"ESQUADROS" DE ADRIANA CALCANHOTO, UMA ANÁLISE

Cires Pereira 


"Esquadros", música composta por Adriana Calcanhoto e dedicada ao seu irmão Cláudio que é cego. É parte integrante do álbum "Senhas", lançado em 1992. Trata-se de composição belíssima e profundamente reflexiva, pois nos intima a refletir sobre tudo e sobre todos. Outros temas são também tratados, contudo enfatizarei os temas que incitam a atenção e o meu encantamento por esta música: desalienação e  tolerância.

A desalienação

Eu ando pelo mundo.
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores!

A tolerância

"Transito entre dois lados.
De um lado.
Eu gosto de opostos.
Exponho o meu modo.
Me mostro."

Critica e repele de forma contundente o nosso extremo individualismo que reforça, cotidianamente, nossa alienação. Um sistema que de tudo faz pra que não estejamos unidos, não sejamos tolerantes e, "enquadrados", nos força a olhar por um "esquadro" de tal maneira que não provoque qualquer tipo de dolo a este mesmo sistema. 

Nesta música, Adriana Calcanhoto captou de forma precisa como nos portamos diante das cenas que compõem nosso dia-a-dia. Trata-se de uma temática também explorada por outros grandes compositores brasileiros como Aldir Blanc e João Bosco em "De frente pro crime", Sidney Miller em "Pois é pra quê" e Belchior em "Pequeno Perfil de um cidadão comum".

Temos nos pautado em acompanhar pelas "janelas" o nosso "belo quadro social" (Belchior - Raul Seixas e Paulo Coelho). Optamos por olhar “os meninos que têm fome” por nossas janelas com trincos, grades e infravermelho. Janelas que parecem compor uma espécie de "panóptico de Bentham" que forjamos em pleno início do século XXI. Não o criamos pra digladiar com o "panóptico do Estado" (originalmente concebido por Jeremy Bentham em 1789) mas sim pra que este "nosso panóptico" proporcione ao menos a sensação de que somos senhores da situação. Ou seria uma grandessíssima ilusão? 

Por estas janelas de nossas individualidades enquadramos tudo e todos e não nos damos conta de que pode estar acontecendo exatamente o oposto, isto é, tudo e todos nos enquadram e nos monitoram e nos cativam. Enquanto esta "ficha não cai", fechamo-nos "em copas", alheios aos problemas dos outros e preocupados somente como os nossos. 

Nossas janelas cerradas indicam nosso medo, um estado de espírito umbilicalmente vinculado à nossa vulnerabilidade. Indicam, igualmente, nosso alheamento em meio a um quadro social marcadamente desigual ou injusto e violento.

Sucumbimo-nos a um pragmatismo que, inocuamente, tenta nos desprender de uma característica que nos é inerente, a sociabilidade. Mesmo não querendo os individualistas mais empedernidos, somos seres sociáveis. A todo instante tentamos fazer com que as pessoas nos vejam com interesse para nos acolher, mas nem sempre estamos dispostos a acolher aqueles que são hoje, o que fomos no passado. 

Temos nos importado mais com as pessoas que tenham algo, que representam algo ou que detenham alguma autoridade do que com as pessoas de uma forma geral. Queremos que os canais e as portas estejam disponíveis para nosso ingressos, mas não suportamos a ideia de que estes canais e portas sejam universalizados.

Abaixo a letra da música "Esquadros"

Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores!

Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção
No que meu irmão ouve
E como uma segunda pele
Um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Ai, Eu quero chegar antes
Pra sinalizar
O estar de cada coisa
Filtrar seus graus


Eu ando pelo mundo
Divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome
Nos meninos que têm fome

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm
Para quê?
As crianças correm
Para onde?
Transito entre dois lados
De um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo
Me mostro
Eu canto para quem?

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle

Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor, cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle

Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
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