8 de maio de 2017

INDÚSTRIA CULTURAL (KULTURINDUSTRIE)

Cires Pereira
René-François-Auguste Rodin " O Pensador 1880

A palavra filosofia deriva do grego "philosophia". "Philo" significa "amor filial", ou amizade e "sophia" significa sabedoria. Literalmente, um filósofo é um amigo, ou amante de "sophia", alguém que admira e busca da sabedoria. Portanto, filosofia é a busca pelo conhecimento.

Estudar filosofia e ser um filósofo são coisas distintas que se completam. Filósofo é aquele que procura compreender as coisas e os fenômenos que o cercam enfim procura compreender o universo, se valendo de um rigor racional. 

Todos somos filósofos em potencial, mesmo sem ter as instruções formais que, comumente, se apropria no espaço de ensino-aprendizagem (escola), basta que procuremos ver a realidade, o sentido da existência, a sociedade, as relações humanas, o universo de maneira racional, ou seja acionando nossa faculdade ou capacidade de cognição. 

O filósofo é um observador atento da realidade, um ser que se esmera em pensar e que tenta, pelo seu próprio esforço, desvendar ou esclarecer o universo a sua volta.

A filosofia, em geral, não produz resultados concretos e imediatos, contudo nossas ações e nossas condutas são a aplicação e a materialização do que pensamos. O ser humano, diferentemente dos demais seres vivos, não age movido por instinto. O que pensamos e o juízo fazemos sobre o que e como pensamos guiam nossas atitudes, preside nossos atos.

A forma de compreender o mundo é que determina o modo como se produz as coisas, se investiga a natureza, se propõe as leis. Filosofar é examinar a realidade, e isso, de um modo ou de outro, todos fazemos constantemente. Ao se tentar resolver os problemas globais, sociais ou pessoais, é impossível se abster da racionalidade, uma faculdade que deveríamos explorar sempre mais. 

Prefiro que me conheçam pelos meus atos do que pelo que digo ser, provavelmente "neste dizer" sobre o que sou ou quem sou, tendo a selecionar o que me parece mais conveniente, provavelmente dissimularei para encobrir defeitos e me esforçarei para realçar o que me pareça virtude. Assim é possível que a ideia que faço de mim não seja a ideia mais próxima ou exatamente a ideia que sou.

É por isso que desconfio de tudo e de todos, não posso aceitar as explicações e conclusões existentes, embora possa partir delas, do contrário praticamente não precisaria do esforço racional, da cognição pra decifrar quem quer que seja, este esforço complexo me coloca apto, como um filósofo, desvendar o que está oculto, contraditar o absoluto, imbuído de um propósito, compreender. É esta compreensão que ampara meu juízo, juízo que externalizo com minhas atitudes e minhas falas. Conhecerão a mim melhor se levarem em conta, sobretudo minhas atitudes que constituem a minha conduta.

Quando uma pessoa expõe seu trabalho ou suas destrezas e talentos, ela precisa entender que estará sujeita a juízos e críticas. É decepcionante quando alguém após se expor prefira importar-se mais com os elogios de uns do que com as críticas de outros. Fica a impressão de que não gosta de críticas, não entendo como muitos seres humano são avessos às críticas.

Poderão me alertar alguns leitores que não é bem assim, mas digo-lhes que infelizmente é o que mais se vê por ai. Atletas, artistas, cantores e escritores em sua maioria, sobretudo aqueles que possuem um grande público, preocupam-se pouco com as críticas, chegam até a desdenhá-las. Irritam facilmente e tentam, pateticamente, desqualificar os seus críticos. É muito comum o seguinte tipo de resposta quando estes são lembrados destas críticas:

"o mais importante é o meu público que gosta do meu trabalho comprando meus discos e/ou livros, quanto a estes críticos, que são uma minoria, não entendem nada, estão com inveja, querem aparecer às minhas custas, etc".

Os ídolos do momento costumam ser aqueles que as mídias expõem ou destacam. Muitos destes ídolos tem um verdadeiro staff a sua volta para cuidar da imagem, da roupa que veste, das respostas que devem ser dadas para cada ocasião, alguns tem até porta-voz. Outros plantam notícias, criam factoides com o intuito de continuarem nas mídias, enfim tornam-se prisioneiros das mídias e, mesmo que acumulem fama e dinheiro, tornam-se "crias" abdicando de serem "criadores". Como se tornam "crias", passam a agir segundo os "ventos do mercado" e os seus conceptores (marqueteiros, empresários, procuradores, etc).

Horkheimer e Adorno 

Este mercado costuma ser draconiano ou implacável com suas "crias" (ídolos do momento), com a mesma facilidade que mitifica, desmitifica, qualifica, desqualifica, inclui exclui. Este ídolo ou "cria" no futuro não muito distante será substituído por outra "cria". 

E assim, caminha a "Indústria Cultural" ou "Kulturindustrie" (termo criado por dois grandes pensadores alemães, Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973) e exposto num livro de suas autorias "Dialética do esclarecimento" publicado em 1947.


A ideia central era designar a situação da arte no contexto da sociedade atual, capitalista e industrial. Segundo estes autores, a maioria da sociedade interessaria apenas por aquilo que estivesse em evidência (mesmo que uma evidência pré-fabricada), isto é o que já foi experimentado, se a maioria gosta, certamente gostarei também. Esta situação provocaria um dolo ou prejuízo muito sério à produção cultural séria, pois neutralizaria a crítica que toda sociedade bem como os homens que a integram precisam pra avançar em todos os sentidos.


Alerto aos que acreditam que tenham algo de bom pra exporem, não temam, procurem dar ouvidos mais às críticas do que aos elogios, aprendam com as críticas, do contrário não crescerão. A identificação com o público virá, sem mistificação e sem mitificação, quando isto acontecer algumas mídias virão ao seu encontro para servi-lo e não o contrário. 

O que eu penso e/ou o que eu sinto, quando expostos poderá atrair a atenção e a admiração dos outros, é essa fama que devemos perseguir, a "boa fama". A conquistar esta "boa fama", é preciso fazer de tudo para não perdê-la, sabe como? Melhorando ainda mais aquilo que, exposto, te deu fama. A sua personalidade deve persistir, afinal de contas foi ela que, exposta pelo produto da sua cognição e/ou inspiração, gerou sua fama, sua boa fama.
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