26 de março de 2018

JOSÉ PADILHA E O "MECANISMO" QUE O REGE

Cires Pereira
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"Em Deus confiamos" in: Dólar americano
Quanto vale o ser humano? Esta é uma indagação pra lá de infame, desde que continuemos um “bom selvagem”, como escreveu Rousseau¹. O meio social é corruptor e o indivíduo, sendo sociável, é corruptível, escreveu o autor de "O Contrato Social".
Esta é uma verdade que, felizmente, a maioria tenta subverter, do contrário seria preferível não vivermos mais. Uma hecatombe providenciada pelos céus era mais que merecida. Prefiro crer que a maioria no mundo, “ontem e hoje”, é bela, bacana e honesta e que um dia sobressairá sobre a minoria que, convenientemente, se esforça para perpetuar o "status quo".

Mas, por outro lado, somos forçados a denunciar quem se deixa levar pela “ordem rousseuneana das coisas”², quem não se deblatera e resiste contra a corrupção e a perversão.

Errar é imanente aos seres humanos, pois somos dotados da capacidade de pensar, criar e julgar. Os erros e os errantes devem pagar pelos seus erros ou arcarem com as consequências de seus erros, para isso existem os tribunais, os magistrados e a lei. Muitos erram cientes de que sairão impunes, para isso contam com a licenciosidade dos governantes que são seus aliados, com a aquiescência de seus amigos e parentes, com os hiatos da legislação e com a morosidade do sistema judicial.

José Padilha é um cineasta competente, disso poucos duvidam, do contrário não teria dirigido tantos trabalhos e não teria o conforto que tem o que é justo e compreensível. Seu mais recente trabalho está em cartaz no “NETFLIX”, trata-se de uma série dividida em episódios roteirizados por Elena Soarez e José Padilha. O texto faz uma síntese dos recentes escândalos de corrupção envolvendo agentes públicos dos três poderes da República e os últimos governos desde o início dos anos noventa.

Nesta síntese, uma primeira deformação: Elena Soarez e José Padilha esforçam-se para que acreditemos que o “mecanismo” começa a ganhar corpo em 2003, para tanto ignoram o que houve antes. Logo no primeiro episódio atribui ao governo iniciado em 2003, um caso de lavagem de dinheiro e de corrupção datado de 1993 (Banestado). Frise-se que o governo até 2003 era comandado pelo consórcio PSDB, DEM e PMDB.

José Padilha e autora do texto tem todo o direito de se colocarem num lado, todo o direito de divergirem, mas isso não lhes habilitam a distorcerem a realidade, a abstraírem sem uma confirmação do fato, muitos dos quais ainda “sub judice”. O agravante é que tudo isso se apresenta num ano de eleições, isto é parecem querer colocar mais “lenha na fogueira”.

Reitero que não tenho nenhum óbice ao esclarecimento dos fatos, que venha à tona tudo que tenha sido comprovado e que os corrompidos e corruptores paguem pelo que fizeram, naturalmente nos limites da legislação. Enfim, todos precisamos saber o que houve para o melhor e mais adequado de nossos juízos. Ambos fizeram o seu juízo, mas não me cabe aqui digladiar contra o mérito deles. O que se impõe é a publicização de uma deformação dos fatos, a forma como ocorre e o momento desta publicização, isto sim é um golpe sujo.

José Padilha (Tropa de Elite, Narcos) e Elena Soarez (Cidade dos Homens, Eu, Tu, Eles) não deveriam ignorar suas carreiras, seus passados se prestando à uma narrativa que apequena suas trajetórias, pois entorpece, deforma e contraria a realidade. Não há dinheiro que justifique isso, mas ao que tudo indica uma grande soma pode tê-los levados a isso.

Não sendo por dinheiro, seria por qual razão então ?

Provavelmente eles dirão que fizeram isso para o “bem da verdade”, “para que a justiça prevaleça”, por que “amam o Brasil", "brasileiro não desiste nunca” ou então “tudo pela arte”. Enfim, se disporão a um rosário de argumentos e justificativas que empalidece e se esvai diante do flagrante crime (sic) que incorreram, a saber: conspiração contra a história.

Felizmente o martelo e a toga da história não falham, pode ser rápido ou pode ser lento, mas este juízo é inevitável. O tempo, este senhor dos senhores da razão, sempre trabalha irmanado com a ciência e haverá de trazer à tona uma narrativa que, pode até não ser aquela que me incluo, mas seguramente não será esta concebida por Elena Soarez e José Padilha.

A história tem sido implacável com os deformadores, em particular, e os sicofantas, em geral. A alemã Leni Riefenstahl (“O triunfo da Vontade” de 1936), o americano Ted Kotcheff (“Rambo, Programado pra matar” de 1982), e o italiano Alessandro Blasetti (“Vecchia Guardia” de 1934) ficarão para sempre conhecidos como os “cineastas do establishment”.

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A série "Mecanismo" me habilita a considerar que o juízo da história possivelmente será: “Mecanismo, a narrativa de um golpe, pelos golpistas"

Os atores Enrique Diaz e Selton Mello são dois consagrados artistas do cinema brasileiro e deveriam ter sido mais seletivos antes de integrarem um projeto deste nível. Abraçaram este projeto por concordarem com esta narrativa ? Se não, o que os moveram até ele ? Dinheiro !?

Uma verdade pode-se se extrair de toda esta história, o “Mecanismo”(permita me denominá-lo de mercado), realmente é muito complexo, sedutor e poderoso. Numa tacada acolheu e domesticou quatro pesos pesados do cinema brasileiro: José Padilha, Elena Soarez, Selton Mello e Enrique Diaz. O mercado é o maior de todos os “mecanismos”, pois ignora o passado, destrói as reputações e corrompe os indivíduos.

Felizmente há muitos e muitos indivíduos que não se deixam levar pelo canto de suas sereias, pelos neons californianos e pelo “plim plim” da vênus de prata tupiniquim. Continuaremos a luta contra nossos adversários, estando eles enlameados ou não.

Notas
1 - "O primeiro que, tendo cercado um pedaço de terra, se aventurou a dizer: Este é meu, e encontrou pessoas simples o suficiente para acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassinatos, misérias e horrores teriam sido poupados da raça humana que, arrancando as estacas ou enchendo a vala, teria gritado para seus semelhantes: Cuidado com a escuta desse impostor; você está perdido, se esquecer que os frutos são para todos e que a terra não é para ninguém" 
Rousseau, Jean Jacques in Discurso sobre a origem e fundamentos da desigualdade entre homens / Parte II.

2 - "É assim que o mais poderoso ou o mais miserável, fazendo da sua força ou das suas necessidades uma espécie de direito ao bem dos outros, equivalente, segundo eles, ao da propriedade, à igualdade A desordem mais atroz foi seguida pelas usurpações dos ricos, o roubo dos pobres, as paixões desenfreadas de toda piedade natural sufocante, e a voz ainda fraca da justiça tornava os homens avarentos, ambiciosos e perversos. Houve um conflito perpétuo entre o direito do mais forte e o direito do primeiro ocupante, que terminou apenas em luta e assassinato. A sociedade nascente deu lugar ao mais horrível estado de guerra: a raça humana degradada e desolada, incapaz de refazer seus passos ou renunciar às infelizes aquisições que havia feito e trabalhando apenas para sua vergonha, pelo abuso de faculdades que o honram, se colocam na véspera de sua ruína." 
Rousseau, Jean Jacques in Discurso sobre a origem e fundamentos da desigualdade entre homens / Parte II.

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