A CRETINICE DO PSTU

Cires Canisio Pereira e Edilson Graciolli* 
*Cires Canisio Pereira é Professor de História na Rede Privada e Edilson José Graciolli é Professor de Ciências Políticas e Sociologia da UFU e militante do PCdoB


Trotsky definiu o fascismo como um movimento político que se alinha aos setores mais abastados da sociedade capitaneados pelo capital monopolista e financeiro e, como capacho do grande capital, coopta os setores pauperizados pela crise econômica, como trabalhadores sem emprego e marginalizados em geral. Mas é na classe média ou pequena-burguesia, atemorizada por esta crise e impotente frente aos avanços dos setores populares, que o fascismo encontra os sujeitos mais dispostos a alardeá-lo por todos os cantos e a qualquer hora. 
A princípio as hostes fascistas se resumem a pequenos grupos ensandecidos, valendo-se de palavras de ordem de fácil convencimento e, na medida em que a crise se agudiza, cooptando exatamente os setores mais vulneráveis e expostos à esta crise. Os setores populares em razão da dificuldade dos partidos de esquerda em apresentar-lhes o caminho da verdadeira luta por dias melhores que passa pelo enfrentamento à crise e pelo aprofundamento da ordem democrática para uma perspectiva de um governo popular e inclusivo. 

O fascismo é a contrarrevolução, ainda que não seja preciso que se instale uma “situação revolucionária”, ele atua de modo previdente, valendo-se de todas as armas que o Estado e o capital lhe fornecem. Gramsci evidenciou, também, como o fascismo expressa uma situação de ausência de hegemonia, de que é demonstração o uso corriqueiro à força e a supressão de direitos políticos que, numa democracia representativa, mesmo dentro do capitalismo, denotam um patamar de dominação em que a burguesia disputa a direção moral, intelectual e política. 

Para Trotsky era imperativo que as organizações de esquerda se apresentassem aos setores médios e populares para convencê-los da justeza e pertinência de seus programas. Numa situação revolucionária, caberia aos partidos revolucionários esta missão. 

Considerando que com fascistas não poderia haver diálogo, mas enfrentamento, Trotsky advogava como estratégia central de combate ao fascismo, a luta física e o combate militar com os bandos fascistas. Para isso, propunha a formação de grupos de autodefesa e milícias operárias, capazes de defender os bairros, sindicatos, greves e as mobilizações operárias. A partir de vitórias parciais nesses enfrentamentos, a confiança e a determinação dos trabalhadores seria paulatinamente restabelecidas e as bases fascistas desmontadas, permitindo assim passar a uma ofensiva mais generalizada que pudesse eliminar essas organizações.

Feitas estas considerações sobre o que pensava Trotsky em relação ao fascismo, vamos à questão que motivou o presente texto. O PSTU (antiga Convergência Socialista, corrente do PT e identificada com a LIT.QI - Liga Internacional dos Trabalhadores - Quarta Internacional). Trata-se de um partido que se reivindica do trotskismo e, comumente, se autoproclama “revolucionário”. Em artigo recente assinado por Gustavo Lopes Machado, publicado em seu site www.pstu.org.br , considera que não há, na atual crise brasileira, um quadro de infestação fascista.

O silêncio de suas lideranças aliado aos comentários de seus militantes, nos habilitam a depreender que este é entendimento do PSTU também. Republicaremos excertos deste artigo datado do dia 02 de abril de 2018 e intitulado “Não é avanço do fascismo o que está acontecendo no Brasil”, o faremos em negrito e na forma itálica e, em seguida, os nossos comentários.

“Fascismo virou xingamento, um mero adjetivo usado para desqualificar ações repressivas e posições conservadoras de todos os tipos”.

Não nos consta que o fascismo tivesse na Europa da primeira metade do século XX, uma só forma de se apresentar, ademais a truculência, ainda que não fosse sua forma mais adequada de persuasão, era muito usada.

“O fascismo se converte, assim, de xingamento em uma espécie de sujeito imaterial que, à maneira dos demônios, é o agente oculto por trás de todas as mazelas sociais e políticas”.

Jamais dissemos isto, pelo contrário, o fascismo é uma arma a serviço dos setores abastados que não aceitam que seu stablishment esmoreça. Não é imaterial, pois trabalha para o “Mercado” diuturnamente que, no Brasil é representado pelos financistas da Paulista, Gutierrez e Vieira Souto, respectivamente FIESP, FIEMG e FIERJ e assim por diante.

“Afinal, quem seria o alvo desse movimento fascista emergente no país? Evidentemente, o partido que há pouco foi afastado do poder: o PT. Se a democracia burguesa está ameaçada, se o fascismo marcha no horizonte, então urge uma frente única do conjunto da esquerda com o petismo tendo em vista derrotar a ameaça fascista. Daí se multiplicam, no seio da suposta oposição de esquerda ao petismo, as justificativas na já cansativa forma adversativa: “Não sou petista, o governo do PT não defendeu os trabalhadores, o PT não é socialista … MAS …”.

Eis aqui uma clara provocação aos partidos, como o PC do B e setores majoritários do PSOL, que se envolveram na luta em solidariedade ao PT e/ou ao Lula e de imperativa contenção ao avanço de forças políticas pleiteadoras de uma ordem autoritária e neoliberal, como advogam os fascistas de todos os cantos do planeta neste momento. O PSTU não vê isso, não somente por que não enxerga, mas por que, conveniente, não quer enxergar como um dia disse o dramaturgo alemão Bertold Brecht. Suspeitamos de que estejam apostando no “quanto pior, melhor”. A derrocada do governo que para eles, não passou de um governo “pequeno-burguês e neoliberal”, e a condenação de Lula, não resultaram de um golpe. Noutras palavras, chegam a ser indulgentes com as forças conservadoras e direitistas que tramaram e aplicaram este golpe e insistem ao considerar destituídos e destituidores como “farinha do mesmo saco”. Somente eles não o seriam, reiterando seu histórico (e suposto) “ortodoxissismo revolucionário”.

“Mas conservadorismo e fascismo de modo algum se identificam”.

Como assim? Afinal de contas, não é o fascismo uma ideologia contrarrevolucionária, defensora da ordem social hegemonizada pelo capital e amparada pela propriedade privada? 

Os fascistas não são apenas anticomunistas, são contrários à democracia liberal e aos governos reformistas que optam pela preservação da ordem democrático-liberal, logo são conservadores, pois se posicionam contrários a toda e quaisquer mudanças. Os fascistas são a expressão muito clara de pensamento único no campo político, da supressão de direitos resultantes das lutas proletárias.

“Diferente da máxima conservadora e liberal de defesa das instituições oficiais, o fascismo se caracteriza por uma organização que perdeu toda confiança em tais aparatos, inclusive no aparato militar oficial, adquirindo uma forma paramilitar, fortemente centralizada e apoiada em um movimento de massas. O fascismo não se caracteriza, portanto, por ações isoladas verificadas aqui e ali, mas por uma ação organizada e dirigida por um partido. Por um lado, trata-se de destruir diretamente e pela força o movimento socialista, por outro trata-se de buscar uma melhor posição para o país em questão no sistema internacional de Estados, no contexto da dominação imperialista”.

Ora esta missiva, deliberadamente, conspira contra a história, sabido é que os fascistas alemães, italianos, húngaros, portugueses, espanhóis, austríacos e japoneses assumiram os aparelhos de Estado não para dilacera-los, mas para sofistica-los e deixa-los como a princípio eram, aparelhos comandados por uma elite escolhida entre as elites. O instituto das consultas, e isto não era uma exclusividade fascista (que os bonapartistas o digam), era um meio mais sofisticado de consultar as massas sem dar a elas a prerrogativa da deliberação sobre um expediente do governo. As paradas militares fascistas não tinham outro propósito principal, senão o da cooptação, valendo-se da intimidação, pela força do Estado, em detrimento de uma “impertinente” reação individual

“Ora, se a necessidade de tal frente está colocada no Brasil nos dias de hoje, quem são os inimigos fascistas a serem derrotados? (...) Por repugnantes que sejam as posições de Jair Bolsonaro, e são, por exemplo, que raios de fascista é este que sequer possui uma organização, que é porta-voz do aparato militar oficial, um “nacionalista” que idolatra Donald Trump e defende uma política econômica liberal com Estado mínimo? Seria o MBL este movimento fascista cujas principais consignais são “liberdade econômica, separação de poderes, eleições livres e idôneas e fim de subsídios diretos e indiretos para ditaduras” assentado no ideal de cidadania?”

O PSTU está agora querendo que os fascistas metam uma cruz gamada na testa ou um feixe no ombro de suas camisas verde-amarelas para que ele possa vê-los em ação no país. Não admite que os “bolsonaristas” e o MBL, por defenderem a livre concorrência e a liberdade econômica, sejam fascistas. Imaginem um governo de Bolsonaro, amparado pelos truculentos “MBListas”, nós poderíamos ficar sossegados que nossos atos e publicações estariam garantidos. Ora, isso é de uma ingenuidade flagrante.

“Não sem razão, as ditas frentes antifascistas, encabeçadas pelo PT, quando saem as ruas, não encontram pela frente hordas fascistas prontas para o combate, mas um oceano de propaganda petista sob a forma de defesa do mandato de Dilma, repúdio a possível prisão de Lula, tudo isso adornado com astros da MPB.” 

O que se viu recentemente em Curitiba foi exatamente a expressão típica do fascismo quando seus arregimentados soltaram foguetes sobre os manifestantes que lá se encontravam pela libertação de Lula e contra a aeronave que pousava sobre a sede da Polícia Federal de Curitiba, podendo até derruba-la. Antes o atentado que vitimou Marielle do Psol e agora os tiros contra o acampamento dos que resistem ao cárcere de Lula. Ora isto não configura uma ação fascista? Que nome daria o PSTU a isto, uma festa em comemoração à democracia? (A propósito, análoga àquela que se viu em São Paulo patrocinada por um cafetão.)

“Muitos argumentam que ainda não existe um movimento fascista conformado, mas os germens de sua origem disseminados por toda sociedade. É curioso que tal argumento seja fundamentado em uma suposta onda conservadora, pois historicamente o fascismo se desenvolveu como contrapartida de um movimento operário forte e em ascensão. Não por acaso, nas primeiras décadas do século XX, Itália e Alemanha possuíam os mais fortes movimentos comunistas da Europa ocidental. Seja como for, ainda que tal movimento venha surgir no futuro, até lá, a frente antifascista estará a combater fantasmas ou, então, servindo de boi de piranha dos interesses petistas. A ameaça fascista, nesse caso, não passa de uma ponte argumentativa para que se diga: “Nós não somos petistas, não defendemos o PT, não aprovamos seus 14 anos de governo, MAS, diante da ameaça fascista do golpe e da onda conservadora, VIVA o PT! VIVA o eterno presidente Lula! VIVA os 14 anos de governo petista!”.

O PSTU não aprendeu com aquele que o tem como referência, definitivamente não aprendeu! O fascismo não se apresenta somente em meio à exasperação social e à possibilidade concreta de uma revolução proletária, ainda que ele tenha se manifestado primeiramente nestas condições no pós Primeira Guerra. Atualmente o fascismo ou “neofascismo” avança em todos os flancos no mundo onde há um quadro de crise em que as contradições inerentes do capitalismo ficam mais expostas. Ao contrário de antes, os fascistas pregam o uso de quaisquer meios para a conservação da ordem burguesa, inclusive a aplicação das teses econômicas de Ricardo e Smith e devidamente encaixadas numa ordem política autoritária seja esta qual for. 

O que para o PSTU é um mero “fantasma”, tem nome e rosto, traja camisa amarela, acumplicia com os liberais, com os clérigos conservadores, com a farda oficial e com as togas. Pra nós, não é outra coisa senão a mais nova face do famigerado “fascio”. PSTU se porta, assim, como uma espécie de “quinta coluna de um golpe” e, ainda que diga o contrário, dá as costas pra revolução e segue seu caminho de negação ao que Trotsky um dia concebeu e propôs. 

Lamentamos o fato de o PSTU continuar "pregando num deserto para uma meia dúzia de uns três ou quatro", quando deveria somar os esforços que as forças progressistas e de esquerda tem feito visando conter e destruir as alternativas conservadoras e direitistas. A atual crise brasileira pode e deve ser enfrentada por nós que pleiteamos um país menos injusto, menos desigual e democrático.
0