ANÁLISE SOBRE A PROVA DE HISTÓRIA DA 1ª FASE DO VESTIBULAR UFU JUNHO DE 2018

Professor Cires Pereira
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Por força de ofício, na condição de professor do ensino Médio, tenho acompanhado os processos seletivos da Universidade Federal de Uberlândia ao longo dos últimos 25 anos, particularmente as provas de História. Posso afirmar que já deparei com todo tipo de formato, nível de profundidade e grau de dificuldade. Confesso minha surpresa quando neste domingo li e resolvi a prova de História. Lamentavelmente uma surpresa negativa, pois esta prova destoou das demais dos últimos processos seletivos.

Neste texto, pretendo apontar e explicar o que me pareceu abaixo de um pré-requisito mínimo de seletividade.

O processo seletivo da UFU é constituído por uma primeira fase composta por questões objetivas de todas as disciplinas ministradas no Ensino Médio, num total de 110 questões, trata-se de uma fase que qualifica os vestibulandos para a segunda e última fase, esta constituída por questões discursivas de todas as disciplinas além de uma prova de redação.

Tem atraído muitos vestibulandos por se tratar de um processo realizado no “meio de todos os anos” e, como são poucas as instituições públicas que abrem processos no mesmo período, a UFU passou a constar no calendário de milhares de jovens que aspiram uma vaga numa de suas faculdades ou institutos.

Isto é muito bom para a instituição UFU, pois amplia a qualidade e diversidade do seu corpo discente.

Obviamente que esta condição exige da UFU a concepção de um processo seletivo cada vez mais alinhado com sua importância e extensão. Por se tratar de um processo muito concorrido, é preciso se esmerar para a confecção de questões que realmente selecione num universo tão ampliado e diversificado, com justeza aqueles que comporão seu quadro discente. Enfim, uma questão dentre 110, pode fazer uma enorme diferença e, eventualmente injustiça.

No tocante à prova de História da 1ª fase, aplicada no dia 03 de junho de 2018, a conclusão é de que ela pecou pela falta de seletividade, ainda que tenha sido uma prova equilibrada exigindo dos alunos conhecimentos da História em suas três frentes mais conhecidas: Geral, Brasil e América.

A seguir as questões (Caderno Azul prova tipo 4) que corroboram a tese de que foi uma prova pouco seletiva:

Questão nº 12: Exige que o vestibulando tenha conhecimento da denominação de uma organização do movimento negro (Legião Negra) no início do Governo Vargas (1930-1945) que rompera com outra organização (Frente Negra Brasileira) que atuava na resistência paulista contra o governo central. Provavelmente poucos ou nenhum manual didático do ensino médio apresenta este detalhe da denominação de um movimento, pois importa mais reconhecer a existência da resistência negra nos momentos definidores dos rumos da história brasileira ou então suas relações com outros movimentos dentro e fora do país. Esta é uma típica questão que o vestibulando “chuta”, tendo 25% de chances de acertar.

Questão nº 13: a alternativa correta é a letra B que menciona a fundação pelo governo Vargas do BNDES que a princípio era denominado BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico entre 1952 e 1982), considerando o “zelo” do examinador na questão 12, aqui tratado, espera-se que se valha de igual zelo nesta questão, assim a letra B deveria ser desqualificada e assim não haveria alternativas corretas.

Questão nº 15: a alternativa correta é a letra A que menciona Fra Angêlico e Donatello que eram pintores dotados de uma proposição humanista, portanto condizentes com o movimento renascentista daquele período. Poucas são as menções ao pintor Fra Angêlico como participante do movimento renascentista, o que de fato era. Não há nenhum erro nisto, contudo espera-se do examinador um pouco mais de sensibilidade com a realidade dos manuais didáticos e dos cursos que se ministram no Ensino Médio sobre o tema. Havia outras maneiras mais inteligentes, portanto mais seletivas, de tratar este tema numa prova de vestibular e não se limitar a um nome pouco conhecido. Curiosamente, os erros contidos nas outras três alternativas eram tão flagrantes que o candidato faz a questão por eliminação, tornando a questão muito fácil e, também por isto, pouco seletiva.

Questão Nº 16: Alternativa correta é a letra A que indica a Alemanha como último Estado Nacional a se consolidar na Europa Ocidental. O primeiro problema (ou erro crasso) resida no enunciado que diz “Esse processo se arrastaria até o século XIX quando surgiu (sic) a última nação (sic) por meio da unificação de reinos”. Ora há uma diferença importante entre os conceitos de “nação” e “estado nacional” a saber: Estado é a pessoa jurídica constituída por uma sociedade que vive num determinado território e subordinada a uma autoridade soberana. Portanto, é a congregação dos poderes jurídicos, legislativos, políticos e administrativos de uma nação. Nação, por outro lado é uma congregação humano, cujos membros, fixados em um território, são ligados por laços históricos, linguísticos, culturais e econômicos.

Não foi no século XIX que “surgiu” a nação alemã, neste século o Estado nacional Alemão foi o último a ser formalizado, exatamente no dia 1º de janeiro de 1871, com a proclamação do II Reich em Versalhes (França), logo após a rendição francesa diante dos alemães. O Estado-nação italiano foi formalizado meses antes, quando da incorporação da cidade de Roma à Itália, à revelia da Igreja católica. Tantas formas de tratar deste tema numa prova de vestibular e o examinador novamente se limita a uma mera questão de datas. Lamentável!

Questão Nº 18: Sobre a revolução Mexicana o candidato teria que assinalar a alternativa incorreta, a letra A menciona Porfírio Diaz como “um dos principais nomes da revolução”. Ora a revolução foi contra ele e não por ele conduzida. Uma questão que poderia ser bem seletiva, revelou-se uma das mais fáceis da prova.

Faço estes apontamentos para que nos processos seletivos futuros não se incorra em erros semelhantes. É sempre bom lembrar que nos cursos mais concorridos uma questão apenas altera parcela expressiva dos candidatos habilitados pra segunda fase, por isso é preciso que haja zelo na concepção e aplicação das provas, é preciso que o examinador tenha maior conhecimento da realidade do Ensino Médio.

Há problemas em quatro das dez questões e, certamente, isto fará diferença na composição das listas dos habilitados. Portanto, é injusto, pois fica a impressão de que habilitar-se pra segunda fase do vestibular UFU é mais um golpe de sorte do que o reflexo ou a recompensa de anos de estudos, renúncia e abnegação dos vestibulandos.

O vestibular UFU e, por conseguinte, a UFU podem (e devem) ser melhores, muito melhores do que isso.
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