14 de maio de 2017

DONA MARIA

Cires Pereira

Sou seu terceiro dentre os quatro “varões” e o sétimo e penúltimo dentre todas as suas crias com o Sô Saul. Este, seu marido e meu pai, nos aguarda pra que, numa outra dimensão, nos congreguemos novamente. Cá entre nós, Dona Maria, duvido que você e ele ousariam “botar” no mundo de hoje uma “ninhada” tão grande.
Os tempos mudaram e são ainda mais difíceis. Será mesmo ?

Vejamos

Fomos, eu e os sete, gerados nos idos de 50 e 60 e fomos criados com o pão que nosso pai e a Senhora amassaram na “Nosso Pão”, alimentados com banha dos porcos sapecados sobre as folhas de bananeiras, escolarizados nos grupos e colégios públicos de uma cidade pequena.

Tivemos que complementar nosso aprendizado no trabalho desde infância, não era possível uma família de dez pessoas sobreviver havendo apenas o pai e a mãe como arrimos.
Todas as suas “crias” foram instruídas e educadas no lar, na escola e no trabalho. Os tempos idos eram mais difíceis do que os tempos agora.

A senhora foi servente de grupo escolar, inspetora de alunos, operária do setor têxtil, confeiteira e costureira e ao lado de um marido padeiro, lavrador, caminhoneiro, porteiro e vendedor. Mas o grande destaque tem sido amar. Amou e continua amando o nosso pai e suas oito crias. Aprendeu amar graças aos seus pais, Jordelina e Odon.

Mas amar oito de uma vez? Ai não !!! Estamos diante de um notável exemplo de auto didatismo.

Grande parte das mães que conheço tem seguido o seu exemplo pelo menos na parte do amor. As mães de hoje não se atreveriam a criar tantos filhos, mas tem se esmerado em amar os seus tanto quanto a senhora tem nos amado. Sua “irresponsabilidade” em gerar oito é tão larga quanto tem sido em amar oito e ainda sobra para os “agregados” (netos, netas, noras, genros, bisnetos, cunhados, sobrinhos, irmãos e amigos).

Dona Maria, a senhora é uma mulher muito rica, pois não sabe onde colocar tantas amizades e admiradores. Após cinquenta e dois anos te chamando de mãe e pedindo “bença”, hoje resolvi mudar e te chamar de Dona Maria.

Explico.

Todos que assim te chama, o fazem com prazer e satisfação, resolvi então experimentar. Durante estes trinta minutos de escrita, constatei que todos que não são teus filhos, nutrem uma vontade de, pelo menos durante estes trinta minutos, te chamarem de mãe.

Obrigado Dona Maria, por ter sido a mãe de oito e, obrigado Deus, por ter me concedido a honra de ser um destes oito.

Cires Pereira, O "Sétimo".
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