ARTE RUSSA: ILYA REPIN

CIRES PEREIRA

Ilya Repin nasceu em 1844 em Tchougouiev, na Ucrânia que a época integrava o Império Russo. Aos dezenove anos ingressou na Academia Imperial de Belas Artes de São Petersburgo em 1863, onde estudou até 1871. Nos anos 1880 compunha um grupo de artistas ambulantes que expunham principalmente na Capital e em Moscou. Sua grande inspiração seguramente foi o pintor holandês Rembrandt (1606-1669), Repin conheceu todas as suas obras, considerado o maior retratista de todos os tempos. 

Ilya Repin, Vassily Surikov, Isaac Levitan e Valentin Serov são sempre lembrados como os maiores nomes da pintura russa do século XIX e início do século XX, juntam-se, portanto aos grandes nomes da literatura russa desta época como Alexander Pushkin León Tolstoi, Anton Tchekhov, Maksim Gorki, e Fiódor Dostoiévski. O vasto e diversificado Império Russo pode sim ser apreciado e analisado pelos pinceis de seus artistas e penas de seus romancistas.

Pela obra de Ilya Repin é possível acompanhar os últimos anos do regime czarista e a Revolução Bolchevique de Outubro de 1917. O pintor, que havia declinado do convite de Vladimir Lênin para fixar residência em Moscou (a capital da URSS), morreu em 1930 em território finlandês, pois a região onde morava próxima à São Petersburgo fora integrada à Finlândia que se tornara independente da Rússia logo em seguida à Revolução de Outubro.

Sua obra denunciava os horrores de um regime que pouco se sensibilizava com as justas demandas de uma maioria empobrecida, humilhada e excluída, mesmo com a liberação de mão-de-obra em razão da abolição do regime de servidão em todo o Império em 1861 pelo Czar Alexandre II da Dinastia Romanov que comandava despoticamente desde o século XVII. 

Repin pintou retratos de grandes escritores russos como Tolstoi e Maksim Gorki, além do famoso químico Dmitri Mendeleev. Nestes retratos, sobretudo, nota-se a influência da obra do setecentista Rembrandt, sobretudo nestas obras de retrato.

As obras mais significativas e também mais famosas de Repin são “Os barqueiros do Rio Volga”, concebida em 1868, a “Prisão do propagandista”, logo depois na década de 1870 e "Ivan, o Terrível e seu filho Ivan". Soube colher e retratar um Império marcado pelo contraste entre o luxo e a opulência dos nobres e da Corte e a miséria da grande parte da sociedade tanto na Rússia quanto no conjunto dos diversos territórios em poder da Rússia dos Czares.


Neste quadro "Ivan, o Terrível e o seu filho Ivan", Repin retrata um dos mais impactantes acontecimento na Corte dos Czares, o duplo homicídio cometido pelo Czar Ivan, o Terrível. Primeiro matou sua nora, grávida de seu filho Ivan, por conta de um traje que julgava inadequado à sua nora. Logo em seguida seu filho, indignado, discutiu com o pai. Afrontado, o Czar matou seu filho, que era o herdeiro do trono, golpeando-o por várias vezes com um cajado. 


Em seu livro de memórias "Longe perto" Repin nos conta como fez o seu trabalho mais famoso "Os barqueiros do Volga" em 1868. Certo dia Repin e seu colega de Academia Savitsky foram fazer algumas tomadas nas margens do Rio Neva e depararam com trabalhadores sujos e mal vestidos arrastando uma embarcação até a sua margem. Os rostos destes contrastavam com os passageiros daquela embarcação bem alimentados, bem vestidos e sorridentes. Esta cena o impressionou e o inspirou. Optou por trocar o rio Neva pela Rio Volga e as mulheres pelo capitão da embarcação. Em primeiro plano, os barqueiros, tensos, fazendo um tremendo esforço, como se fossem animais, para retirarem o barco do rio. Além das faces do sofrimento humano, o quadro prima pela harmoniosa e espetacular simbiose entre os tons amarelo da areia e o azul do céu. 

Outra interpretação plausível reside na literal grandiosidade dos 11 trabalhadores, mesmo em condições adversas, em primeiro plano e a "pequenez" do capitão ao fundo. A ideia de que, juntos os frágeis e humildes tornam-se maiores e mais fortes que a minoria que os espoliam. 

"Os barqueiros do Volga" 1,30 x 2,80 cm Museu Estatal da Rússia - S Petersburgo
Esta obra teve grande repercussão na Europa, sendo exibida na Exposição Mundial em Viena, obviamente que em seu país Repin sofreu críticas e perseguição dos poderosos. Dentre os apoiadores e admiradores desta obra, o grande escritor russo Dostoiévski que sobre ela escreveu: "É impossível não amá-los, estes inocentes.” O próprio artista reconheceu que esta obra era "...grito de toda a Rússia, do seu povo oprimido, cujo grito era reconhecido em cada canto onde se falava o idioma russo".

Repin, influenciado por outro grande nome da literatura russa - León Tolstoi, concebeu outro grande quadro, "A prisão do propagandista", neste o artista revela seu engajamento com a luta por um pais justo, igual e livre. Retratou a prisão de um revolucionário russo, carregado de bastante tensão, que escolheu o caminho da luta e do sofrimento, sendo retirado de casa pela polícia, diante do desespero de seus familiares. 


Ilya Repin sempre se indignou com o autoritarismo do regime e com as contrastes sociais no Império Russo e comungava com os ideais revolucionários, permanecendo fiel a eles até o final de sua vida. Sua obra revela-nos a realidade de um lugar que deu origem ao fato histórico mais significativo da história recente, a revolução socialista e proletária em outubro de 1917.

Manifesto de 17 de outubro de 1905 - Ilya Repin 1,80 X 3,20 - State Russian Museum
0