ESCOLA SEM PARTIDO, AGORA EM UBERLÂNDIA

Professor Cires Pereira

O Movimento “Escola Sem Partido” é uma iniciativa dos setores mais conservadores e regressistas da cena política brasileira e a evidência disto encontra-se no escopo de sua proposição que agora chega à Câmara dos Vereadores da cidade de Uberlândia MG. O alvo são os educadores que atuam nas escolas, sobretudo do Ensino Básico. Há, segundo o movimento, uma parcela significativa de educadores que se posicionam frente ao que lecionam ou instruem e orientam aos educandos. Aqui o primeiro equívoco, pois não se trata de uma parcela expressiva de educadores, mas todos nós educadores, ao transmitimos os conhecimentos, municiados com pressupostos e posicionamentos.

NÃO É POSSÍVEL A NEUTRALIDADE CIENTÍFICA !!!

Nós educadores preocupamos-nos com o conteúdo que ministramos, a maioria tem o zelo de se aprimorar, estudando mais a fundo um ou outro tema que até então pouco conhecia. Queremos dotar nossas crianças e jovens de uma postura crítica, pois julgamos indispensável à ampliação da capacidade de criar à luz da contestação do que já foi pensado/criado. A ciência não serve para outra coisa senão a secularização do conhecimento e o crescimento do indivíduo e da sociedade a qual está inserido. É infame sugerir que é preciso colocar um freio ou uma limitação à criatividade e criticidade humanas.

O projeto “Escola Sem Partido”, recorre a uma argumentação típica dos homens que comandavam a Igreja Católica na Alta Idade Média. A rigor, estes não aceitavam que deduções construídas pelas ciências naturais e humanas colidissem e contrapusessem aquelas previamente impostas pela Igreja que corroboravam os dogmas dela mesma.

Republico um trecho que colhi do blog do clérigo católico Pe Augusto Bezerra datado de 2016, que é um entusiasmado defensor do movimento, que comprova esta minha impressão juízo sobre este Movimento.

“Como o diabo possui um corpo, um regime estudantil malévolo se apossou dos filhos roubando-lhes de seus pais. E só há uma maneira de exorcizá-lo: os próprios pais enfrentarem esses “demônios” e expulsá-los de onde estão.”

Pe Augusto Bezerra: in https://augustobezerra.wordpress.com

Favorável ao Projeto, o jornalista e escritor Leandro Narloch, mestre em filosofia, disse que há atualmente um “problema altíssimo de doutrinação marxista” nas escolas brasileiras. “Assim como um presidente não pode sair por ai com um broche do seu partido, um professor não pode fazer proselitismo partidário na sala de aula”.

Se este filósofo conhecesse melhor o Método dialético e materialista propugnado por Karl Marx no século XIX, certamente não usaria um argumento tão raso. Marx sempre defendeu a colisão das opiniões contrárias para se compreender a realidade e posicionar-se diante dela. Marx foi sim um importante crítico da visão monolítica da realidade, muito em voga à sua época. Por isso mesmo posicionou-se em defesa da dialética que não foi pensada por ele, mas por filósofos da época antiga como Hieráclito.

ALGUNS EMBATES

O Movimento Escola Sem Partido conseguiu uma vitória em 2016, a Assembleia do Estado de Alagoas aprovou um projeto que materializa o que prega. Projetos semelhantes tramitam em outros parlamentos regionais no Brasil e até no Congresso Nacional.

A Procuradoria Geral da República, felizmente, emitiu parecer contrário à essência do que apregoa o MESP, leiam o que Rodrigo Janot Procurador Geral da República (PGR) afirmou a respeito do que foi aprovado em Alagoas:

"O propósito perseguido pelo legislador alagoano, de limitar o conteúdo da manifestação docente no ambiente escolar, não se compatibiliza com os princípios constitucionais e legais atinentes à educação nacional, os quais determinam gestão democrática e pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, não a proscrição de manifestações que possam vir a ser consideradas por parte de pais como contrárias às suas convicções morais, religiosas, políticas ou ideológica"

Em julho de 2016 este projeto foi apresentado na Câmara dos vereadores de Juiz de Fora MG, mas após pressão contrária, o proponente André Mariano (PSC) retirou de tramitação o projeto de lei sobre a criação do "Programa Escola sem Partido" em Juiz de Fora.

UBERLÂNDIA MG

Agora, em outubro de 2017, ele é apresentado pelos Vereadores Márcio Nobre e Wilson Pinheiro na Câmara de Uberlândia sob o número 686/2017 e espero que tenha um destino semelhante.

CONCLUSÃO

A prática da docência, em particular, e a atividade educacional, em sentido mais amplo, não apenas estimulam o desenvolvimento intelectual e cognitivo dos alunos ou a transmissão de conteúdos básicos que qualifiquem o jovem para o mercado de trabalho, mas também inserem o aluno na sociedade fornecendo-lhe as bases para o pleno exercício da cidadania.

Não há a menor possibilidade de um livro (que é um docente impresso) ou um professor que o utiliza (que é um docente presencial) transmitirem seus conhecimentos sem emitir uma opinião. Quando nos silenciamos diante de uma opinião, estamos com o silêncio concordando com ela ou no mínimo complacentes com ela.

É imperativo que ao fazer uma inferência ou juízo de valor, o educador esclareça aos seus educandos de que se trata de sua opinião. É igualmente imperativo que as opiniões dos alunos, divergentes ou não das opiniões do livro e do professor, sejam consideradas desde que bem argumentadas.

Na escola, os argumentos são muito mais importantes que a tese. O “panfleto” e o proselitismo, tanto os concordantes quanto os discordantes da ordem vigente, devem ser combatidos em sua forma. A melhor maneira de fazê-lo é aprofundando as pesquisas, trazendo várias interpretações sobre o tema ou sobre o objeto estudado. Jamais doutrinando ou colocando "canga".
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