22 de maio de 2016

EDUCAÇÃO E INSTRUÇÃO DE NOSSAS CRIANÇAS

PROFESSOR CIRES PEREIRA


Criança é, por definição, todo ser humano na fase inicial (básico e ou fundamental) do processo de aprendizagem ou instrução. Numa perspectiva mais abrangente é todo ser humano nos seus “primeiros passos” do processo de educação.

A educação começa em “casa” sendo os pais potenciais educadores, continua na escola e na “rua” onde os professores são potenciais instrutores. Os irmãos e parentes, em “casa”, são linhas auxiliares nesta fase inicial da educação, enquanto os amigos, colegas, conhecidos e, eventualmente, desconhecidos, são linhas auxiliares do processo de instrução.  Estr é, preponderantemente, mediado e coordenado pelos professores. 

As crianças encontram-se, diuturnamente, cercada por educadores(as), instrutores(as), orientadores(as), supervisores(as), todo este séquito  as fazem sentir-se acolhidas. Tudo que as crianças fazem é um meio de aprendizado, portanto não há nada de superficial e/ou supérfluo em “seu mundo” que possa m prescindir quando adultas.

Fui uma criança bem educada, muito embora “pouco instruída”. Parece que incorri numa contradição, mas e daí ? 

Explico.

Meus pais tinham poucos recursos e tiveram oito filhos, vivíamos numa cidade pequena e fomos instruídos nas escolas públicas disponíveis. Desde os oito anos, frequentava a escola pelas manhãs e, às tardes, trabalhava pra ajudar no sustento da família. Tive “muitos bons educadores” – pais, irmãos, parentes e abnegados professores, contudo limitados instrutores. Dormia oito horas por dia, trabalhava por cinco horas e estudava em outras cinco horas, restavam-me seis horas para brincar e para o ócio. Algumas crianças destinavam parte do tempo de brincar para os seus “deveres de casa”. Eu, que pouco gostava de estudar, usava uma fração do tempo de brincar para estudar somente nos dias anteriores das provas. Comumente, "aprendia" matemática fazendo contas dos pontos que precisava para escapar da “recuperação de final de ano”.

Meus pais que tinham pouca instrução e meus instrutores com as limitações que lhes eram inerentes conseguiram liderar esta complexa rede de educadores/instrutores que tive quando infante e hoje não me canso de render-lhes homenagem pelo que  fizeram por mim.

Como estão nossas crianças atualmente?

Muitas mudanças delinearam uma criança diferente da criança que um dia fui. Portanto, cabe-nos debruçar sobre estas mudanças e seus reflexos nas crianças para que melhoremos o que tem dado certo e abortemos o que não está dando certo. 

Reitero, “cabe-nos”. Considero, tanto eu quanto você leitor(a), educador(a) das crianças que integram nossas famílias e instrutor das demais que são nossas conhecidas e, eventualmente, as que não conhecemos. As crianças em nossa sociedade precisam de educação e instrução e elas serão, em parte, o reflexo da educação e/ou instrução que ministramos à elas.

Tenho testemunhado um esforço crescente dos pais e professores(as), principais educadores(as) e principais instrutores(as), respectivamente, em proporcionar o “melhor” pra suas crianças, ainda que não se deem conta de que estejam cometendo alguns erros, dentre os quais, os excessos de zelo, de instrução e de educação, a saber:
O excesso de tarefas de aprendizagem: pais e professores estão exagerando na quantidade de tarefas determinadas e tudo me induz a concluir sobre a falta de uma integração entre família e escola para distribuição melhor das tarefas e dos compromissos de uma criança. Não é mais incrível que uma criança tenha uma agenda “mais apertada” que a dos seus pais.  
Flagrante falta de qualidade nas tarefas de aprendizagem: as escolas tem exigido, em linhas gerais, às criança uma carga de estudo que supostamente corrigiria os hiatos que são deixados no período em que estas encontram-se numa sala de aula. Frise-se que a instrução de uma criança deve ocorrer em toda parte e a todo o momento, contudo é na escola e ao lado de outras crianças que nos instruímos mais e melhor. 
Muito conhecimento, pouca reflexão: no mundo atual com as informações facilmente acessíveis, as crianças encontram-se diante de muitas informações, situações e objetos para serem apreendidos. Suas informações são diversas e complexas. Nós adultos estamos em condição de acompanhar este processo de apreensão? Esta apreensão, sem a coordenação de instrutores e educadores preparados, tem refletido em compreensão? A sensação que tenho é que as nossas crianças estão sendo transformadas em “guardadoras de informações ou conhecimentos”, mas e a reflexão? Está acontecendo? E se está, é feita na medida apropriada? Está sendo bem feita? 
A repetição de conteúdos de aprendizagem: nos ciclos fundamentais nossas crianças tem recebido uma carga de informação nas escolas que impressiona mais pela quantidade e, a meu ver, decepciona, pela qualidade. Alguns conceitos e certas abstrações poderiam e deveriam ser feitas no Ensino Médio, logo não me parece inteligente e útil que sejam feitas no Ensino Fundamental. Tenho acompanhado alunos no Ensino Médio que, nos ciclos fundamentais tinham notas muito boas (um, reitero, apenas um indicativo de boa aprendizagem), mas não se lembram do que conheceram. Uma resposta muito frequente que tenho dado eles é que, nossas crianças compreenderam muito menos do que conheceram. Aos meus colegas dos ciclos fundamentais faço um apelo, diminuam a carga de conteúdos e destinem um tempo maior para a compreensão, a reflexão e a significação daqueles conteúdos que lhes pareçam fundamentais. 
Os erros dos pais: aqui tenho que considerar como erro principal o exagero pra mais e pra menos. As crianças de famílias com médio ou alto poder aquisitivo, cujos pais optam em acompanha-las de perto e com rigor, tem tido pouco (ou nenhum) tempo pra brincar e para o ócio, pois ocupam os seus dias (incluindo parte do final de semana) com a escola regular, com a dança, com uma atividade física, com a escola de línguas e com os estudos autônomos em casa. Também o inverso faz parte desta comprometedora e triste realidade, crianças que, diante da negligência de seus pais e, quando não estão em suas escolas ocupam, a maior parte de seu tempo, entretidas com atividades incompatíveis com sua idade, no ócio ou simplesmente de diversão. 

As notas das avaliações obtidas por nossas crianças nas escolas precisam ser objeto de reflexão tanto pelos professores quando pelos seus país. Uma "boa" nota, apesar de limitada pra uma avaliação mais aprofundada, é aquela que se encontra na média da turma de seu filho, pois sinaliza que o é uma criança normal, que está acompanhando o ritmo estabelecido pelos professores e os seus colegas. 

É natural sentirmos bem quando os nossos filhos conquistam notas acima da média, contudo prefiro que meu filho ou filha não abdique de ser criança pra obtê-las. Suas notas devem exprimir seu esforço cognitivo, sua disciplina na obtenção e compreensão dos objetos e situações abordadas no espaço escolar. Tratemos nossas crianças como crianças, pois não temos o direito de subtrair delas um direito, o de ser criança, elementar da existência humana.

Ao final de todos os anos é imperativo que a família se reúna para avaliar os resultados obtidos pelas crianças e construir a agenda do ano seguinte que leve em conta o tempo de ócio e de brincar, o tempo de estudar e os compromissos necessários para a correção de debilidades e melhorias no que tem dado certo. Nesta reunião é também importante que se discuta as regras e os encargos de cada membro da família e a premiação, afinal de contas ninguém é de ferro, "hehe".

Somos educadores(as) e instrutores(as),  desejamos a felicidade de nossas crianças e a nossa, logo é nosso “direito” acompanhar nossas crianças brincando e, elas, o "dever" de brincar.
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