28 de abril de 2016

O BRASIL E SEUS EIXOS

CIRES PEREIRA


01) INTRODUÇÃO

Assim como foi imperativo ao longo dos "impérios", um seleto grupo de credores financeiros também presidiu, com raras exceções, a maioria dos presidentes das várias faces republicanas. O "atrevimento" de João Goulart em objetar esta lógica custou-lhe o cargo e mais ainda custou a democracia por vinte e um anos. A redemocratização na esteira das diretas não dilacerou vícios criados antes e durante o arbítrio, vícios que eram (e continuam sendo) um convite para o deleite das víboras da mais fina flor (de coturno ou não) e do mais letal veneno.

Os ajustes, tendencialmente neoliberais, comandados por um sociólogo enfim criaram um certa estabilidade nos anos 90, que sinalizavam alento para o seleto grupo de credores, mas não para a maioria que continuava pouco ou nada incluída.

Eis que, um ex-dirigente sindical e líder das principais organizações de massas dos anos 80 e 90 (PT e CUT), elegeu-se presidente imbuído do propósito de se atrever contra esta lógica. Um atrevimento comedido expresso na Carta ao Povo Brasileiro", mas era sim um atrevimento.

02) PREPARANDO PARA SAIR DOS EIXOS ANTIGOS

Lula sempre soube que as mudanças precisariam vir a conta-gotas com impactos que pudessem ser assimilados pelas elites. Tinha em mente que as estruturas de poder no país dificilmente lhe permitiriam que governasse amparado pelas organizações sociais identificadas com o seu programa, foi preciso contemporizar e compor com frações dos partidos até então refratários à ele. Custou-lhe isso muito caro. O PMDB tem várias faces, mas são maiores e mais poderosas as faces clientelista, fisiologista e arrivista.

Lula se precaveu disto mas não o suficiente pra impedir embaraços que não pudessem ser desatados, estamos diante do principal: Temer e as mil faces do PMDB. Não se pode atribuir aos outros os fatores decisivos de seus erros, o PT e Lula erraram muito, deveriam ter destruído os vários ninhos de serpentes, mas não se atreveram a isso.

Por muitos anos o PT era um partido de massas com poucos "aparelhos" mas muita militância e muita disposição à critica, à elaboração e à ação mudancistas. Seus quadros, incluindo o maior deles, eram o reflexo das lutas cotidianas. Aos poucos o partido foi conquistando importantes prefeituras, governos até chegar ao governo federal em 2003. Mas desde o início dos anos 90, num contexto de "nova ordem" e ventos neoliberais, seus encontros passaram a ser feitos por uma maioria constituída por militantes profissionalizados e ocupantes de cargos públicos e a agenda passou a sofrer mudanças importantes. Conquistaram o governo, contudo passaram a perder a autoridade de fato sobre as lutas e o movimento.

Em razão desta mudança, o PT passou a perder a vergonha em agir da maneira que agiam seus opositores. As campanhas eleitorais foram profissionalizadas e ganharam volume, mas perderam gente e brilho. Assim nossas lideranças no governo, incluindo Lula, tiveram que aprofundar suas relações com representantes das elites no Congresso e em suas associações sem o lastro popular.

03) BRASIL EM NOVOS EIXOS

A governabilidade foi possível enquanto a economia crescia, mas os vícios de negociatas sem lastro popular continuavam e as serpentes (algumas abrigadas no nosso campo) começaram a agir, pois não se davam conta de que as elites que sempre nos rejeitaram estariam com uma lupa pra identificar desvios e exigir não a depuração de um ou outro membro do governo, mas a depuração do governo. Não tiveram condições de fazê-lo até 2013, pois faltavam à elas um lastro popular. Os protestos de 2013, ancorados na bandeira do combate à corrupção, animaram as elites que por pouco não venceram em 2014.

Teriam que continuar assistindo, por mais quatro anos, a um governo que, tendo aprendido com seus erros, começava a limpar a sujeira cortando algumas serpentes incrustadas na máquina pública poderia ser muito arriscado. As oposições até 2013 eram motivo de chacota pelo fato de não terem um programa melhor do que o do governo e não terem base de sustentação. Alckmin e Aécio vaiados na Paulista durante a manifestação contra o governo não foi obra do acaso, mas o reflexo da desconexão dos Partidos oposicionistas com a sociedade.

A crise econômica que se abateu sobre as economias de mercado no mundo inteiro afetaria, mais cedo ou mais tarde, a economia brasileira e a "marolinha" tornou-se "tornado" arrastando tudo e, ao que tudo indica, o próprio governo. Dilma não errou economicamente e não pecou eticamente, mas se equivocou em crer que fosse possível continuar mal-acompanhada com quem agora "costuram" com e para Temer. Seu erro provavelmente decorreu da incapacidade em compreender e subestimar seus inimigos, muitos dos quais aliados de conveniência.

Em 2013 cri que Dilma, tendo compreendido a equivocada estratégia, fosse se desvencilhar do embaraço, contudo o contexto não lhe era mais minimamente favorável: a economia gritava em febre e o que lhe restava de respaldo popular se dissipava a galope. Suas proposições para aplacarem os gritos e reorganizarem a política e a economia foram rechaçadas pelas oposições que, ressuscitadas, passaram a maquinar o "golpe"

Em 2014, já era meio tarde, mesmo assim um alento, vencemos as eleições, contudo as serpentes já haviam se espalhado para porem seus ovos na Paulista, em Wall Strett, no Gutierrez, na Vieira Souto, enfim nos endereços mais abastados. A mobilização dos opositores precisava então ser permanente para que o "sangramento da besta" não perdurasse por muito tempo até o fatídico 17 de abril co corrente ano.

04) RECOLOCANDO O BRASIL EM SEUS ANTIGOS EIXOS

Passado o 17 de abril, os conchavos conduzidos pelo vice-presidente Temer intensificaram-se e, gradativamente, materializando o que era previsível. Temer pleiteia o comando do governo e se satisfaz com isso, mas o que mais importa é a "guinada conservadora", isto é, o Brasil deve ser "recolocado nos seus antigos eixos" que haviam sido concebidos nos "oitocentos". uma "potência" produtora de bens primários que possam abastecer os mercados centrais.

O Tripé - a) ajuste fiscal, c); meta inflacionária e c) política cambial e juros adequados) - esta artimanha do liberalismo clássico dos "setecentos" e repaginada para o novo milênio reaproxima o que havia se desgarrado: governo e credores/investidores/empreendedores. 
a) Cortes em gastos, redução de pessoal e serviços, concessões à iniciativa privada, privatizações , flexibilização da política trabalhista e até redução de algum imposto.
b) redução das políticas assistenciais, fim dos ganhos reais de salários se imporão ainda mais para "domar" a inflação.
c) Dólar na média entre 3 e 4 dólares e juros elevados que beneficiem, respectivamente, as exportações e os ganhos rentistas dos credores.
E o Brasil aos poucos volta a dormir em seu berço esplêndido em seus devidos (para uns poucos) ou indevidos (para maioria) eixos...
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