O GOLPE DE 31 DE AGOSTO DE 2016

CIRES PEREIRA

Há 52 anos e cinco meses o Presidente João Goulart foi deposto pelos militares que permaneceram à frente do Estado Brasileiro por longos 21 anos. Há 31 anos a sociedade brasileira tem procurado, à duras penas, reedificar o Estado Democrático. É motivo de orgulho ter estado ao lado de homens e mulheres que não vergaram diante do arbítrio e dos obstáculos colocados para que não o tivéssemos. 

Os setores mais abastados da sociedade tem se esforçado para nos conter valendo-se, previsivelmente, de todo tipo de expediente. O seu grau de desespero determina, em última instância, suas artimanhas, e uma destas é o “golpe de Estado”. Ignoraram a vontade de 54 milhões de cidadãos e cidadãs e depuseram a atual mandatária da República, Dilma Rousseff.

Todo tipo de contorcionismo jurídico e todos os meios (lícitos e ilícitos) foram usados para interromperem um mandato popular. Persuadiram autoridades do Ministério Público, da Magistratura, do Parlamento e dos órgãos de segurança pública para construírem uma peça que desse respaldo ao abreviamento precoce deste mandato. 

Não fariam isto se não tivessem a convicção de que poderiam contar com uma parcela expressiva da sociedade civil, sobretudo os setores médios que são potenciais “formadores de opinião”. Parte majoritária dos meios de comunicação de massa cumpriu um papel protagonista nesta persuasão, com destaque para as Revistas Veja, Isto é e Época, os jornais Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, os grandes portais privados de mídia (Globo.com, UOL, Terra, Record, os grupos de televisão e de radiodifusão, etc. Autoridades eclesiásticas de todos os credos, artistas, jornalistas, enfim a grande parte dos formadores de opinião corroborou para a consecução de um “senso comum” decisivo: O Brasil nos últimos 13 anos tem sido sistematicamente prejudicado pelos “petralhas” e seus aliados.

Erros e deslizes cometidos por integrantes deste consórcio liderado pelo PT foram convenientemente usados para reforçarem a tese de que todo o consórcio (governo) errou e este tem sido pretexto para a construção do “golpe”. Frise-se que a posição do Ministério Público Federal contrariou a tese de “crime de responsabilidade” apresentada pela acusação tendo como base o relatório do TCU. 

A interrupção, baseada numa “farsa”, do mandato da Presidente Dilma era a única possibilidade que tinha os seus opositores para derrotarem um projeto que não se alinhava à ortodoxia neoliberal. A vileza dos golpistas chegou a ponto de atribuir ao governo Dilma a contração da economia nacional e a involução dos indicadores sociais, em nenhum momento reconheceram a razão principal da crise econômica nacional, a crise econômica mundial iniciada em 2008 nas economias centrais devido ao esgotamento do modelo neoliberal, sempre efusivamente aplaudido pelas elites daqui e do mundo.

O que teremos pela frente em curto prazo é a desconstrução de um projeto de governo que priorizou os setores sociais historicamente marginalizados e a retomada da expansão do capital externo nas atividades econômicas nacionais em detrimento. A ordem democrática foi desrespeitada e isso pode levar a uma nova ordem arbitrária de gravata ou de farda. Cabe aos homens e mulheres de bem e democráticos continuarem em luta e organizados para a contenção deste projeto das elites. “Eles”, hoje, nos venceram, mas sabem que a luta que empreendemos é permanente. 

O “31 de agosto de 2016” se assemelhou ao “31 de março de 1964”, cabe-nos não permitir que o porvir se assemelhe aos idos pós 1964. 

O luto pra nós foi, é e sempre será um verbo....

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