24 de julho de 2019

ODE À LIBERDADE - MARC CHAGALL

Cires Pereira

A “Crucificação Branca” é uma obra fascinante graças  à beleza estética surrealista e à lição de História. Tive o prazer de conhece-la hoje no Art Institute of Chicago. Trata-se de um “óleo sobre tela medindo 155 cm X 140 cm, feito em 1938.

Marc Chagall nasceu na Bielo-Rússia, região que integrava o Império Russo, em 1887. Artista engajado, posicionou-se favorável à Revolução Bolchevique e integrou o governo liderado por Lenin, mas com a “stalinizaçao”, Chagall deixou o governo e o país. Era Judeu e de família pobre, residiu principalmente na França, onde faleceu em 1985.

Nesta obra em destaque, dois detalhes são bastante significativos:

> Primeiro: uma referencia à Kristallnacht (noite dos punhais em 1938 que deu início ao holocausto no III Reich), à sinagoga, à Torá e aldeia em chamas. Casas viradas e esvaziadas de seus pertences e mães fugindo com seus filhos.

> Segundo: A morte de Cristo na cruz é  retratada numa perspectiva judaica. Não só pela vestimenta, mas por um sofrimento humano, e não divinizado, em similitude ao drama dos judeus gerado pelo antissemitismo  do regime nazista da época.

No surrealismo de Chagall, o sacro ganha um olhar mais sutil. A “crucificação branca” não enfatiza a devoção e a contrição espiritual, mas a luta de um povo segregado e violentado, sua cruz é uma espécie de luto (e protesto) a favor dos judeus.

A cruz se tornou (e continua sendo) o símbolo cultural mais influente de todos os tempos, incluindo um cara que era ao mesmo tempo surrealista, socialista e judeu, Marc Chagall.

ENEN 2018

ENEM 2018 (1º DIA): AVANÇOS QUE CONTRARIAM OS CONSERVADORES

Nada melhor do que um domingo após o outro, no outro os conservadores levaram a melhor e elegeram o seu candidato. Mas sabemos bem que há uma clara e simétrica divisão político-ideológica na sociedade brasileira. Perdemos por pouco esta batalha, mas outras virão e estaremos a postos pra disputa-las e vencê-las.

Esperamos que não haja da parte “deles” uma quebra no contrato, firmado há 30 anos, de que estas batalhas devem se dar nos limites do que prescreve a Constituição, fundadora e amparadora da ordem democrática.

Neste domingo foram aplicadas, pra milhões de secundaristas, a primeira parte do ENEM 2018. Esta constituída pelas avaliações de Linguagens, Ciências Humanas e Redação.

Salta aos nossos olhos que os “examinadores” (conceptores da prova), previsivelmente, apresentaram problemas e situações para que os candidatos, à luz do que estudaram ao longo do Ensino Médio, pudessem enfrenta-los.

Esta é a proposta do ENEM, desde sua instituição, uma “política de Estado” e não um “aparelho nas mãos de um governo de esquerda que quer o poder a qualquer custo”, como apregoam seus detratores que, em 2016 assumiram o governo.

Este ENEM de 2018, consolida uma política de Estado que defende o ingresso nas instituições de ensino superior como um direito universal e adota como critério o mérito escolar e as políticas afirmativas como meios para tornar o jogo menos desigual ou desequilibrado. Apesar dos reveses conjunturais, o Brasil avança em alguns setores, neste por exemplo.

Quanto às provas, fica cada vez mais nítida uma tendência que se alinha às adotadas pelo processos seletivos em alguns cantos da Europa, da Ásia e das Américas.

A despeito da pressão que fazem os setores conservadores da sociedade brasileira contra um Ensino-aprendizagem humanista e criticista, o ENEM se consolida cada vez mais, felizmente.

No “Ensino Médio” há dois propósitos inafastáveis: dotar nossa juventude de condições pra cidadania numa sociedade democrática e municiar o estudante de conhecimentos básicos, acumulados por todas as ciências. Este, é, portanto, a base indispensável para o seu aprofundamento no Ensino Superior, segundo a faculdade escolhida.

O tema da Redação “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”, pareceu-me muito pertinente bem como os textos apresentados como referenciais, sobretudo o texto de Pepe Escobar intitulado “A Silenciosa Ditadura do Algoritmo”.

Uma temática ampla que força o aluno a estabelecer delimitações para que pudesse melhor intervir no assunto. Muitos vincularão o tema apenas ao que se passa nos processos eleitorais mais recentes no mundo, sobretudo no Brasil, mas a proposição temática vai muito além disto, portanto rompe com o lugar comum e estimula várias abordagens como consumismo, perda de identidade cultural e escolhas no sentido amplo.

As provas de Ciências Humanas e Linguagens foram pautadas pelo equilíbrio no tocante ao que se ministra no Ensino Médio, compatíveis com o grau de profundidade dos conceitos compreendidos e, portanto, apropriada quanto ao propósito da seletividade que se espera no processo seletivo aplicado nacionalmente.

Os textos, as imagens e os gráficos foram apresentados de maneira equilibrada e com interação razoável com as alternativas nas questões.

Temas como Ditadura Militar, Crítica ao “Socialismo Real”, feminismo, racismo, África, Guerra Fria,  neocolonialismo, Oriente Médio, Islamismo, Liberalismo, abolicionismo, Democracia, Colonialismo português, Absolutismo, Contratualismo, Ciclones, Ecologia, Gênero, Industrialização e muitos outros, demonstram a sensibilidade dos examinadores em relação ao que se ministra no Ensino Médio.

Deixo pra o "Gran Finale" as questões de Espanhol que, a meu ver, levantaram temáticas muito atuais e demonstraram o que significa e como se aplica a transdisciplinaridade. Educadores, professores e afins, miremos, pois neste belo exemplo que foram as questões de Língua Espanhola.

CONSCIÊNCIA NEGRA E NATIVA

Vinte de novembro, é o dia da Consciência Negra no Brasil. Foi neste dia, no ano de 1695, que Zumbi dos Palmares foi morto quando defendia a justiça e a liberdade para os negros.

Há mais de cinco centenas de anos, homens, mulheres e crianças foram tirados de seus meios africanos e trazidos, como mercadorias, pra todos os cantos das Américas e ilhas caribenhas. No lado de cá do imenso Atlântico, africanos e africanas juntaram-se aos ameríndios e ameríndias que não foram mortos pelos conquistadores. Esta multidão foi servilizada e escravizada.

O genocídio de nativos, o tráfico de mão-de-obra de origem africana, a servidão e a escravidão foram algumas das máculas produzidas pela elite branca, cristã e de origem europeia. As riquezas aqui prospectadas e produzidas foram muito maiores que os benefícios gerados pelos empreendimentos colonizatórios concebidos e aplicados por mais de 300 anos.

Tudo o que foi feito tinha um propósito central: a montagem de um sistema sócio-econômico pautado no lucro e na propriedade privada, o capitalista. Curioso como ainda hoje, a maioria da sociedade enche o peito pra defende-lo, corroborando pra um "senso comum" - é impossível erigir outro sistema menos ou não excludente.

Sabemos bem, ainda que muitos entre nos não a reconheça, que existe uma dívida social com os descendentes de origem africana e de origem nativa. Parte desta dívida tem sido enfrentada com maior atenção em alguns países americanos, como EUA, Canadá, Venezuela, Bolívia, Uruguai e Chile. Em outras nações pouco tem sido reparado em favor dos ameríndios e dos afro-americanos,  México, Brasil, Argentina, Colômbia integram esta lista.

Cotas, demarcação de terras indígenas e valorização das identidades culturais historicamente sobrepostas pela cultura branca, europeia e cristã, são algumas das políticas públicas de reparação que precisam fazer parte das previsões orçamentárias nos países em toda a região das Américas e Caribe. Sim, é imperativo que os governos europeus também contribuam com estas políticas aqui e em todo o continente africano.

Após mais de cinco centenas de anos é preciso exigir que a justiça seja feita, as reparações ocorram e a dívida com nativos e negros, pelo menos mitigada.Este texto é a prova de que os gritos de Zumbi dos Palmares, Luíza Mahin, Teresa Benguela, e Mariana Crioula não foram em vão.

Quadro "Zumbi dos Palmares" Autor Antônio Par

É INACEITÁVEL COMEMORAR O GOLPE E INADMISSÍVEL DEFENDER A DITADURA

Será que é correto defender, pertinente homenagear e ético propagandear um regime político ditatorial? Absurdo não é mesmo, mas é o que se depreende do vídeo produzido e veiculado pelo governo nas redes sociais neste 31 de março de 2019. Golpe que os golpistas e seus seguidores insistem em denominar de “Revolução Redentora”.

Todos sabemos que o ocorrido naquele Primeiro de Abril de 1964, foi um golpe institucional, afinal de contas destituíram um presidente eleito democraticamente. Este golpe foi comandado pelos militares que não tinham prerrogativas constitucionais pra perpetra-lo. O que se viu em seguida foi a subtração, por vinte e um anos, da liberdade e das garantias individuais e coletivas.

As associações de classes, os sindicatos e os partidos tiveram que, pra continuarem funcionando, adequar aos limites estabelecidos pelos ditadores.

Os jornais, as televisões e os rádios, bem como o conjunto das manifestações culturais tiveram que passar pelos crivos de um censura cruenta e burra. Não foram raras as máculas deixadas pelos censores, muitos tiveram que deixar o país pra continuarem sobrevivendo com seus atributos intelectuais e/ou artísticos.

Como ousam afirmar que livraram o Brasil de “algo pior”, algo que poderia ter sido instalado se houvesse o triunfo das “esquerdas”?

Como puderam ser tão intelectualmente desonestos em ver no governo João Goulart esta possibilidade?

E, mesmo se houvesse tal possibilidade, que direitos tinham os generais em se imiscuirem na disputa política?

No vídeo insistem na rasa e carcomida argumentação de que pretendiam proteger o Brasil da ditadura. Contraditoriamente, foi exatamente a ditadura o que eles impuseram.

As manifestações e as organizações que defendiam o regime tinham ampla liberdade, já as oposições eram perseguidas, controladas e reprimidas. Que democracia foi esta que os militares e seus cúmplices tanto alardeiam?

Está mais que comprovado que em 64 houve um Golpe de Estado e o que se seguiu por vinte e um anos foi uma ditadura militar.

Grande parte das elites nacionais, o capital estrangeiro, o governo dos EUA e uma expressiva parcela da sociedade civil apoiaram este regime enquanto os indicadores econômicos e sociais apresentavam melhoras até meados dos anos 1970.

A partir de meados dos anos 70, a desaceleração do crescimento econômico, o avanço das desigualdades sociais e o aumento do desemprego e dos passivos financeiros do governo criaram um ambiente de crescentes mobilizações e manifestações contrárias ao regime. Os militares tiveram então que ceder, até que foram desalojados do poder em 1985 com a vitória de uma candidatura de oposição, Tancredo Neves.

A constituição cidadã, em 1989, sedimentou o novo ambiente pautado na democracia, nas liberdades e nas garantias individuais. Pela lei da anistia “ampla, geral e irrestrita”, os crimes cometidos pelos agentes públicos ficaram sem investigação, logo sem punição.

Foram vinte um anos marcados por sequestros, arapongagem, censura e intimidações. Mentem aqueles que insistem ter havido liberdade.

Foram vinte e um anos de prisões arbitrárias, julgamentos de cartas marcadas, humilhação, tortura, estupros de custodiados, sequestros e execuções. Mentem aqueles que afirmam ter sido este período marcado por “anos democráticos”.

Mentir é tão criminoso quanto o golpe de 64 e o regime ditatorial imposto a partir dele.

É inaceitável comemorar o golpe e inadmissível defender a ditadura.

NAZISMO, DE ESQUERDA!?

O posicionamento de Jair Bolsonaro sobre o Nazismo (Nacional-Socialismo) classificando-o como de “esquerda” - o que implica numa ideologia anticapitalista - contraria até mesmo o discurso oficial do III Reich, conduzido por Hitler na condição de “Fuhrer” (1934-1945)

Todos os pronunciamentos de Hitler, de seu Partido (NSDAP), de seus ministros confluíam na defesa da ordem burguesa e capitalista, no combate sistemático às esquerdas, na postura contrária ao liberalismo econômico e ao liberalismo político, enfim eram enfáticos na defesa da propriedade privada dos meios de produção, do lucro e da economia de mercado.

Hitler, à frente do NSDAP - sigla do Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei -, se definia como “nacional-socialista”, que em nada se assemelha ao “socialismo” propugnado pelo Karl Marx ou ao “comunismo”, este também defendido pelo anarquismo bakuninista.

Ater-se às nomenclaturas ou aos rótulo significa conhecer o evento ou o objeto em sua superfície ou, no limite, conhecer uma versão e ignorar outras.

Nossos alunos dos ciclos fundamental I e II conhecem fatos e objetos também de maneira superficial. Quando alcançam o Ensino Médio, revisam conceitos apreendidos e aprofundam na investigação pra melhorarem a conceituação e estabelecer relações entre um e outro evento contemporâneos ou entre passado e presente. Araújo e Bolsonaro parecem ter, sobre este fato, parado nesta primeira ou “primária” abordagem.

Será?

Ambos cursaram todos os níveis de ensino, tiveram aulas sobre este tema e, provavelmente, leram a respeito, logo não se trata de falta de informação.

Então o que seria?

Desonestidade intelectual? Escárnio? Ou Cinismo?

Os três juntos e misturados.

HISTÓRIA DELIRANTE

Parto da convicção de que o regime político chefiado por Hitler na Alemanha entre 1933 e 1945, era socialista. A pretensão do Fueher era, portanto, destruir o sistema capitalista.

Com a situação consolidada na Alemanha, Hitler resolveu ocupar o leste europeu e a URSS. Em 1917, havia ocorrido na URSS uma revolução liderada por Lênin que era cristão ortodoxo e pró capitalista. Stálin, judeu enrustido, sucedeu Lenin optou por subverter a ideia original.

A proximidade entre Stálin e os banqueiros judeus da Inglaterra e dos EUA foi a gota d’água pra que Hitler invadisse o ”País dos Urais”, em três frentes: Stalingrado, Moscou e Leningrado.

Mussolini, apoiado pelos sindicatos italianos  após ter-lhes concedido muitas benesses, se prontificou a colaborar com Hitler nas ações anexionistas pelo norte da África. Enquanto isto, na Ásia, outro aliado de Hitler,o Japão ocupava a China. No grande país asiático, os japoneses tiveram a colaboração dos nacionalistas chineses que também eram comunistas. Mas, numa grande artimanha diplomática, os EUA e a Inglaterra conseguiram dissuadir os chineses a mudarem de lado.

A contenção do ímpeto dos três “Impérios Vermelhos” (Alemanha, Itália e Japão), foi possível graças ao pacto firmado em 1942, entre os EUA, Reino Unido, União das Repúblicas Socialistas (socialista pra ter apoio do proletariado) e Soviética e China, do esquerdista Chan Kai-Chek.

Em 1945 a guerra acabou, os esquerdistas Mussolini e Hitler morreram e o Japão, ocupado pelos EUA, já governados pelo esquerdista Harry Trumam. Era o fim da aliança que queria destruir o capitalismo mundial. Paradoxalmente, a cor vermelha continuou integrando as bandeiras dos derrotados e dos vitoriosos.

Entre 1945 e 1989, o mundo se viu diante de uma disputa pela hegemonia entre a URSS e os EUA. Nos EUA os governos estiveram sempre alinhados ao economista de esquerda Johnson Maynard Keynes que pregavam a intervenção estatal e o assistencialismo para os pobres e na URSS, o governo composto de judeus tornava-se dono de tudo tal qual a China. Era o “Capitalismo de Estado”, de um lado, e a escravidão do proletariado, do outro.

Na América Latina, neste contexto marcado pela “Guerra Fria”, havia um temor de que a direita pudesse avançar mais, depois que se implantou em Cuba o “Capitalismo de Estado”. Por isso os militares na região, alinhados com a maioria civil (comumente patriótica e democrática), assumiram vários governos. No Brasil em 1964, inclusive. Evitaram, portanto, que o Brasil se tornasse um “satélite de Moscou”. Felizmente a ordem democrática foi preservada, ainda que fosse preciso abater alguns fascistas, seguidores do marxismo.

Foram anos de democracia, de prosperidade e nenhuma corrupção. Os jornais e a classe artística e ciência, sempre muito atentos, tinham liberdade pra denunciarem algum desviozinho.

Passada a Guerra Fria, o mundo se vê refém do “Globalismo”, uma ordem geopolítica concebida pelos “gramscianios” e o seu “Marxismo Cultural”. Provocadores da crise de 2008, por terem implantado um modelo econômico muito permissivo aos trabalhadores e que elevou a dívida dos governos pelo mundo.

No curso desta crise, lideranças políticas sensíveis ao sofrimento dos mais pobres têm se desdobrado pra reverterem a situação. Donald Trump, atual presidente dos EUA, talvez seja o exemplo maior. Um bilionário, desapegado e, preocupado com os desempregados, que obteve o apoio da maioria dos eleitores e GRAÇAS A DEUS pra governar está que é a maior economia do mundo.

O Brasil, que sempre gostou de desafios, também está vivendo uma grande mudança. Bolsonaro, um ex-militar resolveu arregaçar as mangas pra ajudar o povo a ter dias melhores, assim a maioria do eleitorado purgou o capitão Bolsonaro pra governar a todos. Bolsonaro afirmou ter nascido pra ser militar, mas não poderia deixar de atender à providência divina.

Trump e Bolsonaro agora precisam unir esforços pra construírem um mundo sem globalismo (não plano em razão de ser ainda uma hipótese), sem corrupção, seguro (militarizado) e próspero.

História adverte: estória ainda que hilariante, pode conter doses de perversidade e causar idiotia.

CONVERSA NA BARBEARIA

Conversa na barbearia

No final de setembro de 2018, tive uma interessante conversa numa barbearia onde havia ido pra cortar meu cabelo. Como se sabe o ambiente político era muito tenso devido ao acirramento da disputa presidencial, por isso sempre procurava ser prudente nas conversas, sobretudo com estranhos.

Era uma quarta feira por volta de 16:30, havia ministrado três aulas e outras três aulas precisariam ser ministradas a partir das 18:30.

Enquanto aguardava minha vez, o cliente que estava sendo atendido, ao ouvir de mim que estava no intervalo do trabalho, quis saber sobre minha profissão. Ao responder-lhe que era professor de História, ele então comentou: “então você também é um doutrinador de esquerda”. Pela expressão de seu rosto, intui que estivesse falando sério.

Serenamente respondi-lhe que não me via como um “doutrinador de esquerda”, mas que eu poderia estar enganado. Sugeri então que fôssemos até a escola onde daria outras três horas de aulas pra que ele pudesse se certificar “in loco”, assistindo à uma destas aulas. Agradeceu-me pelo convite, mas preferiu declinar argumentando que precisaria comandar um culto em sua congregação. Novamente intui de que se tratava de um pastor.

Com os cabelos já devidamente cortados e aparentemente constrangido pela resposta e a proposta que eu lhe fizera, o senhor nos cumprimentou e foi embora. Saiu tão apressadamente que sequer agradeceu-me pelo convite, tampouco retribuiu convidando-me para um de seus cultos.

Logo em seguida, perguntei ao barbeiro, será que ele aprendeu alguma coisa com esta conversa? O barbeiro, com a sabedoria popular que lhe é própria, respondeu-me: “Professor, ainda que ele não admita, ele aprendeu sim.”Conheço-o bem, pois somos “irmãos em Cristo”.

Assim que paguei pelo serviço, agradeci ao barbeiro, também por ele ter me chamado de “professor”, afinal de contas não é muito comum que me chamem de “professor”. Particularmente creio que muitos dos meus alunos prefiram me chamar de “professor”, pois meu nome que é um tanto quanto incomum. Até hoje os alunos não um apelido que de fato “pegasse” kkkk

Mas o melhor estava por vir. O barbeiro disse ainda que tinha acabado de assistir à uma “boa aula”. Pensei com meus botões:  ... realmente o que determina o quão boa é uma aula é o interesse do aluno e as lições que este aluno extrai da aula. Naquela meia hora, o barbeiro convertera-se num aluno circunstancial.

Recentemente retornei, como de costume, à barbearia e novamente fui recepcionado com um sonoro “Boa tarde, professor!”

PS havia escrito este texto no início de março e ontem, após deixar a barbearia que não era esta, lembrei-me de que não o havia ainda publicado.

NOTRE DAME DE PARIS

Por Cires Pereira

Encrustada na Ile de La Cité e envolta pelas águas do Sena, você assistiu aos movimentos de uma história de 850 anos, que deram a Paris tantos adjetivos, incluindo “cidade iluminada”.

A cidade que se curvou aos seus pés, sempre umedecidos pelo Sena, agora assiste, impotente, seu choro em meio ao fogo que te consome.

Eiffel, Triunfo, Concorde, Tulherias, Champs Elisé, Inválidos, Vendome, Sacre Couer, todos hoje lamentam as chamas que dilaceram seus contornos e seus diversos ventres.

Você que acolheu o matrimônio de Henrique de Navarra Bourbon e a Rainha Margot, dando início ao longo período comandado pelos Bourbons.

Você que cedeu a Víctor Hugo suas torres pra uma das mais belas narrativas de amor, donde Quasímodo amava platonicamente Esmeralda.

Você que nos ”setecentos” foi poupada pelos revolucionários desejosos por uma Nova França. E, de novo, poupada pelo intruso Fuerher, cento e cinquenta anos depois.

Você que cedeu seu altar a Napoleão I pra que pudesse ser coroado, diante do embasbaque da Santa Sé, evento devidamente imortalizado pelo grande pintor Jacques-Louis David.

Como fostes majestosa, “Nossa Senhora”!

Seu imenso e sacro portal adornado por um grande “juízo final”, este protagonizado pelo Cristo que mensura o peso das reles almas.

Oh templo histórico (com as vênias dos cristãos) entornado por gárgulas, pra alguns tétricas, que fazem as vezes de sentinelas.

Seu grande corpo enlaçado pelos seus vitrais caleidoscópicos, confirma a estética gótica, o suficiente pra a “Saint Denis” enciumada.

Dona de gigantescas rosáceas que emolduram o transepto de seu robusto corpo em sinal de Cruz. Com arcobotantes que mais parecem costelas ancorando vitrais e pedras, és também robusta, "Notre Dame"

Seu órgão que todos os dias recitava notas que ecoavam até os ouvidos de sua velha amiga, a Saint Chapelle, agora emudecido e retorcido, jaz nas entranhas carcomidas pelo fogo.

Aguardemos sua ressurreição Notre Dame, embora francesa, você é de todos nós que sabemos bem sobre sua importância na trajetória humana dos últimos oitocentos anos.

TERROR NO SRI LANKA

Atentados contra católicos que celebravam a “Páscoa” no Sri Lanka matam 290 pessoas e deixam mais de 400 feridos. Nenhum grupo ainda reivindicou ainda a autoria destes atentados ocorridos em três templos católicos e quatro hotéis de luxo pelo país.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Sri Lanka é uma ilha localizada no Oceano Índico ao sul da Índia. Foi colonizada pelos portugueses até meados do século XVII, quando os holandeses tomaram a ilha e por lá permaneceram até o início do século XIX. Os ingleses foram os derradeiros colonizadores do “Ceilão”, por lá ficaram até a independência em 1948.

O evento mais impactante após a independência do Sri Lanka, foi a guerra civil, iniciada em 1983, entre as forças governamentais apoiadas pela maioria cingalesa (budistas) e a minoria étnica Tamil (hinduístas) que se concentra no extremos norte e leste da país.

Nos final dos anos 70, os Tâmeis, que sempre se sentiram excluídos pelos governos de maioria budista e cingalesa, criaram uma força paramilitar pra lutar pela separação das regiões onde eram majoritários, os Tigres De Liberação da Pátria Tamil”

Em 2009, soldados do governo mataram Prabhakaran, líder dos “Tigres” e a guerra chegou ao fim.

Depois da guerra civil, a intolerância continuou, pois têm ocorrido, esporadicamente, atentados reivindicados por organizações radicais, vinculadas aos “ex-Tigres”, aos muçulmanos sunitas que constituem 10% da população e por radicais budistas.

O clima tenso sempre existiu no país antes e depois da guerra civil. Tanto do lado dos budistas, quanto do lado das minorias religiosas sempre existiram pessoas e organizações dispostas a tudo. Fica difícil encontrar os verdadeiros culpados, ainda que saibamos quem desferiu os ataques.

POEMA - UNIVERSIDADE

O que seria
... da arte sem a filosofia?
... da ciência isenta de arte ?
... da filosofia desprovida de ciência?

O que seria
... da história sem a biologia?
... da biologia sem o rumo da pedagogia?
... da pedagogia incólume à história?

O que seria
... do teatro sem a literatura?
... da literatura que não “dá” química?
... da química órfã do teatro?

O que seria
... da arquitetura sem a música?
... da música indiferente ao direito?
... do direito desamparado da arquitetura?

O que seria
... da física sem a educação?
... da educação indiferente à antropologia?
... da antropologia sem o atrito da física?

O que seria
... da medicina sem a estatística?
... da estatística dissociada da sociologia?
... da sociologia sem a diagnose da medicina?

O que seria do indivíduo sem a arte, distante da ciência e alheio à filosofia?

O que seria da sociedade sem o direito, desprovida de educação e desvencilhada da história?

O que seria de nós sem a medicina, sem a linguística e sem música?

Pra quê precisaríamos da astronomia se prescindíssemos da geografia?

Pra onde iríamos sem a escola?
Onde estaríamos sem a cultura?
Quem seríamos sem a política?
O que faríamos sem a economia?

O arquiteto que não canta
O músico que não cura
O médico que não conta

O filósofo que não pinta
O economista que não borda
O político que não educa

O artista que não investiga
O químico que não advoga
O escritor que não testa

Época sem registro
Sociedade inodora, sem cor

Universidade, a vida suscetível à análise!

ELITES TUPINIQUINS NA ENCRUZILHADA


As elites brasileiras apostaram todas as fichas numa alternativa extremista e direitista, crendo ser a única opção pra voltar a encher suas burras de dinheiro. Um ledo (e surrado) engano!

Agora se vêem prisioneiras de um governo comandado por um idiota que não passa de um arremedo de tirano. Um governo inepto que usa e abusa de expedientes conservadores (e ultrapassados) e de uma narrativa que flerta com o insano e o escatológico.

Os quadros dirigentes escolhidos pelo ególatra são tão ou mais idiotas que ele. Imagino o quão os liberais europeus e norte-americanos estão estarrecidos com a obtusidade de suas crias tupiniquins. Algumas crias de coturnos, outras prospectadas nos púlpitos e aquelas  “treinadas” por uma espécie de reencarnação de Rasputin, ora residente na Virginia.

As elites brasileiras, desnorteadas, não encontraram ainda um plano B capaz de limpar esta pútrida e nauseabunda gosma que se espalha (e compromete) pelo chão de um país que havia se acostumado a ser democrático.

O tempo urge, afinal de contas os indicadores sociais e econômicos confirmam que a roda da economia patina e, o que é pior, com viés de travar na íngreme viela que serpenteia a derradeira serra antes do precipício.

Charge: “Marcha  ao Abismo” de Iotti (Jornal Zero Hora RS).

VAZA JATO - O INVERNO JÁ COMEÇOU

Nada é melhor que um dia após outro: o embarque de Sérgio Moro no governo Bolsonaro foi um bom negócio pra o governo. Seis meses depois, Moro passou a ser um PESO, ainda que o governo não admita em público.

Mantê-lo no governo compromete o “derradeiro bastião” de boa imagem que dispunha Bolsonaro perante seus eleitores.

O dito popular “não basta ser honesto é preciso parecer ser honesto”, aqui se inverte: “não basta parecer ser honesto, é preciso ser honesto”. As primeiras revelações sinalizam a formação de um arranjo pra aviltar a lei, Moro e Dallagnol à frente.

A escola do jornalismo estadunidense é célebre numa estratégia que chega a “mover até montanhas”, presidentes inclusos. Primeiro denúncia um dolo menor pra fazer com que o denunciado se mova. A ideia é que o denunciado seja “enforcado pelas próprias tripas” quando outras denúncias, ainda mais “cabeludas”, forem feitas.

Richard Nixon e Gerald Ford (ex-presidentes dos EUA) não me deixam mentir. Suas reputações foram aniquiladas devido ao Escândalo Water Gate de 1973. Este não teria ocorrido sem a meticulosa investigação dos jornalistas  do “Washington Post”, Bob Woodward e Carl Berstein.

O jornalista Glenn Greenwald é a melhor e mais atual expressão desta “escola americana”. Não foi por acaso o seu prêmio Pulitzer de Jornalismo por matéria muito semelhante a esta que abala as colunas de sustentação da República.

Confesso que não esperava tanto amadorismo do governo em manter a carniça que tanto empestia o Planalto. Talvez porque o Planalto já esteja acostumado com as emanações nauseabundas desde agosto de 2016, agudizadas desde janeiro de 2019.

Em Brasília o inverno é muito seco e já começou!

REFORMA DA PREVIDÊNCIA 3 - 379 REFORMADORES

Pois é, vocês conseguiram!
Por alguns milhões em verbas e
Decisivos pra continuarem por aí
Trataram de encher as burras
do erário público às custas do “qualquer”.
Não os nominarei, seus inomináveis!
Mas são 379, isto sabemos!

Há neste vasto país
Uma casta que não perde
Uma casta que sempre ganha
Desta, pouco ou nada será subtraído
Continuará casta abastada.

Definitivamente vocês não são amadores
Sabem fingir de sonsos, mas na hora H
Golpeiam com precisão
Acionam suas arcadas bem cuidadas
Sangram os miseráveis.
Também não nominarei seus integrantes, sabemos quem eles são!

Mas, advirto, cuidado pra não matá-los
Vocês precisam dos votos deles pra
Continuarem por aí fingindo ser “do povo”
Vocês são sagazes, golpeiam e ferem
Não matam, é verdade!
Mas deixam suas presas inertes.

O “mercado” está exultante com vocês
Que seguiram à risca seu ditame
Usurários de todos os matizes
Continuarão por aqui pra surrupiarem
O trilhão do “Guedes”
Graças a vocês, seus espertinhos!

Ao miserável resta uma coisa
Esquecer a infinitude do tempo de trabalho
Até que a morte o leve, deixando o inferno pra trás.
Enfim, repousar nalgum canto do “seu” céu!

REFORMA DA PREVIDÊNCIA 2 - UM TAL DE ZÉ

Zé, homem simples que trabalha desde criança
Da casa pra o trabalho, do trabalho pra casa
Aos domingos, missa na capela
Depois de uma pelada no campinho

Disseram-lhe que faltavam cinco ano pra se aposentar
Seus problemas de saúde,  causados por anos de trabalho
Só poderiam ser cuidados quando parasse de “se imolar”.
Antes disto, poderia perder o trampo.

Depois de tanta explicação sobre o que se passou na capital, Zé então soube:

Que trabalhará não apenas 5, mas 10 anos pra se aposentar
Que o minguado provento será ainda menor
Que o país precisa atrair ricos do estrangeiro
Que a pátria deveria estar está acima de tudo.

Zé virou pro canto pra dormir, não conseguiu
Saltou da cama assim que seu galinho cantou
Montou em sua “gansa” e rumou pra fábrica
Zé deixou de assobiar, não havia mais motivos.

REVOLUÇÃO FRANCESA - BASTILHA

No dia 14 de julho de 1789, portanto há 230 anos, populares em Paris tomavam o edifício da Bastilha, donde o agonizante regime monárquico absolutista enclausurava “opositores”.

Tornou-se um evento emblemático na luta pela liberdade.

A partir dele, a mobilização por mudanças pautadas nos princípios advogados pelos iluministas dificilmente seria contida.

O cenário marcado por quedas nos indicadores sociais e econômicos contribuía pra esta mobilização envolvendo amplos setores da sociedade francesa.

Ainda que representantes dos interesses da burguesia tenham se apropriado do Estado francês, as mudanças ensejadas por esta mobilização edificaram um novo país. Desde então, as demandas populares precisariam ser no mínimo consideradas pelos governos, face ao crescente nível de organização e mobilização dos “sans-cullots” (populares).

No final do século XVIII, a tomada da Bastilha, as jornadas populares, o”Grande Medo”, o cerco ao Palácio das Tulherias e a conjuração dos iguais reforçaram a imagem de uma sociedade em movimento e em luta por menos injustiça, menos desigualdade e por democracia.

REFORMA DA PREVIDÊNCIA 1

O governo e especialistas projetam uma economia de 1 trilhão de reais em 10 anos com a “Nova Previdência”. Uma previsão absolutamente crível. Espera-se que a previdência pública não mais “subtraia” dos cofres da União, recursos que alimentam o seu passivo (Dívida Pública Mobiliária).

Alega o governo que a crescente DPM contribui pra reduzir a confiança dos credores na capacidade do governo em honrar os pagamentos dos juros. Por conta desta desconfiança, os juros continuam altos, alimentando mais quem empresta (usurários) e quase nada quem empreende e, supostamente, contrata mais.

Este ciclo vicioso reforça a ideia de que o Brasil é um paraíso para bancos e rentistas, e tem sido mesmo!

O governo sustenta que é preciso voltar a ter sua dívida sob limites. Pra que se assegure o que se ganhou recentemente (governo Lula), o selo de bom pagador e o “grau de investimento”, junto às agências internacionais de risco como Moody’s, Fitch e Standard & Poor’s nos anos de 2008 e 2009.

O “Investment grade” poderia atrair investidores e investimentos pra alavancar a economia gerando emprego, renda adimplência e liquidez. Por isso o governo tem procurado se comportar dentro dos limites concebidos e impostos pelo modelo neoliberal. É o tão surrado “tripé econômico”: câmbio flutuante, metas fiscais e metas inflacionárias.

Em outro flanco, o governo espera renunciar à grande parte de seus negócios e empresas, restabelecendo o processo de privatização que havia sido impulsionado nos anos 90 por Collor, Itamar e FHC.

MAS, E A REFORMA TRIBUTÁRIA?

Considerando a natureza deste governo (e sua fonte doutrinal) e a correlação de forças no parlamento que é amplamente favorável ao “mercado, portanto seguidora do modelo neoliberal, é possível projetar o que está por vir.

Os tributos sobre renda e consumo continuarão elevados e a tributação sobre grandes fortunas e patrimônio bastante  indulgente e convidativa. Todos sabemos que é possível economizar 10 vezes mais o que se espera com a “Nova Previdência”. Ou seja, economizar 10 trilhões de reais em 10 anos.

É PRECISO ter a coragem de reduzir drasticamente as renúncias fiscais para o sistema financeiro privado, a indústria e as exportações.

É PRECISO ter coragem de ampliar os tributos sobre as maiores rendas no país. Como exemplo, uma renda milionária paga no máximo 6%.  E sobre o patrimônio.

É PRECISO ter coragem em cortar os privilégios que dispõem, por exemplo, as instituições religiosas.

É PRECISO ter coragem de punir com rigor a sonegação fiscal no país, ampliando penas e fiscalização.

É PRECISO acabar com os altos salários que se paga nos três poderes, além dos “penduricalhos”

Enfim é PRECISO outro governo e outro parlamento, jamais os que ora se apresentam. As eleições são o meio, dentro da ordem liberal e democrática, pra reverter este cenário, e assim tentaremos.

Sigamos, pois, em movimento e em luta!!!

MEDO E VIOLÊNCIA

Prof. Cires Pereira

O MEDO provoca violência e a VIOLÊNCIA provoca o MEDO, eis o ciclo vicioso. Ele e ela se retroalimentam. Numa rápida (e superficial) espiadela na história, este ciclo é, invariavelmente, comprovado.

Na Grécia Antiga uma crescente onda de MEDO gerada pelas incursões persas, fez com que os gregos se preparassem belicosamente pra resistir ao “assalto persa”.

Lideranças eclesiásticas judias semearam o MEDO em suas bases tendo em vista ao avanço de uma alternativa de fé erigida por Jesus e seus discípulos. MEDO que justificou o emprego da VIOLÊNCIA contra os “cristãos”, em comum acordo com as forças romanas estacionadas em Samaria, Judeia e Galiléia, à época províncias romana.

Mil anos depois, na Europa Ocidental, os deslocamentos dos magiares, pelo leste; dos escandinavos, pelo norte e dos muçulmanos, pelo sul espalharam o MEDO entre os europeus cristãos. Este MEDO nos habilitam a compreender o emprego da VIOLÊNCIA contra os “pagãos intrusos” por parte dos senhores donos de feudos e castelos e dos governantes sob o manto (supostamente sagrada) estendido pela Cúpula Católica. A reação católica se deu tanto na Península Ibérica, sul da Europa e Oriente Médio, quanto no norte visando “converter os crentes de Odin”.

No final do século XVIII, na França, a sanha revolucionária contra o Antigo Regime, provocou MEDO entre aqueles que, privilegiados, não queriam mudanças. Foram muitos os nobres que deixaram o país pra se unirem aos governos absolutistas europeus visando uma REAÇÃO VIOLENTA contra a Revolução. Até mesmo na França, o clero mais refratário às mudanças espalhou o MEDO entre os camponeses pra que estes se unissem, valendo-se de todos os meios, à Igreja contra a Revolução.

No México, na segunda metade dos anos 1920 também foi o MEDO, espalhado pelos clérigos mais conservadores, que implicou no emprego da violência reacionária pelos “Cristeros” contra os defensores das mudanças sacramentadas na Constituição de 1917. VIOLÊNCIA que custou a vida de varias pessoas, incluindo a do Presidente Álvaro Obregón.

Nos EUA ao longo dos anos 1950, o Senador Joseph McCarty soube-se se aproveitar da onda de MEDO provocada pelo “perigo vermelho” pra encabeçar a campanha VIOLENTA contra quem fosse flagrado em “conduta suspeita de impatriotismo” ou que estivesse alinhado às “forças do mal”, lideradas pela URSS.

Em toda a América Latina, desde a instalação de um governo hostil ao governo dos EUA em Cuba, espalhou-se o MEDO diante da “iminente sovietizaçao”. MEDO que justificou o emprego da VIOLÊNCIA pelos Estados, sob controle de ditadores militares, contra indivíduos suspeitos de se alinharem ao “Império Vermelho”.

Por fim o Brasil que nos últimos cinco anos tem sido palco de uma onda conservadora que resultou na vitória eleitoral de um candidato que soube-se aproveitar do MEDO  incrustado em muitas pessoas.

MEDO de perderem o que tem, face ao agravamento da crise; MEDO de que o Brasil possa se assemelhar à Venezuela e o MEDO de que na região há um consórcio de organizações esquerdistas se preparando pra dominar a região.

Enfim estes “MEDOS”, fundados ou não, têm, paradoxalmente, encorajado algumas pessoas a defenderem abertamente um governo que considera a VIOLÊNCIA a única forma de combater o o próprio MEDO.

Quem espalha o MEDO, deseja pavimentar um caminho em que a VIOLÊNCIA passe a ocupar o papel principal. Cabe-nos informar, conscientizar e combater tanto o MEDO quanto a VIOLÊNCIA.

23 de julho de 2019

CANTO LÚGUBRE

As urnas pariram o pútrido
Um governo obtuso e raso e
Um parlamento abarrotado de “nadas”
Este, prenhe de propósitos infames
Onde abundam arrivistas e chupistas.

As urnas escarraram o soturno
Pústulas que pululam no roto tecido social
Escroques que imaginávamos abatidos
O construído com vagar, agora é devorado
Nas chamas sopradas por chauvinistas.

As urnas erigiram a distopia
Que graça (e dilacera) inclemente
Uma terra outrora diversa e amável
Agora é cativa de uma gosma ”ocreada”
Produzida pelos tons subtraídos do pendão...

          ... desta mesma terra!