UMA BOA TARDE DE DOMINGO

CIRES PEREIRA

O que me levou a escrever um texto com este título “uma boa tarde de domingo”, foi o cinema. Muitos destinam suas tardes do domingo para o cinema, eu incluso. É expressivo o número de pessoas que consideram o cinema uma "sétima arte", particularmente prefiro ver o cinema como uma "conjunção das artes". De qualquer modo disponho-me a acatar esta classificação, porém com uma imprescindível ponderação, não se deve comparar, graduar a expressão artística. 

Então ficamos assim: a música é a principal expressão artística, quando estou ouvindo música; a dança, quando estou dançando ou assistindo à um espetáculo de dança; o cinema, quando assisto a um filme e assim por diante...

Assisti, pela Netflix, a um filme interessantíssimo e muito bem feito, vale-se de um roteiro bem concatenado, conta com elenco que, mesmo sem muita badalação, é muito competente e que pareceu-me ter se “entregado” por completo ao enredo. Possuidor também de uma bela fotografia, enfim um filme bem dirigido. Mas o melhor deste filme é a sua história.

O Título em português do filme é “Uma Garrafa no Mar de Gaza” dirigido por Thierry Binisti e protagonizado Agathe Bonitzer, como Tal Levine e Mahmud Shalaby, como Naïm. O filme, feito em 2010, é uma produção canadense, francesa e israelense e se baseia na obra homônima da autora francesa Valérie Zenatti que viveu, como a personagem Tal Levine, em Israel por alguns anos. 

Tal, de 17 anos, é de família francesa e judia que mora em parte de Jerusalém controlada por Israel e Naïm, com 20 anos, nasceu e mora em Gaza. Apenas 90 quilômetros separam ambos, contudo a guerra entre palestinos de Gaza, sob o governo do grupo Hamas desde 2006, e o governo israelense impede que se vejam. Atordoada com mais um atentado próximo à sua casa, Tal decide jogar ao mar uma garrafa com uma carta que foi então colhida por Naïm na praia do Mar de Gaza. Assim começa a história, mas paro por aqui...

“Uma garrafa no Mar de Gaza” tem como pano de fundo as escaramuças entre árabes e judeus, especialmente entre palestinos e israelenses nos territórios ocupados por Israel desde o final da segunda guerra. Este conflito é acompanhado pelos dois personagens que trocam e-mails, dois personagens que são vítimas da guerra e, condenados a sequer se verem. 

O ponto mais importante desta história é a ressignificação da guerra feita pelo casal protagonista. Tal começa a ter uma nova ideia sobre Gaza a partir dos relatos de Naïm e conclui que o medo de atentados, que é uma constante em Israel, é muito pouco diante dos ataques perpetrados por Israel em Gaza. Naïm é um rapaz que aspira ser livre, pois a guerra o privou de direitos essenciais como os de ir e vir e de comunicação e reduziu a quase zero as possibilidades de estudar, trabalhar e viver dias melhores. A troca de e-mails entre Naïm e Tal Levine, reacendeu estas aspirações em Naïm e, de uma forma peculiar, igualmente em Tal Levine.

"Uma Garrafa no Mar de Gaza" consegue ser um filme correto, pois questiona a guerra levantando o dia-a-dia de quem é atingido pela guerra sem que se possa fazer muita coisa contra isso. Questões como o medo, a diferença, a importância do conhecimento e o respeito entre os povos são abordados ao longo do ótimo desenvolvimento dado ao filme regido por Thierry Binisti.

"Uma garrafa no Mar de Gaza" contribuiu para que minha tarde de domingo fosse boa, muito boa!!!
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