentem aqueles que insistem ter havido liberdade.

Foram vinte e um anos de prisões arbitrárias, julgamentos de cartas marcadas, humilhação, tortura, estupros de custodiados, sequestros e execuções. Mentem aqueles que afirmam ter sido este período marcado por “anos democráticos”.

Mentir é tão criminoso quanto o golpe de 64 e o regime ditatorial imposto a partir dele.

É inaceitável comemorar o golpe e inadmissível defender a ditadura.

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