9 de outubro de 2017

O BRASIL DE TODOS

CIRES PEREIRA
Em tempos obscuros como os de hoje (re)aparece todo tipo de asneira, como os movimentos pela separação da região sul e de separação do Estado de São Paulo em relação ao Brasil. Mais absurda que a tese é o argumento de que ‘eles carregam o país nas costas” ou de que custeiam os nortistas e nordestinos que “pouco ou nada se esforçam para serem como os sulistas e sudestinos”.

Como sou e moro em Minas e ainda vizinho dos goianos, mato-grossenses e do Distrito Federal não hesitaria, diante de uma (pelo menos por agora) improvável secessão, em me colocar ao lado de nordestinos e nortistas, pois estaria defendendo o Brasil e minha brasilidade.

Não há como ser brasileiro sem ser “Nordeste”, onde o processo de construção de uma nação brasileira começou a ganhar relevo com os portugueses. Como também não há como ser brasileiro sem o “Norte”, que é a nossa “pátria de milhares de anos”. Os Tupis foram os primeiros grupos aborígenes encontrados pelos europeus neste “Brasil”, do Ceará até o litoral norte de São Paulo, que também eram chamados de “brasis”.  Os "Brasis" eram os nativos de uma terra que, muito antes de ter sido avistada pelos portugueses, era imaginada como terra da felicidade e paradisíaca. Sou filho destes brasis e não renunciarei à sua terra e ao seu legado

Somos um povo colorido, pois somos negros, mulatos, brancos, morenos, amarelos e vermelhos. Formamos uma sociedade multicultural, multilinguística e multiétnica, por tudo isto é uma sandice propor a apartação de quem edificou sua identidade na diversidade. Somos filhos de alemães, de portugueses, de italianos, de ingleses, de japoneses, de coreanos, dos congoleses, dos gês, dos tupis, dos guaranis e de muitos outros que por aqui sempre viveram ou que vieram pra ficar. Orgulha-me a condição de filho da mãe África, como também teria se fosse filho dos nativos de Tupã ou filho dos europeus e dos asiáticos. Todos os brasileiros deveriam se orgulhar de serem brasileiros graças às múltiplas origens e à diversidade sempre presente.

Mas não é pertinente apenas enumerar aqui os “enes” argumentos contra o separatismo, é preciso aproveitar o debate para apontar o que não está bacana e propor reparos. Vivemos um tempo de dificuldades e neste aparecem todo tipo de opinião tentando apontar os culpados. É preciso tomar cuidado com o “senso comum” (uma verdade sem comprovação científica) do tipo: “nordestino não gosta de trabalhar”, “carioca é esperto no mal sentido”, “paulista é arrogante”, “gaúcho é separatista” ou o mais patético e absurdo de todos: “se tivéssemos sido colonizado pelos ingleses, seríamos como os EUA”. Somos um país diversificado sim, mas ainda os afro-brasileiros, indígenas, mestiços ou morenos (meu caso), caboclos, sofrem com a segregação e humilhação destilada por “expressiva minoria constituída por brancos”, sobretudo no seio dos “brancos bem-nascidos”. 

A segregação, além do sócio-econômico, se dissemina por outros motivos como credo, opção sexual e lugar. Aqui, por estas bandas do sul, o nordestino e o nortista são discriminados como também são os afrodescendentes, os homossexuais, os não cristãos e, sobretudo, a maioria pobre. Aí, pelas bandas do norte-nordeste e centro-oeste, homossexuais, não cristãos e pobres também o são. 

Neste paraíso chamado Brasil com “gentes” de todos os matizes, credos, cores e línguas, ainda são muitos os que insistem, no afã de fazê-lo apenas branco, heterossexual, cristão e próspero (sic), em torna-lo opaco, sem cor e sem vida. O que queremos é um Brasil de todos os cantos, com todos os seus aromas, de todas as cores, com respeito à todas as opções de credo e preferências sexuais que tenha um Estado que seja igual pra todos e que, principalmente, mitigue a distancia abissal existente desde os “seiscentos” entre a minoria rica e a maioria miserável. 

O Brasil é um lugar em que suas entranhas, brota o mais puro líquido e germina o alimento que nos sacia como a “mandioca” ou “aipim” ou “macaxeira”, este lugar precisa de um povo que tenha amor pra cuidar de suas árvores que nos presenteiam com frutos como a “mixirica” ou “bergamota” ou “mandarina”. Terra em que os cantos, cultos e instrução de seus cantos devem manter seus traços, suas peculiaridades pra continuarem encantando, iluminando e orientando a todos. 

Prefiro o Brasil que não seja meu, mas de todos os brasileiros !!!
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