CONVERSA NA BARBEARIA

Conversa na barbearia

No final de setembro de 2018, tive uma interessante conversa numa barbearia onde havia ido pra cortar meu cabelo. Como se sabe o ambiente político era muito tenso devido ao acirramento da disputa presidencial, por isso sempre procurava ser prudente nas conversas, sobretudo com estranhos.

Era uma quarta feira por volta de 16:30, havia ministrado três aulas e outras três aulas precisariam ser ministradas a partir das 18:30.

Enquanto aguardava minha vez, o cliente que estava sendo atendido, ao ouvir de mim que estava no intervalo do trabalho, quis saber sobre minha profissão. Ao responder-lhe que era professor de História, ele então comentou: “então você também é um doutrinador de esquerda”. Pela expressão de seu rosto, intui que estivesse falando sério.

Serenamente respondi-lhe que não me via como um “doutrinador de esquerda”, mas que eu poderia estar enganado. Sugeri então que fôssemos até a escola onde daria outras três horas de aulas pra que ele pudesse se certificar “in loco”, assistindo à uma destas aulas. Agradeceu-me pelo convite, mas preferiu declinar argumentando que precisaria comandar um culto em sua congregação. Novamente intui de que se tratava de um pastor.

Com os cabelos já devidamente cortados e aparentemente constrangido pela resposta e a proposta que eu lhe fizera, o senhor nos cumprimentou e foi embora. Saiu tão apressadamente que sequer agradeceu-me pelo convite, tampouco retribuiu convidando-me para um de seus cultos.

Logo em seguida, perguntei ao barbeiro, será que ele aprendeu alguma coisa com esta conversa? O barbeiro, com a sabedoria popular que lhe é própria, respondeu-me: “Professor, ainda que ele não admita, ele aprendeu sim.”Conheço-o bem, pois somos “irmãos em Cristo”.

Assim que paguei pelo serviço, agradeci ao barbeiro, também por ele ter me chamado de “professor”, afinal de contas não é muito comum que me chamem de “professor”. Particularmente creio que muitos dos meus alunos prefiram me chamar de “professor”, pois meu nome que é um tanto quanto incomum. Até hoje os alunos não um apelido que de fato “pegasse” kkkk

Mas o melhor estava por vir. O barbeiro disse ainda que tinha acabado de assistir à uma “boa aula”. Pensei com meus botões:  ... realmente o que determina o quão boa é uma aula é o interesse do aluno e as lições que este aluno extrai da aula. Naquela meia hora, o barbeiro convertera-se num aluno circunstancial.

Recentemente retornei, como de costume, à barbearia e novamente fui recepcionado com um sonoro “Boa tarde, professor!”

PS havia escrito este texto no início de março e ontem, após deixar a barbearia que não era esta, lembrei-me de que não o havia ainda publicado.

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