BOLSONARO: A FACE DO HORROR

PROF. DR. ROBERTO BUENO*


O horror é a face humana para a qual o impensável não tem limitação neste mundo. A realização da barbárie sempre pode superar o terreno da ficção em sua crua e horrenda realidade. A imaginação humana quase não alcança os confins da selvageria que alguns homens carregam em sua composição mental. A ética do Dep. Bolsonaro não alcança o último átomo dos pés do homem primitivo, cujas práticas selvagens visavam a sobrevivência, enquanto este contemporâneo exalta o terror por simpatia profunda.

Bárbaro, o Dep. Bolsonaro é a encarnação da pior face humana, trazendo ao terreno público as criminosas profundezas do patológico desejo de infligir a dor, voz ativa dos fétidos elogios ao estupro como recurso político. A esta altura, peço a devida vênia para uma pausa. Alma supinamente asquerosa, cruel, criminosa, perversa, doentia, ademais de humanamente letal! Não é de política do que se trata ao dilacerar o outro! É imperativo esclarecer a fronteira do debate político e da loucura completa do torturador, do arrebatamento físico do outro, do corte profundo n´alma e no corpo perpassando a mente com cicatrizes que nem o tempo cura. Necessitamos impor limites mesmo nas piores batalhas, projetando consensos mínimos e a inviolabilidade física das pessoas é um deles.

A memória do sofrimento dos que pereceram sob o fascismo redivivo inunda de náusea e torpor. Admitiremos que já não a raiva mas o ódio mais cru, demente e patológico invada o terreno da política? Devemos manter nossas convicções políticas, algo absolutamente democrático; devendo intervir no debate público para exercitar as melhores razões para persuadir. Mas cruzamos o rubicão ao admitir como discurso político a pura ameaça física, aberta, pública e televisada em rede nacional contra a maior autoridade da República, a quem 54 milhões de pessoas conferiram o seu voto.

Em sessão do Congresso Nacional sobre a admissibilidade do pedido de impeachment da Presidente Dilma, o Dep. Bolsonaro homenageou o Cel. Brilhante Ustra, torturador reconhecido e estuprador, cultor de todo o tipo violações, estranhas mesmo a imaginação das mentes mais depravadas e doentias. Esbofeteou o voto de milhões e todo o sistema constitucional pelos quais Bolsonaro nunca lutou, senão que insiste em sua ignominiosa gramática: não estupraria a Dep. Maria do Rosário (PT-RS) porque ela “não merecia”.

Asco e repugnância coletiva, este o mundo deserdado dos covardes. Ou afrontamos o vilipendiador humano ou o estágio civilizatório regride! Estancar a indignidade é reafirmar os direitos fundamentais, é opor-se à ditadura, tenebrosa cultura do abuso, tempo e templo de horrendas violências de todo gênero.

A omissão tem preço bem recordado por Brecht: 
“Primeiro levaram os negros; Mas não me importei com isso; Eu não era negro/Em seguida, levaram alguns operários; […] Eu também não era operário/[…]; Agora estão me levando; Mas já é tarde; Como eu não me importei com ninguém; Ninguém se importa comigo”. 
"Intertexto" de Bertold Brecht (1898-1956)
Eu, como a maioria esmagadora da população, não compactuo nem me omitirei em face da apologia da tortura e do estupro como método político.

Ajamos antes que a tortura e as violações atinjam os nossos filhos e já ninguém os defenda. Isto é civilização, o resto, barbárie. Manter a espinha ereta e mente tranquila ante o tribunal da própria consciência é a tarefa maior daqueles que almejam ter o espelho como aliado. Abaixo disto, é a covardia e a vileza que operam em estado puro.

*Roberto Bueno é Pós-doutor e Professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Uberlândia.

Artigo publicado na Coluna "Ponto de Vista" do Jornal Correio de Uberlândia edição de 28 de abril de 2016. 

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