CARNAVAL

CIRES PEREIRA


"A Batalha entre a Quaresma e o Carnaval" Pieter Brüegel o Velho - 1559 

A tela acima, do renascentista Brüegelcontribui para que possamos compreender a natureza e o lugar na história de uma das mais importantes manifestações culturais da humanidade, o Carnaval ou a “festa da Carne”.

O pintor renascentista Pieter Brüegel (o velho), belga nascido em 1525 concluiu, no ano de 1559, uma de suas telas mais significativas, (frise-se que a mais famosa é "Torre de Babel"), - “Batalha entre o Carnaval e Quaresma”.

Trata-se de um óleo sobre madeira que exprime o contexto marcado pelo avanço da Reforma Protestante nos Países Baixos e a reação católica expressa no movimento da contrarreforma. Nesta tela é possível identificar uma síntese dualista entre o “bem” e o “mal”, entre o que é “certo” e o que é “errado”, respectivamente entre a “quaresma” e o “carnaval”.

Detalhe de "A Batalha entre a Quaresma e o Carnaval"

Uma taverna ou hospedaria é retratada no lado esquerdo e uma igreja (templo cristão) no lado direito da tela. Mas é no centro inferior da tela que encontramos os dois elementos mais importantes: Quaresma e Carnaval.

A quaresma é representada por uma mulher que encabeça uma procissão cristã que distribui esmolas aos pobres. A mulher, sentada em uma pequena carroça é puxada por um monge e uma freira. O Carnaval é representado por um senhor obeso que, montado num barril de cerveja e segurando um pedaço da carne de porco, lidera um grupo de felizes foliões, é o carnaval. 

Nesta tela do renascentista Brüegel, as pessoas encontram-se num ambiente marcado pelo confronto entre licenciosidades e abstinências, festejos e devoção, prazer e castidade, o riso e o luto, a austeridade e a extravagância. O cenário pressupõe a espiritualidade platônica, que até hoje se manifesta no dualismo entre o “sagrado” e o “profano”. O ascetismo (princípio determinante da conduta do homem medieval) e o hedonismo (princípio determinante de um novo homem no início da modernidade) se digladiam. 


QUANDO E ONDE COMEÇOU O CARNAVAL?

Os festejos ou celebrações sempre fizeram parte das diversas formações sociais e culturais desde os tempos mais remotos: na Antiguidade, eram recorrentes entre os egípcios, hebreus, gregos e romanos. Comumente celebravam as colheitas e louvavam suas divindades em agradecimento. Dentre as mais importantes festas, frise-se os "saturnais" que eram realizadas na Antiga Roma exaltando Saturno, Deus ligado à agricultura. Por ocasião dos festejos, as escolas fechavam, os escravos eram soltos e os romanos saiam de suas casas dançando, pulando numa grande explosão de alegria. Chegavam a confeccionar indumentárias para os seus corpos e a construir uma plataforma sobre rodas, denominada de “carrum navalis” onde as mulheres e os homens com pouca ou nenhuma vestimenta dançavam para o delírio dos demais “foliões”. 

Existe uma controvérsia entre os historiadores sobre a origem da palavra “Carnaval”, uma parte minoritária considera uma festa em torno desta plataforma “carrum navalis”, mas a parte majoritária e mais aceita atualmente considera que Carnaval vem da expressão latina “carnis levare”, que quer dizer, “levar a carne”

Atualmente costuma-se fazer uma ligação entre o carnaval e as orgias ou bacanais que eram festas greco-romanas em homenagem a Baco (Latino) ou Dionísio (greco), divindade associada ao vinho. Nestes festejos os convidados se entregavam aos prazeres do vinho e da carne em seu sentido literal. Naturalmente que a Igreja com suas delimitações de natureza moral “demonizava” uma festa que a rigor era “divina”. 

"Baco" Caravaggio - 1595 - óleo sobre tela
No período medieval a Europa tornou-se palco da cristianização na Europa conduzida pela Igreja Católica, assim as festividades ditas pagãs em parte foram incorporadas pela Igreja Católica. O Carnaval passou a ser os últimos dias de "liberdade" antes das restrições ditadas pela quaresma, isto é quarenta dias de penitências para os seus fieis, dentre as quais a proibição do consumo de carne. Todos devem tem percebido que a data do carnaval sempre varia, pois precisa se ajustar ao calendário cristão. No hemisfério sul comemora-se a “Páscoa” (libertação dos judeus do Egito e ressurreição de Cristo) no primeiro domingo após a primeira lua cheia do outono. Com o dia de páscoa estabelecido, voltamos 46 dias no calendário (40 dias quaresma e os 6 dias da semana santa) para determinar a “Quarta-Feira de Cinzas”. O Carnaval ocorre então nos dias anteriores à quarta-feira de cinzas. 

A poderosa Igreja tratou de permitir os festejos por não ser prudente cercear algo tão disseminado entre os seus fieis, dessa forma manteve a data do carnaval para quem quisessem cometer os “excessos” com a condição de que se sucumbissem à severidade ditada pela quaresma e semana santa.

Nos carnavais medievais os homens se fantasiavam de mulheres e saíam às noites invadindo casas sob a alegação de que provinham da fronteira do mundo dos vivos e dos mortos. Nestas casas, seus moradores deveriam permitir a “invasão” destes “seres que comiam e bebiam entre um e outro beijo nas moças da casa.

No Período Moderno os carnavais tornaram-se grandiosos encontros nas cidades. Nas cidades italianas tornou-se recorrente o uso de capa e capuz negros, chapéu de três pontas e a máscara branca (símbolo maior do carnaval).


PIERROT, ARLEQUIN E COLOMBINE: UM TRIO AMOROSO

Pedrolino na Itália, se tornou conhecido no Brasil com seu nome francês, Pierrot. Pierrot, de trajes em preto e branco e com uma lágrima, arranca suspiros nas mulheres devido a sua fisionomia melancólica e apaixonada. Já o Arlequin, mais extrovertido e espertalhão, é reconhecido por suas roupas com losangos. 

Pierrot e Colombine eram amigos de infância. Ele e ela trabalhavam para Pantaleão, um rico mercador de Veneza. Pierrot, nutria seu amor platônico por Colombine e escrevia cartas apaixonadas para seu amor, mas nunca as entregava. Foi num carnaval que Colombine conheceu Arlequin que acabou-lhe roubando um beijo. Colombine se apaixona por Arlequim e foge com ele, deixando para trás o Pierrot desolado.

"O Beijo de Arlequin" - Frank Xavier Leyendercker
No Brasil, na época da colonização portuguesa, os festejos foram também introduzidos e passaram a ser denominados de “Entrudo”, nele os portugueses permitiam a participação dos escravos de origem africana. Pra embalar a todos, utilizavam-se todos os tipos de sons, uns originários da Europa, outros originários da África além, claro dos locais. 

No Brasil, desde então, assistiu-se a um verdadeiro sincretismo (mistura) de sons, ritmos, danças, indumentárias e decorações diversos e amplos. Toda esta miscelânea era previsível considerando as dimensões do Brasil e, sobretudo, sua diversidade. 

Na Itália, por exemplo, os festejos de momo são menos variáveis, o que, em hipótese alguma sugerem ser menos importantes ou significantes do que por aqui nos trópicos do lado de cá do Atlântico.


ALGUMAS CURIOSIDADES CARNAVALESCAS

1 - Marchinhas 

As marchinhas de carnaval surgiram no século XIX, mas tornaram-se predominantes nos festejos entre os anos 20 e os anos 50. A primeira marchinha, escrita em 1899, pra um grupo carnavalesco ou bloco (Rosa de Ouro – Rio de Janeiro) intitulada "Ó Abre Alas" é de autoria de Chiquinha Gonzaga.

2 - Blocos Carnavalescos 

Surgiram ainda no século XIX. O primeiro de que se tem notícia foi criado por José Nogueira de Azevedo Prates, o Zé Pereira. Em 1846, Zé Pereira pegou um tambor e com seus batidos começou a atrair os foliões próximos. 

Galo da Madrugada (Recife) - o maior bloco de carnaval do mundo - 2 milhões de foliões
3 - Bailes de Carnaval

Nos bailes europeus, até o século XIX, eram restritos aos nobres, sendo obrigatório o uso de máscaras e, mascarados, os convidados cometiam excessos porque continuavam no anonimato. Desde então as máscaras e fantasias começaram a se tornar mais populares e enalteciam personagens da cultura europeia que remontam à Idade Média como Pierrot, Arlechim e Colombina, todos da commedia dell’arte italiana.


4 - Trios Elétricos 

Os trios elétricos são uma criação do carnaval brasileiro que remonta à década de 1950, quando os músicos baianos Dodô e Osmar, conhecidos como "dupla elétrica", colocaram dois alto-falantes num automóvel ford 1929 e saíram pelas ruas de Salvador. Logo o “fordinho 29” foi substituído por uma camionete. A dupla convidou então Themístocles Aragão para fazer parte do empreendimento que passou a ser chamado de “trio-elétrico”.

5 - A primeira escola de samba

Fundada em 1928, no Rio de Janeiro, a primeira Escola de Samba “Deixa Falar” teve seu nome alterado para Estácio de Sá logo na década seguinte. No Rio de Janeiro e em São Paulo surgiram novas escolas de samba que passaram a se organizar em Ligas de Escolas de Samba. Estas Ligas passaram a organizar os primeiros campeonatos que então escolhem a escola mais bonita e mais animada. 

Marchinhas, frevos, maracatus, samba, axé-music, timbalada, samba-enredos, mestre-salas e porta bandeira, abre-alas, fantasias, adereços, carros alegóricos, bonecos, blocos, afoxé... por tudo isso o carnaval no Brasil tornou-se uma referência e tem provocado muitas controvérsias por conta de suas mudanças geradoras tanto de aplausos, quanto frustração e indignação. 

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