26 de novembro de 2017

FUVEST 2018 1ª FASE: RESOLUÇÃO PROVA DE HISTÓRIA


Cires Canisio Pereira*
* Professor de História Sistema Gabarito de Ensino em Uberlândia, Colégio Nacional de Araguari e PREMAX - Pré-Vestibulares.
Análise geral da prova de História: uma prova que rimou pela seletividade. Curiosamente os enunciados das questões vieram mais curtos que de costume, permitindo que se fizesse com maior celeridade as questões. A distribuição das frentes ficou da seguinte maneira: duas questões sobre História do Brasil, seis questões sobre História Geral e duas questões sobre História da América. 

58) Os Impérios helenísticos, amálgamas ecléticas de formas gregas e orientais, alargaram o espaço da civilização urbana da Antiguidade clássica, diluindo-lhe a substância [...]. De 200 a.C. em diante, o poder imperial romano avançou para leste [...] e nos meados do século II as suas legiões haviam esmagado todas as barreiras sérias de resistência do Oriente. 
P. Anderson. Passagens da Antiguidade ao feudalismo. Porto: Afrontamento, 1982. 
Na região das formações sociais gregas, 

(A) a autonomia das cidades-estado manteve-se intocável, apesar da centralização política implementada pelos imperadores helenísticos. 
(B) essas formações e os impérios helenísticos constituíram-se com o avanço das conquistas espartanas no período posterior às guerras no Peloponeso, ao final do século V a.C. 
(C) a conquista romana caracterizou-se por uma forte ofensiva frente à cultura helenística, impondo a língua latina e cerceando as escolas filosóficas gregas. 
(D) o Oriente tornou-se área preponderante do Império Romano a partir do século III d.C., com a crise do escravismo, que afetou mais fortemente sua parte ocidental. 
(E) os espaços foram conquistados pelas tropas romanas, na Grécia e na Ásia Menor, em seu período de apogeu, devido às lutas intestinas e às rivalidades entre cidades-estado.

Resolução: O escravismo no nas porções orientais do Império Romano não era tão marcante como era nas regiões ocidentais, ademais a dilatação das fronteiras do Império passou a ser maior nas região norte da África e no Oriente Médio. Constantinopla tornou-se, inclusive a capital do Império Romano do Oriente.

59) Um grande manto de florestas e várzeas cortado por clareiras cultivadas, mais ou menos férteis, tal é o aspecto da Cristandade - algo diferente do Oriente muçulmano, mundo de oásis em meio a desertos. Num local a madeira é rara e as árvores indicam a civilização, noutro a madeira é abundante e sinaliza a barbárie. A religião, que no Oriente nasceu ao abrigo das palmeiras, cresceu no Ocidente em detrimento das árvores, refúgio dos gênios pagãos que monges, santos e missionários abatem impiedosamente. 

J. Le Goff. A civilização do ocidente medieval. Bauru: Edusc, 2005. Adaptado. 

Acerca das características da Cristandade e do Islã no período medieval, pode-se afirmar que

(A) o cristianismo se desenvolveu a partir do mundo rural, enquanto a religião muçulmana teve como base inicial as cidades e os povoados da península arábica. 
(B) a concentração humana assemelhava-se nas clareiras e nos oásis, que se constituíam como células econômicas, sociais e culturais, tanto da Cristandade quanto do Islã. 
(C) a Cristandade é considerada o negativo do Islã, pela ausência de cidades, circuitos mercantis e transações monetárias, que abundavam nas formações sociais islâmicas. 
(D) o clero cristão, defensor do monoteísmo estrito, combateu as práticas pagãs muçulmanas, arraigadas nas florestas e nas regiões desérticas da Cristandade ocidental. 
(E) a expansão econômica islâmica caracterizou-se pela ampliação das fronteiras de cultivo, em detrimento das florestas, em um movimento inverso àquele verificado no Ocidente medieval.

Resolução: Os espaços mais adequados para as concentrações humanas eram aqueles que ofereciam, a princípio condições objetivas de sobrevivência. Naturalmente eram alvos das pregações tantos dos clérigos cristãos quanto dos clérigos islâmicos. Frise-se que estes espaços tornaram-se, não concomitantemente, os preferidos para o desenvolvimento das atividades mercantis que impulsionaram outras nas cidades.

60) A imagem representa a morte de Atahualpa, o último imperador inca, em 1533, após a conquista espanhola comandada por Francisco Pizarro.

Analise as quatro afirmações seguintes, a respeito da empresa e da conquista colonial espanhola no Peru e da representação presente na imagem.

I. A conquista foi favorecida pelo conflito interno entre os dois irmãos incas, Atahualpa e Huáscar, aproveitado pelas forças espanholas lideradas por Francisco Pizarro.
II. A produção agrícola das plantations escravistas constituiu-se na base econômica do vice-reinado do Peru, controlado pelos espanhóis.
III. Do lado esquerdo da pintura, há uma movimentação conflituosa, na qual as mulheres incas são contidas por guardas espanhóis, contrastando com a expressão ordenada e solene do lado direito, composto por religiosos e autoridades espanholas em torno do corpo do imperador inca.
IV. A pintura revela o resgate de elementos históricos - importante para a construção do ideário nacionalista no século XIX, no processo pós-independência e de formação do Estado nacional peruano -, mas retrata os personagens indígenas com trajes e feições europeus.

Estão corretas apenas as afirmações

(A) I, II e III.
(B) II, III e IV.
(C) I, III e IV.
(D) I e II.
(E) III e IV.

Resolução: Os conflitos entre governantes e tribos que resistiam à ação do Império facilitaram o processo de conquista, portanto o item A está correto. A atividade econômica principal nas áreas colonizadas pelos espanhóis que haviam sido o vasto Império Inca de Atahualpa era a mineração, portanto o item II está errado. A pintura retrata como se comportam as pessoas diante dos funerais do ex-Imperador incaico Atahualpa, a sobriedade dos espanhóis contrastando com a sensação de perda dos nativos que lamentam a perda de seu líder, portanto o item está correto. O ideário da libertação e da construção posterior do estado nacional peruano, comumente aludia ao resgate das raízes do povo da região associadas ao vasto Império Inca.

61) A respeito dos espaços econômicos do açúcar e do ouro no Brasil colonial, é correto afirmar:

(A) A pecuária no sertão nordestino surgiu em resposta às demandas de transporte da economia mineradora.
(B) A produção açucareira estimulou a formação de uma rede urbana mais ampla do que a atividade aurífera.
(C) O custo relativo do frete dos metais preciosos viabilizou a interiorização da colonização portuguesa.
(D) A mão de obra escrava indígena foi mais empregada na exploração do ouro do que na produção de açúcar.
(E) Ambas as atividades produziram efeitos similares sobre a formação de um mercado interno colonial.

Resolução: Os custos de extração dos metais e de seu transporte eram relativamente baixos contribuindo para melhorar a margem de lucro dos mineradores e, por conseguinte, ampliando os investimentos nos espaços próximos às atividades mineradoras, sobretudo em Minas Gerais no século XVIII.

62) Na edição de julho de 1818 do Correio Braziliense, o jornalista Hipólito José da Costa, residente em Londres, publicou a seguinte avaliação sobre os dilemas então enfrentados pelo Império português na América:
A presença de S.M. [Sua Majestade Imperial] no Brasil lhe dará ocasião para ter mais ou menos influência naqueles acontecimentos; a independência em que el-rei ali se acha das intrigas europeias o deixa em liberdade para decidir-se nas ocorrências, segundo melhor convier a seus interesses. Se volta para Lisboa, antes daquela crise se decidir, não poderá tomar parte nos arranjamentos que a nova ordem de coisas deve ocasionar na América.
Nesse excerto, o autor referia-se

(A) aos desdobramentos da Revolução Pernambucana do ano anterior, que ameaçara o domínio português sobre o centro-sul do Brasil.
(B) às demandas da Revolução Constitucionalista do Porto, exigindo a volta imediata do monarca a Portugal.
(C) à posição de independência de D. João VI em relação às pressões da Santa Aliança para que interviesse nas guerras do rio da Prata.
(D) às implicações que os movimentos de independência na América espanhola traziam para a dominação portuguesa no Brasil.
(E) ao projeto de D. João VI para que seu filho D. Pedro se tornasse imperador do Brasil independente.

Resolução: Crescia por todos os Vice-Reinos e capitanias Gerais espanhóis o movimento de emancipação política, esta onda libertadora repercutia nos domínios portugueses na América, como foi o caso da revolução pernambucana de 1817. O jornalista Hipólito José da Costa, aparentemente preocupado com a situação, recomenda que Dom João ainda permanecesse no "Brasil".

63) No que se refere à crise do colonialismo português na África na segunda metade do século XX,

(A) a Era das Revoluções, ao implicar a abolição do tráfico transatlântico de escravos para as Américas, erodiu as bases do domínio de Portugal sobre Angola e Moçambique.
(B) Portugal, com um poder de segunda ordem no concerto europeu, se viu alijado das deliberações da Conferência de Berlim, perdendo assim o domínio sobre suas colônias.
(C) as independências de Angola e de Moçambique foram marcadas por um processo relativamente pacífico, que envolveu ampla negociação com os poderes metropolitanos em Portugal.
(D) o processo de independência das colônias portuguesas, ao contrário do que ocorreu nas colônias inglesas e francesas, não se relacionou às polarizações geopolíticas da Guerra Fria.
(E) o movimento de independência colonial foi decisivo para o processo de transformação política em Portugal, ao acelerar a crise do regime autoritário nascido no período entre-guerras.

Resolução: As mobilizações pela libertação das colônias portuguesas na África em certa medida se somaram ao desejo da maioria dos portugueses pela redemocratização do estado português que até 1974 encontrava-se sob domínio do regime de ideologia fascista implantado por Oliveira Salazar e mantido no governo de seus sucessor Marcelo Caetano.

64) [...] a Declaração Universal representa um fato novo na história, na medida em que, pela primeira vez, um sistema de princípios fundamentais da conduta humana foi livre e expressamente aceito, através de seus respectivos governos, pela maioria dos homens que vive na Terra. Com essa declaração, um sistema de valores é – pela primeira vez na história – universal, não em princípio, mas de fato, na medida em que o consenso sobre sua validade e sua capacidade de reger os destinos da comunidade futura de todos os homens foi explicitamente declarado. [...]
Somente depois da Declaração Universal é que podemos ter a certeza histórica de que a humanidade – toda a humanidade –partilha alguns valores comuns; e podemos, finalmente, crer na universalidade dos valores, no único sentido em que tal crença é historicamente legítima, ou seja, no sentido em que universal significa não algo dado objetivamente, mas algo subjetivamente acolhido pelo universo dos homens.

N. Bobbio. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1992.

A Declaração Universal mencionada no texto

(A) foi instituída no processo da Revolução Francesa e norteou os movimentos feministas, sufragistas e operários no decorrer do século XIX.
(B) assemelhou-se ao universalismo cristão, que também resultou no estabelecimento de um conjunto de valores partilhado pela humanidade.
(C) desenvolveu-se com a inclusão de princípios universais pelos legisladores norte-americanos e influenciou o abolicionismo nos Estados Unidos.
(D) foi aprovada pela Organização das Nações Unidas e serviu como referência para grupos que lutaram pelos direitos de negros, mulheres e homossexuais na década de 1960.
(E) originou-se do jusnaturalismo moderno e consolidou-se com o movimento ilustrado e o despotismo esclarecido ao longo do século XVIII.

Resolução: A ONU nasceu de um entendimento entre os países aliados no contexto da Segunda Guerra Mundial, a pretensão era dar à nova instituição um traço de continuidade em relação à Liga das Nações, isto é que fosse um órgão multi-diplomático capaz de arbitrar litígios pontuais pra que estes não estimulassem novos conflitos armados. A Declaração reitera aqueles princípios iluministas norteadores das revoluções burguesas e liberais e "avança" no sentido da defesa dos direitos humanos, como a liberdade. Tornou-se desta forma uma referência para os movimentos em defesa dos direitos e pela conquista destes direitos onde não haviam sido conquistados.

65) Aqui no Chile estava se construindo, entre imensas dificuldades, uma sociedade verdadeiramente justa, erguida sobre a base de nossa soberania, de nosso orgulho nacional, do heroísmo dos melhores habitantes do Chile. Do nosso lado, do lado da revolução chilena, estavam a constituição e a lei, a democracia e a esperança.

Pablo Neruda. Confesso que vivi. Memórias. Rio de Janeiro: Difel, 1980.
Nesse texto,

(A) “soberania” está relacionada às campanhas de privatização das minas de estanho e salitre, que até então eram mantidas por capitais anglo-americanos.
(B) “heroísmo” refere-se aos embates armados, travados com setores da democracia cristã e com as comunidades indígenas dos araucanos.
(C) “a constituição e a lei” é uma referência ao novo ordenamento jurídico implantado após o golpe promovido pela Unidade Popular.
(D) “democracia” alude a um traço peculiar da via chilena para o socialismo, pois o presidente Salvador Allende chegou ao poder pelo voto.
(E) “esperança” traduz a expectativa resultante do apoio econômico e estratégico que havia sido obtido junto aos Estados Unidos e França.

Resolução: O escritor chileno Pablo Neruda foi um dos mais destacados defensores do governo do socialista Allende entre 1970 e 1973. A Unidade Popular que amparou a candidatura Allende em 1970 pregava a construção do socialismo no país pela via institucional e democrática. O Chile era uma democracia desde 1925, contudo era, segundo o novo governo, preciso fazer reformas na Constituição para amparar as reformas estruturantes de viés socialista visando a universalização e ampliação dos direitos para os setores populares, historicamente excluídos e mal assistidos pelo Estado.

66) O futurismo de Marinetti e o fascismo de Benito Mussolini têm em comum

(A) a constatação da falência cultural da Itália, que se agarrou ao passado romano e ignorou os grandes avanços da Primeira Revolução Industrial.
(B) o desejo de proporcionar aos cidadãos italianos o acesso aos bens de consumo e a implantação do Estado de bem-estar social.
(C) o esforço de modernização cultural e a tentativa de demolir as edificações que restaram do passado romano.
(D) a valorização e a adoção das bases e dos princípios das teorias revolucionárias anarquistas e socialistas.
(E) a glorificação da ideologia da guerra e da velocidade proporcionada pelos avanços técnicos e militares.

Resolução: O futurismo que nasceu do Manifesto Futurista concebido pelo Marinetti enaltecia a ordem que nasceu das inovações tecnológicas movedoras da Revolução Industrial. Os fascistas apregoavam mudanças que visavam reforçar o sistema capitalista que se tornou hegemônico graças também a esta revolução industrial. Nem o futurismo, tampouco o fascismo puseram óbices aos novos tempos marcados pela velocidade dos maquinismos e pelo impacto causado pelo setor bélico.

67) A operação era um pouco dolorosa e não durava mais que um minuto, mas era traumática. Seu significado simbólico estava claro para todos: este é um sinal indelével, daqui não sairão mais; esta é a marca que se imprime nos escravos e nos animais destinados ao matadouro, e vocês se tornaram isso. Vocês não têm mais nome: este é o seu nome. A violência da tatuagem era gratuita, um fim em si mesmo, pura ofensa: não bastavam os três números de pano costurados nas calças, no casaco e no agasalho de inverno?

Primo Levi. Os afogados e os sobreviventes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
Está de acordo com o texto a seguinte afirmação:

(A) A tatuagem era uma forma de tortura e uma mensagem não verbal, que inscrevia a condenação no corpo do prisioneiro.
(B) O uso de tatuagens era perturbador apenas para ciganos e judeus ortodoxos, pois violava o código moral e as leis religiosas dessas comunidades.
(C) O recurso de tatuar o prisioneiro, além de impor um sofrimento físico e moral, discriminava o tipo de remuneração.
(D) O emprego das tatuagens funcionava como um código estético e de classificação dos prisioneiros nos campos de concentração.
(E) A tatuagem, assim como o trabalho voluntário, não tinham finalidade produtiva, mas contribuíam para o entendimento entre os prisioneiros.

Resolução: Nos guetos e nos campos de morte erigidos pelos nazistas, os apartados e reclusos eram obrigados a se identificarem para não houvesse contato com a maioria alemã não judia e anti-comunista. As marcas eram uma forma evidente de humilhação pública daqueles que aos olhos do regime eram um estorvo à construção da Nação Alemã.

68) Tanto no desenvolvimento político como no científico, o sentimento de funcionamento defeituoso, que pode levar à crise, é um pré-requisito para a revolução.

T. S. Kuhn. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1989.

Analise as quatro afirmações seguintes, acerca das revoluções políticas e científicas da Época Moderna.

I. A concepção heliocêntrica de Nicolau Copérnico, sustentada na obra Das revoluções das esferas celestes, de 1543, reforçava a doutrina católica contra os postulados protestantes.
II. A Lei da Gravitação Universal, proposta por Isaac Newton no século XVII, reforçava as radicais perspectivas ateístas que haviam pautado as ações dos grupos revolucionários na Inglaterra à época da Revolução Puritana.
III. Às experiências com eletricidade realizadas por Benjamin Franklin no século XVIII, somou-se sua atuação no processo de emancipação política dos Estados Unidos da América.
IV. Os estudos sobre o oxigênio e sobre a conservação da matéria, feitos por Antoine Lavoisier ao final do século XVIII, estavam em consonância com a racionalização do conhecimento, característica da Ilustração.

Estão corretas apenas as afirmações

(A) I, II e III.
(B) II, III e IV.
(C) I, III e IV.
(D) I e II.
(E) III e IV.

Resolução: O item I está errado, pois as novas teorias sobre o funcionamento do Universo colidiam frontalmente com o dogmatismo religioso alimentado pela Igreja católica. O Item II está incorreto, porque não houve, por parte dos humanistas e renascentistas, intenção em refutar a existência de Deus ainda que tivessem interesse numa ressignificação do Divino. Ademais os grupos radicais no âmbito da Revolução Puritana eram identificados com o anabatismo cristão. O item III corretamente estabelece uma conexão entre o desenvolvimento científico e o desejo de liberdade daqueles que se envolveram nas mudanças econômicas e políticas de sua época, como foi o caso de B. Franklin, destacado líder da Revolução Americana de 1776. o item IV também está correto ao conectar a Revolução Científica do século XVII com o movimento iluminista, reforçando o item III desta mesma questão.
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