ADOLF EICHMANN E A BANALIZAÇÃO DO MAL

CIRES PEREIRA
Adolf Eichmann no Tribunal em Israel e Hannah Arendt

Na Alemanha hitlerista muitas pessoas de bem foram cooptadas pelo regime para se comportarem como más. Estas, simplesmente, obedeciam ao comando sem fazerem qualquer juízo de valor sobre estas ordens. É público e notório que o regime nazista (1933-1945) subtraiu as liberdades individuais e coletivas e submeteu a coletividade à razão do Estado, portanto um regime de exceção e ditatorial num país até então democrático.

Uma das metas defendidas por Adolf Hitler e sua equipe era restabelecer o orgulho alemão que havia sido “humilhado pelas cláusulas do infame Tratado de Versalhes” que havia imposto aos alemães duras penalidades que, se honradas, arruinariam a nação. Dotado de um discurso ufanista, anti comunista, antissemita, militarista e revanchista, Hitler e os nazistas souberam convencer a maioria dos alemães de que a crise do início da década de 1930 só poderia ser debelada por um governo totalitário e nacionalista.

Adolf Eichmann, aparentemente bom e honesto, era um destes alemães que desde cedo se engajaram nesta “sórdida aventura”. Após terem instalado a ordem totalitária, os nazistas trataram de, literalmente, armar o país para a “reconquista do espaço vital”, o que significava provocar um novo conflito que pudesse modificar a ordem mundial favorável aos governos que saíram vitoriosos da “Grande Guerra”, a saber: o americano, o francês e o britânico. Antes, porém era preciso enquadrar a maioria dos Alemães à razão do Estado, subtraindo dela o direito de ser livre e, por conseguinte, a restrição ao direito de pensar. Muitos e muitos “Eichmanns” eram necessários pra que fosse possível materializar uma nação poderosa com homens e mulheres unidos e submissos. 

As “minorias” que, segundo o regime, eram constituídas por quem não queriam e/ou não podiam colaborar precisariam ser segregadas, contidas e, se preciso, eliminadas: Quem não queria este projeto? Ora, os democráticos e as esquerdas. E, quem não podia? Segundo os nazistas, os “loucos, homossexuais, imigrantes e os judeus, estes interessados mais na construção de uma pátria pra eles e menos na Alemanha onde moravam.” A implacável ação do regime contra todos estes poderia provocar uma comoção na maioria o suficiente pra que esta maioria revisse o apoio ao regime. Era preciso então criar condições pra que a maioria, constituída em grande parte pelos “Eichmanns da vida”, não se sensibilizasse com a desgraça alheia e pensasse apenas em seu bem estar e no bem maior da “nação dos arianos, uma nação vocacionada à liderança mundial”.

O nazismo, com a aquiescência das elites alemãs e até de governos que se diziam liberais e democráticos, tratou de disseminar a barbárie dentro e fora da Alemanha, custando as vidas de milhões de seres humanas, muitos dos quais judeus que após serem escravizados eram abatidos como animais nos campos de concentração.

Derrotada novamente em 1945, o regime nazista foi destruído e aquelas lideranças que não se mataram foram levadas ao tribunal internacional em novembro do mesmo ano na cidade de Nuremberg. Adolf Eichmann conseguiu fugir, mas acabou sendo capturado na Argentina em 1960 por agentes do serviço secreto israelense, o Mossad. Conduzido a Israel, foi julgado e sentenciado á morte no ano de 1962. Eichmann havia sido um destacado dirigente nazista que se encarregou pelas delas deportações de judeus para os campos de extermínios nas zonas dominadas no Leste europeu pelos nazistas. Hannah Arendt (1906-1975), filósofa alemã, valeu-se deste julgamento pra escrever um de seus principais livros: “Eichmann, a banalidade do Mal”. Neste ele observou, na conduta de Eichmann, a síntese da banalidade do mal. Eichmann, durante todo o julgamento, não se viu como um culpado e dizia desconhecer qualquer crime que tenha sido a ele imputado. Eichmann, reiteradas vezes, dizia que não fez nada além do cumprimento de ordens superioras, isto é, tudo lhe fora imposto pelos seus superiores, no caso, Heinrich Himmler, comandante do Exército e Adolf Hitler (Fürher do III Reich).

Arendt interpretou a conduta de Adolf Eichmann, partindo da premissa de que a massificação da sociedade cativa à “razão do Estado” havia criado uma multidão de indivíduos incapazes de fazerem julgamentos morais, acatando ordens sem nenhum questionamento. Simplesmente cumprem o que é ordenado. Para Arendt, Eichmann, não era propriamente um monstro, mas um funcionário público que não resistiu às ordens superiores e as cumpriu. O mal é então banalizado. Hannah Arendt, em suma não estava sendo indulgente com os crimes de Eichmann. Muito pelo contrário, pretendia compreender a maldade com o intuito de combate-la desde sua origem e tirar deste triste episódio uma lição para evitar outros semelhantes no futuro.
0