ENEM 2016 RESOLUÇÃO CIÊNCIAS HUMANAS: SOCIOLOGIA

PROFESSOR CIRES PEREIRA

14) A mundialização introduz o aumento da produtividade do trabalho sem acumulação de capital, justamente pelo caráter divisível da forma técnica molecular-digital do que resulta a permanência da má distribuição da renda: exemplificando mais uma vez, os vendedores de refrigerantes às portas dos estádios viram sua produtividade aumentada graças ao just in time dos fabricantes e distribuidores de bebidas, mas para realizar o valor de tais mercadorias, a forma do trabalho dos vendedores é a mais primitiva. Combinam-se, pois, acumulação molecular-digital com o puro uso da força de trabalho. 

OLIVEIRA, F. Critica à razão dualista e o ornitorrinco. Campinas: Boitempo, 2003. 

Os aspectos destacados no texto afetam diretamente questões como emprego e renda, sendo possível explicar essas transformações pelo(a) 

A) crise bancária e o fortalecimento do capital industrial. 
B) inovação toyotista e a regularização do trabalho formal. 
C) impacto da tecnologia e as modificações na estrutura produtiva. 
D) emergência da globalização e a expansão do setor secundário. 
E) diminuição do tempo de trabalho e a necessidade de diploma superior.

RESOLUÇÃO: Os processos produtivos tem sido concebidos objetivando invariavelmente o aumento da produção, logo o importante é melhorar a produtividade da mão-de-obra adequando-a aos novos maquinismos que a indústria fornece. 
  
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20)

Texto I



TEXTO II 

Metade da nova equipe da Nasa é composta por mulheres Até hoje, cerca de 350 astronautas americanos já estiveram no espaço, enquanto as mulheres não chegam a ser um terço desse número. Após o anúncio da turma composta 50% por mulheres, alguns internautas escreveram comentários machistas e desrespeitosos sobre a escolha nas redes sociais. 

Disponível em: https//catracalivre com br. Acesso em 10 mar 2016 

A comparação entre o anúncio publicitário de 1968 e a repercussão da notícia de 2016 mostra a 

A) elitização da carreira científica. 
B) qualificação da atividade doméstica. 
C) ambição de indústrias patrocinadoras. 
D) manutenção de estereótipos de gênero. 
E) equiparação de papéis nas relações familiares.

RESOLUÇÃO: É previsível que nas sociedades conservadoras o machismo, o homofobismo, o sexismo são traços muito marcantes. A imagem e os comentários (texto II) são reveladores deste esteriótipo de gênero que coloca a mulher como  menos importante e subjugada ao homem.

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24) Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas em redor — mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. A experiência ambiental da modernidade anula todas as fronteiras geográficas e raciais, de classe e nacionalidade: nesse sentido, pode-se dizer que a modernidade une a espécie humana. Porém, é uma unidade paradoxal, uma unidade de desunidade. 

BERMAN. M. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Cia das Letras. 1986 (adaptado) 

O texto apresenta uma interpretação da modernidade que a caracteriza como um(a) 

A) dinâmica social contraditória. 
B) interação coletiva harmônica. 
C) fenômeno econômico estável. 
D) sistema internacional decadente. 
E) processo histórico homogeneizador.

RESOLUÇÃO: O texto de Berman salienta os avanços da modernidade como desbravadores do que não que ainda não se conhece, dilatadores de fronteiras e indispensáveis à prosperidade material, contudo e não menos importante emite uma preocupação imanente, a "desunidade" e a destruição do que havia sido construído.

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25) Não estou mais pensando como costumava pensar. Percebo isso de modo mais acentuado quando estou lendo. Mergulhar num livro, ou num longo artigo, costumava ser fácil. Isso raramente ocorre atualmente. Agora minha atenção começa a divagar depois de duas ou três páginas. Creio que sei o que está acontecendo. Por mais de uma década venho passando mais tempo on-line, procurando e surfando e algumas vezes acrescentando informação a grande biblioteca da internet. A internet tem sido uma dadiva para um escritor como eu. Pesquisas que antes exigiam dias de procura em jornais ou na biblioteca agora podem ser feitas em minutos. Como disse o teórico da comunicação Marshall Mcluhan nos anos 60, a mídia não é apenas um canal passivo para o tráfego de informação. Ela fornece a matéria, mas também molda o processo de pensamento. E o que a net parece fazer é pulverizar minha capacidade de concentração e contemplação. 

CARR, N. ls Google maklng us stupid? Disponível em. www.theatlantic.com. Acesso em: 17 fev. 2013 (adaptado). 

Em relação à internet, a perspectiva defendida pelo autor ressalta um paradoxo que se caracteriza por 

A) associar uma experiência superficial à abundância de informações. 
B) condicionar uma capacidade individual à desorganização da rede. 
C) agregar uma tendência contemporânea à aceleração do tempo.
D) aproximar uma mídia inovadora à passividade da recepção. 
E) equipar uma ferramenta digital à tecnologia analógica


RESOLUÇÃO: O texto de Carr reconhece que o acesso às informações proporciona uma multiplicidade de opções e conhecimentos. As redes sociais, os blogs e as empresas jornalísticas tradicionais no universo "on-line" contribuem muitíssimo para ampliar e diversificar o conhecimento dos indivíduos e, ao mesmo tempo moldam este indivíduo num grau tão elevado que pode levá-lo a ignorar sua identidade. É o que se pode depreender no final do excerto "E o que a net parece fazer é pulverizar minha capacidade de concentração e contemplação." 


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28) A sociologia ainda não ultrapassou a era das construções e das sínteses filosóficas. Em vez de assumir a tarefa de lançar luz sobre uma parcela restrita do campo social, ela prefere buscar as brilhantes generalidades em que todas as questões são levantadas sem que nenhuma seja expressamente tratada. Não é com exames sumários e por meio de intuições rápidas que se pode chegar a descobrir as leis de uma realidade tão complexa. Sobretudo, generalizações às vezes tão amplas e tão apressadas não são suscetíveis de nenhum tipo de prova. 

DURKHEIM, E O suicídio: estudo de sociologia São Paulo: Martins Fontes, 2000 

O texto expressa o esforço de Émile Durkheim em construir uma sociologia com base na 

A) vinculação com a filosofia como saber unificado. 
B) reunião de percepções intuitivas para demonstração. 
C) formulação de hipóteses subjetivas sobre a vida social. 
D) adesão aos padrões de investigação típicos das ciências naturais. 
E) incorporação de um conhecimento alimentado pelo engajamento político.

RESOLUÇÃO: Os dois grandes sociólogos franceses Comte e Durkheim procuraram analisar a sociedade inspirando-se na forma e nos métodos comumente usados pelos cientistas naturais. Durkheim posicionou-se em defesa da neutralidade do cientista em relação ao seu objeto de análise, neste caso os indivíduos e a sociedade. Para Émile Durkheim, era imperativo ir além do "senso comum". Todo exercício da ciência parte do conhecimento vulgar, que é falível e limitado. 

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37) A democracia deliberativa afirma que as partes do conflito político devem deliberar entre si e, por meio de argumentação razoável, tentar chegar a um acordo sobre as políticas que seja satisfatório para todos. A democracia ativista desconfia das exortações à deliberação por acreditar que, no mundo real da política, onde as desigualdades estruturais influenciam procedimentos e resultados, processos democráticos que parecem cumprir as normas de deliberação geralmente tendem a beneficiar os agentes mais poderosos. Ela recomenda, portanto, que aqueles que se preocupam com a promoção de mais justiça devem realizar principalmente a atividade de oposição crítica, em vez de tentar chegar a um acordo com quem sustenta estruturas de poder existentes ou delas se beneficia. 

YOUNG, 1. M. Desafios ativistas à democracia deliberativa. Revista Brasileira de Ciência Política, n. 13, jan.-abr. 2014. 


As concepções de democracia deliberativa e de democracia ativista apresentadas no texto tratam como imprescindíveis, respectivamente,


A) a decisão da maioria e a uniformização de direitos. 
B) a organização de eleições o movimento anarquista. 
C) a obtenção do consenso e a mobilização das minorias. 
D) a fragmentação da participação e a desobediência civil. 
E) a imposição de resistência e o monitoramento da liberdade.

RESOLUÇÃO: A democracia deliberativa vai além do processo eletivo, pois implica numa participação mais direta dos indivíduos no domínio da esfera pública. As discussões, amparadas pelo conhecimento de causas e o criticismo, são as bases para a consecução de normas ou regulações para a sociedade. 

Segundo Jürgen Habermas, um dos formuladores deste conceito, as decisões políticas serão legítimas se forem baseadas numa vontade pública concebida democraticamente em estruturas não regulamentadas e desprovidas de relações de poder, denominadas de “esfera pública”. 

Já a democracia ativista, por outro lado, entende que a democracia deliberativa, ainda que se apresente como desprovida de relações de poder, não consegue um desvencilhamento suficiente para construção de algo plenamente novo e que consiga inverter as prioridades visando acolher as demandas justas das minorias. A base da democracia ativista é a mobilização recorrente dos indivíduos.

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38) A promessa da tecnologia moderna se converteu em uma ameaça, ou esta se associou àquela de forma indissolúvel. Ela vai além da constatação da ameaça física. Concebida para a felicidade humana, a submissão da natureza, na sobre medida de seu sucesso, que agora se estende à própria natureza do homem, conduziu ao maior desafio já posto ao ser humano pela sua própria ação. O novo continente da práxis coletiva que adentramos com a alta tecnologia ainda constitui, para a teoria ética, uma terra de ninguém. 

JONAS, H O principio da responsabilidade. Rio de Janeiro, Contraponto, Editora PUC-Rio, 2011 (adaptado). 

As implicações éticas da articulação apresentada no texto impulsionam a necessidade de construção de um novo padrão de comportamento, cujo objetivo consiste em garantir o(a) 

A) pragmatismo da escolha individual. 
B) sobrevivência de gerações futuras. 
C) fortalecimento de políticas liberais. 
D) valorização de múltiplas etnias. 
E) promoção da inclusão social.

RESOLUÇÃO: O texto considera imperativo que as condutas dos homens presentes deveriam se primar pela preocupação com a sobrevivência das gerações futuras. Estas condutas deveriam estar, portanto, associadas a uma ética humanista e conservacionista.

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40) Participei de uma entrevista com o músico Renato Teixeira. Certa hora, alguém pediu para listar as diferenças entre a música sertaneja antiga e a atual. A resposta dele surpreendeu a todos: “Não há diferença alguma. A música caipira sempre foi a mesma. É uma música que espelha a vida do homem no campo, e a música não mente. O que mudou não foi a música, mas a vida no campo”. Faz todo sentido: a música caipira de raiz exalava uma solidão, um certo distanciamento do país “moderno”. Exigir o mesmo de uma música feita hoje, num interior conectado, globalizado e rico como o que temos, é impossível. Para o bem ou para o mal, a música reflete seu próprio tempo. 

BARCINSKI. A Mudou a música ou mudaram os caipiras? Folha de São Paulo. 4 jun. 2012 (adaptado) 

A questão cultural indicada no texto ressalta o seguinte aspecto socioeconômico do atual campo brasileiro: 

A) Crescimento do sistema de produção extensiva. 
B) Expansão de atividades das novas ruralidades. 
C) Persistência de relações de trabalho compulsório. 
D) Contenção da política de subsídios agrícolas. 
E) Fortalecimento do modelo de organização cooperativa.

RESOLUÇÃO: Renato Teixeira salienta, com razão, que a música caipira inspira-se numa realidade específica, a vida do homem do campo e por isso mesmo ela capta as mudanças que ocorrem também neste "universo". O campo muda, logo sua música muda na mesma proporção. O "campo" não mais se restringe mais à atividade agropastoril, nele os serviços e o beneficiamento dos recursos "in natura" passam a ocupar um espaço relevante. A agropecuária moderna e a agricultura de subsistência dividem espaço com atividades ligadas ao lazer, prestação de serviços e até à indústria, reduzindo, cada vez mais, os limites entre o rural e o urbano no País.
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