5 de março de 2018

ITÁLIA PÓS ELEIÇÕES DE 2018. DEVERÁ ROMPER COM A UNIÃO EUROPEIA ?

CIRES PEREIRA
Silvio Berlusconi seca suor da testa do líder da Liga do Norte, Matteo Salvini, durante encontro em Roma
Berlusconi e Salvini juntos 
Na Itália, as eleições gerais parlamentares definem o futuro político próximo deste país que se situa no sul da Europa Ocidental e possuidor da terceira maior economia da Zona do Euro. 


Pela Constituição italiana de 1948, promulgada depois da queda do regime fascista, a Itália instituiu a forma republicana e manteve o parlamentarismo. Desde modo, o Primeiro-ministro é quem chefia o governo, enquanto a chefia do Estado cabe ao Presidente eleito para um mandato de sete anos. O Poder Legislativo é bicameral, portanto há o Senado (Senato della Repubblica), com 315 membros (e seis senadores vitalícios), e a Câmara dos Deputados (Camera dei deputati), com 630 membros. Os membros das duas casas são eleitos diretamente por sufrágio universal. Cabe ao Presidente da República dissolver o parlamento, quando sua maioria não aprova o voto de confiança no Primeiro-ministro e o seu gabinete (ministério), e convocar novas eleições parlamentares que, em condições normais, ocorrem de cinco em cinco anos, como agora em março de 2018. 

O atual Primeiro-ministro Paolo Gentiloni, do Partido Democrático (centro-esquerda) foi o grande derrotado nestas eleições e não deverá ter mais que 22 % dos lugares e, logo após as eleições, deverá renunciar para que o novo Primeiro-ministro, aprovado pela maioria no Parlamento, assuma. 

A Aliança de Centro direita constituída pelo Força Itália, do ex-Presidente Silvio Berlusconi e pela Liga do Norte, liderada por Matteo Salvini, foi a mais bem votada, mas não obteve os 40 % que a livraria de qualquer acordo com outra frente pra governar. A “Aliança” obteve 37% e assim terá que compor com outra coligação para conseguir maioria no Parlamento e aprovar o novo Primeiro-ministro. Em segundo lugar ficou o centrista e populista M5E (Movimento 5 Estrelas). Trata-se de um partido novo na cena política italiana e tem elevada inclinação fisiológica. 

A partir de agora duas longas e tensas negociações ocorrerão: a primeira, dentro da “Aliança”, entre o “Força Itália” e a “Liga do Norte” e tudo indica que Matteo Salvini deverá ser o escolhido como candidato à chefia do governo (Berlusconi, não poderia porque, condenado por corrupção, teve seus direitos políticos suspensos até 2019), e a segunda, entre a Aliança e o M5E do líder Luigi di Maio, neste caso dois pontos relevantes: quebrar a resistência dos populista em relação ao Salvini e quais e quantos cargos o M5E teria. Vale um registro, antes das eleições, Berlusconi havia lançado o nome do atual presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, como candidato da "Força"

Matteo Salvini deverá ser o novo Primeiro-ministro? É provável, pois a favor dele duas razões: a primeira é que o seu partido, Liga do Norte, obteve mais votos que o Força Itália e ambos são os principais integrantes da “Aliança” e a segunda reside nas afinidades políticas entre Matteo Salvini e Luigi di Maio do M5E, ambos tem um viés nacionalista, são “eurocéticos”, isto é duvidam das boas intenções da “União Europeia” e se posicionam contrários à integração ou à permanência de seu país na UE

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Berlusconi e Antonio Tajani
A indagação que constitui o título deste texto deverá presidir todas as rodas de conversas entre os italianos até que o novo governo decida o rumo a tomar. O mundo e o “Mercado”, que nunca esconderam o desejo de ver o moderado e direitista Antônio Tajani como chefe do governo, certamente acompanharão os próximos passos na Itália com elevada apreensão e, por isso mesmo, não hesitarão em pressionar para que o próximo governo, sendo ele comandado por Salvini e não Tajani,  não materialize o que tem em mente, romper com a Zona do Euro ou até com a União Europeia, seguindo os passos do Reino Unido com o seu recente Brexist

Se o Reino Unido está saindo, a Itália sentir-se-á um pouco mais à vontade para faze-lo também? 

E o próximo? 
Qual país seria? 
França? 
Alemanha? 

Enfim, o que se depreende destas eleições italianas é que a União Europeia pode estar com seus dias contados. Este caminho pra ruptura poderá ser pavimentado, com Salvini da Liga do Norte à frente do governo, ou com uma pedra obstruindo-o com Antônio Tajani da "Força Itália" à frente do governo. 

E, quem diria? O ex-Presidente Sílvio Berlusconi, condenado por fraude fiscal e candidatíssimo à sucessão de Sergio Mattarella*, em 2022, continua sendo o fiel da balança. A União Europeia passa a depender muito dos próximos passos dados na Itália, principalmente os passos deste líder. 

Estaria Berlusconi disposto a romper o acordo de cavalheiros feito com a Liga Norte ou ignora-lo e compor, quem diria, até com o Partido Democrático (derrotado e de centro-esquerda) pra eleger Tajani ?

* A eleição presidencial é feita indiretamente e num intervalo de 7 anos, por um colégio constituído por 1009 membros, denominados grandes eleitores: 630 deputados, 315 senadores, 5 senadores vitalícios e 58 representantes de 20 regiões.
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