24 de julho de 2019

CONVERSA NA BARBEARIA

Conversa na barbearia

No final de setembro de 2018, tive uma interessante conversa numa barbearia onde havia ido pra cortar meu cabelo. Como se sabe o ambiente político era muito tenso devido ao acirramento da disputa presidencial, por isso sempre procurava ser prudente nas conversas, sobretudo com estranhos.

Era uma quarta feira por volta de 16:30, havia ministrado três aulas e outras três aulas precisariam ser ministradas a partir das 18:30.

Enquanto aguardava minha vez, o cliente que estava sendo atendido, ao ouvir de mim que estava no intervalo do trabalho, quis saber sobre minha profissão. Ao responder-lhe que era professor de História, ele então comentou: “então você também é um doutrinador de esquerda”. Pela expressão de seu rosto, intui que estivesse falando sério.

Serenamente respondi-lhe que não me via como um “doutrinador de esquerda”, mas que eu poderia estar enganado. Sugeri então que fôssemos até a escola onde daria outras três horas de aulas pra que ele pudesse se certificar “in loco”, assistindo à uma destas aulas. Agradeceu-me pelo convite, mas preferiu declinar argumentando que precisaria comandar um culto em sua congregação. Novamente intui de que se tratava de um pastor.

Com os cabelos já devidamente cortados e aparentemente constrangido pela resposta e a proposta que eu lhe fizera, o senhor nos cumprimentou e foi embora. Saiu tão apressadamente que sequer agradeceu-me pelo convite, tampouco retribuiu convidando-me para um de seus cultos.

Logo em seguida, perguntei ao barbeiro, será que ele aprendeu alguma coisa com esta conversa? O barbeiro, com a sabedoria popular que lhe é própria, respondeu-me: “Professor, ainda que ele não admita, ele aprendeu sim.”Conheço-o bem, pois somos “irmãos em Cristo”.

Assim que paguei pelo serviço, agradeci ao barbeiro, também por ele ter me chamado de “professor”, afinal de contas não é muito comum que me chamem de “professor”. Particularmente creio que muitos dos meus alunos prefiram me chamar de “professor”, pois meu nome que é um tanto quanto incomum. Até hoje os alunos não um apelido que de fato “pegasse” kkkk

Mas o melhor estava por vir. O barbeiro disse ainda que tinha acabado de assistir à uma “boa aula”. Pensei com meus botões:  ... realmente o que determina o quão boa é uma aula é o interesse do aluno e as lições que este aluno extrai da aula. Naquela meia hora, o barbeiro convertera-se num aluno circunstancial.

Recentemente retornei, como de costume, à barbearia e novamente fui recepcionado com um sonoro “Boa tarde, professor!”

PS havia escrito este texto no início de março e ontem, após deixar a barbearia que não era esta, lembrei-me de que não o havia ainda publicado.

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