ENEM 2016-2 DEZEMBRO RESOLUÇÃO CIÊNCIAS HUMANAS - FILOSOFIA

CIRES PEREIRA

01) Fundamos, como afirmam alguns cientistas, o antropoceno: uma nova era geológica com altíssimo poder de destruição, fruto dos últimos séculos que significaram um transtorno perverso do equilíbrio do sistema-Terra. Como enfrentar esta nova situação nunca ocorrida antes de forma globalizada e profunda? Temos pessoalmente trabalhado os paradigmas da sustentabilidade e do cuidado como relação amigável e cooperativa para com a natureza. Queremos, agora, agregar a ética da responsabilidade. 
BOFF, L. Responsabilidade coletiva. Disponível em: http://leonardoboff.wordp ress.com. Acesso em: 14 maio 2013. 


A ética da responsabilidade protagonizada pelo filósofo alemão Hans Jonas e reivindicada no texto é expressa pela máxima: 

A) “A tua ação possa valer como norma para todos os homens.” 
B) “A norma aceita por todos advenha da ação comunicativa e do discurso.” 
C) “A tua ação possa produzir a máxima felicidade para a maioria das pessoas.” 
D) “O teu agir almeje alcançar determinados fins que possam justificar os meios.” 
E) “O efeito de tuas ações não destrua a possibilidade futura da vida das novas gerações.”

11) Ninguém delibera sobre coisas que não podem ser de outro modo, nem sobre as que lhe é impossível fazer. Por conseguinte, como o conhecimento científico envolve demonstração, mas não há demonstração de coisas cujos primeiros princípios são variáveis (pois todas elas poderiam ser diferentemente), e como é impossível deliberar sobre coisas que são por necessidade, a sabedoria prática não pode ser ciência, nem arte: nem ciência, porque aquilo que se pode fazer é capaz de ser diferentemente, nem arte, porque o agir e o produzir são duas espécies diferentes de coisa. Resta, pois, a alternativa de ser ela uma capacidade verdadeira e raciocinada de agir com respeito às coisas que são boas ou más para o homem. 


ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Abril Cultural, 1980. 

Aristóteles considera a ética como pertencente ao campo do saber prático. Nesse sentido, ela difere-se dos outros saberes porque é caracterizada como 

A) conduta definida pela capacidade racional de escolha. 
B) capacidade de escolher de acordo com padrões científicos. 
C) conhecimento das coisas importantes para a vida do homem. 
D) técnica que tem como resultado a produção de boas ações. 
E) política estabelecida de acordo com padrões democráticos de deliberação. 



16) Arrependimentos terminais

Em  Antes  de  partir,  uma  cuidadora  especializada  em  doentes terminais  fala  do  que eles mais se arrependem na hora de morres. 

“Não deveria ter trabalhado tanto”, diz um dos pacientes. 
“Desejaria ter ficado em contato com meus amigos”, lembra outro. 
“Desejaria ter coragem de expressar meus sentimentos.” 
“Não deveria ter levado a vida baseando-me no que esperavam de mim”, diz um terceiro. 

Há cem anos ou cinquenta, quem  sabe,  sem  dúvida  seriam  outros  os  arrependimentos  terminais.

“Gostaria  de  ter  sido mais útil à minha pátria.” 
“Deveria ter sido mais obediente a Deus.” 
“Gostaria de ter deixado mais patrimônio aos meus descendentes.”


COELHO, M.  Folha de São Paulo , 2 jan. 2013.

O texto compara hipoteticamente dois padrões morais que divergem por se basearem respectivamente em

A) satisfação pessoal e valores tradicionais.
B) relativismo cultural e postura ecumênica.
C) tranquilidade espiritual e costumes liberais.
D) realização profissional e culto à personalidade.
E) engajamento político e princípios nacionalistas.


17) TEXTO I
Até aqui expus a natureza do homem (cujo orgulho e outras paixões o obrigaram a submeter-se ao governo), juntamente com o grande poder do seu governante, o qual comparei com o Leviatã, tirando essa comparação dos dois últimos versículos do capítulo 41 de Jó, onde Deus, após ter estabelecido o grande poder do Leviatã, lhe chamou Rei dos Soberbos. Não há nada na Terra, disse ele, que se lhe possa comparar.
HOBBES, T. O Leviatã. Sao Paulo: Martins Fontes, 2003.

TEXTO II
Eu asseguro, tranquilamente, que o governo civil é a solução adequada para as inconveniências do estado de natureza, que devem certamente ser grandes quando os homens podem ser juízes em causa própria, pois é fácil imaginar que um homem tão injusto a ponto de lesar o irmão dificilmente será justo para condenar a si mesmo pela mesma ofensa.

LOCKE, J. Segundo tratado sobre o governo civil. Petrópolis: Vozes, 1994.

Thomas Hobbes e John Locke, importantes teóricos contratualistas, discutiram aspectos ligados à natureza humana e ao Estado. Thomas Hobbes, diferentemente de John Locke, entende o estado de natureza como um(a)

A) condição de guerra de todos contra todos, miséria universal, insegurança e medo da morte violenta.
B) organização pré-social e pré-política em que o homem nasce com os direitos naturais: vida, liberdade, igualdade e propriedade.
C) capricho típico da menoridade, que deve ser eliminado pela exigência moral, para que o homem possa constituir o Estado civil.
D) situação em que os homens nascem como detentores de livre-arbítrio, mas são feridos em sua livre decisão pelo pecado original.
E) estado de felicidade, saúde e liberdade que é destruído pela civilização, que perturba as relações sociais e violenta a humanidade.


23) Os andróginos tentaram escalar o céu para combater os deuses. No entanto, os deuses em um primeiro momento pensam em matá-los de forma sumária. Depois decidem puni-los da forma mais cruel: dividem-nos em dois. Por exemplo, é como se pegássemos um ovo cozido e, com uma linha, dividíssemos ao meio. Desta forma, até hoje as metades separadas buscam reunir-se. Cada um com saudade de sua metade, tenta juntar-se novamente a ela, abraçando-se, enlaçando-se um ao outro, desejando formar um único ser.
PLATÃO. O banquete. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

No trecho da obra O banquete, Platão explicita, por meio de uma alegoria, o: 

A) bem supremo como fim do homem.
B) prazer perene como fundamento da felicidade.
C) ideal inteligível como transcendência desejada.
D) amor como falta constituinte do ser humano.
E) autoconhecimento como caminho da verdade.



30) Pode-se admitir que a experiência passada dá somente uma informação direta e segura sobre determinados objetos em determinados períodos do tempo, dos quais ela teve conhecimento. Todavia, é esta a principal questão sobre a qual gostaria de insistir: por que esta experiência tem de ser estendida a tempos futuros e a outros objetos que, pelo que sabemos, unicamente são similares em aparência. O pão que outrora comi alimentou-me, isto é, um corpo dotado de tais qualidades sensíveis estava, a este tempo, dotado de tais poderes desconhecidos. Mas, segue-se daí que este outro pão deve também alimentar-me como ocorreu na outra vez, e que qualidades sensíveis semelhantes devem sempre ser acompanhadas de poderes ocultos semelhantes? A consequência não parece de nenhum modo necessária.

HUME, D. Investigação acerca do entendimento humano. São Paulo: Abril Cuttural, 1995.

O problema descrito no texto tem como consequência a

A) universabilidade do conjunto das proposições de observação.
B) normatividade das teorias científicas que se valem da experiência.
C) dificuldade de se fundamentar as leis científicas em bases empíricas.
D) inviabilidade de se considerar a experiência na construção da ciência.
E) correspondência entre afirmações singulares e afirmações universais.

38) A justiça e a conformidade ao contrato consistem em algo com que a maioria dos homens parece concordar. Constitui um princípio julgado estender-se até os esconderijos dos ladrões e às confederações dos maiores vilões; até os que se afastaram a tal ponto da própria humanidade conservam entre si a fé e as regras da justiça.

LOCKE, J. Ensaio acerca do entendimento humano. São Paulo: Nova Cultural. 2000 (adaptado).

De acordo com Locke, até a mais precária coletividade depende de uma noção de justiça, pois tal noção

A) identifica indivíduos despreparados para a vida em comum.
B) contribui com a manutenção da ordem e do equilíbrio social.
C) estabelece um conjunto de regras para a formação da sociedade.
D) determina o que é certo ou errado num contexto de interesses conflitantes.
E) representa os interesses da coletividade, expressos pela vontade da maioria.


44)
[ ... ] O SERVIDOR — Diziam ser filho do rei. ..
ÉDIPO — Foi ela quem te entregou a criança?
O SERVIDOR — Foi ela, Senhor.
ÉDIPO — Com que intenção?
O SERVIDOR — Para que eu a matasse.
ÉDIPO — Uma mãe! Mulher desgraçada!
O SERVIDOR — Ela tinha medo de um oráculo dos deuses.
ÉDIPO — O que ele anunciava?
O SERVIDOR — Que essa criança um dia mataria seu pai.
ÉDIPO — Mas por que tu a entregaste a este homem?
O SERVIDOR — Tive piedade dela, mestre. Acreditei que ele a levaria ao país de onde vinha. Ele te salvou a vida, mas para os piores males! Se és realmente aquele de quem ele fala, saibas que nasceste marcado pela infelicidade.
ÉDIPO — Oh! Ai de mim! Então no final tudo seria verdade! Ah! Luz do dia, que eu te veja aqui pela última vez, já que hoje me revelo o filho de quem não devia nascer, o esposo de quem não devia ser, o assassino de quem não deveria matar!
SÓFOCLES. Édipo Rei. Porto Alegre· L&PM, 2011. 


O trecho da obra de Sófocles, que expressa o núcleo da tragédia grega, revela o(a)


A) condenação eterna dos homens pela prática injustificada do incesto.

B) legalismo estatal ao punir com a prisão perpétua o crime de parricídio.

C) busca pela explicação racional sobre os fatos até então desconhecidos.

D) caráter antropomórfico dos deuses na medida em que imitavam os homens.

E) impossibilidade de o homem fugir do destino predeterminado pelos deuses.



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