30 de abril de 2016

BOLSONARO: A FACE DO HORROR

PROF. DR. ROBERTO BUENO*


O horror é a face humana para a qual o impensável não tem limitação neste mundo. A realização da barbárie sempre pode superar o terreno da ficção em sua crua e horrenda realidade. A imaginação humana quase não alcança os confins da selvageria que alguns homens carregam em sua composição mental. A ética do Dep. Bolsonaro não alcança o último átomo dos pés do homem primitivo, cujas práticas selvagens visavam a sobrevivência, enquanto este contemporâneo exalta o terror por simpatia profunda.

Bárbaro, o Dep. Bolsonaro é a encarnação da pior face humana, trazendo ao terreno público as criminosas profundezas do patológico desejo de infligir a dor, voz ativa dos fétidos elogios ao estupro como recurso político. A esta altura, peço a devida vênia para uma pausa. Alma supinamente asquerosa, cruel, criminosa, perversa, doentia, ademais de humanamente letal! Não é de política do que se trata ao dilacerar o outro! É imperativo esclarecer a fronteira do debate político e da loucura completa do torturador, do arrebatamento físico do outro, do corte profundo n´alma e no corpo perpassando a mente com cicatrizes que nem o tempo cura. Necessitamos impor limites mesmo nas piores batalhas, projetando consensos mínimos e a inviolabilidade física das pessoas é um deles.

A memória do sofrimento dos que pereceram sob o fascismo redivivo inunda de náusea e torpor. Admitiremos que já não a raiva mas o ódio mais cru, demente e patológico invada o terreno da política? Devemos manter nossas convicções políticas, algo absolutamente democrático; devendo intervir no debate público para exercitar as melhores razões para persuadir. Mas cruzamos o rubicão ao admitir como discurso político a pura ameaça física, aberta, pública e televisada em rede nacional contra a maior autoridade da República, a quem 54 milhões de pessoas conferiram o seu voto.

Em sessão do Congresso Nacional sobre a admissibilidade do pedido de impeachment da Presidente Dilma, o Dep. Bolsonaro homenageou o Cel. Brilhante Ustra, torturador reconhecido e estuprador, cultor de todo o tipo violações, estranhas mesmo a imaginação das mentes mais depravadas e doentias. Esbofeteou o voto de milhões e todo o sistema constitucional pelos quais Bolsonaro nunca lutou, senão que insiste em sua ignominiosa gramática: não estupraria a Dep. Maria do Rosário (PT-RS) porque ela “não merecia”.

Asco e repugnância coletiva, este o mundo deserdado dos covardes. Ou afrontamos o vilipendiador humano ou o estágio civilizatório regride! Estancar a indignidade é reafirmar os direitos fundamentais, é opor-se à ditadura, tenebrosa cultura do abuso, tempo e templo de horrendas violências de todo gênero.

A omissão tem preço bem recordado por Brecht: 
“Primeiro levaram os negros; Mas não me importei com isso; Eu não era negro/Em seguida, levaram alguns operários; […] Eu também não era operário/[…]; Agora estão me levando; Mas já é tarde; Como eu não me importei com ninguém; Ninguém se importa comigo”. 
"Intertexto" de Bertold Brecht (1898-1956)
Eu, como a maioria esmagadora da população, não compactuo nem me omitirei em face da apologia da tortura e do estupro como método político.

Ajamos antes que a tortura e as violações atinjam os nossos filhos e já ninguém os defenda. Isto é civilização, o resto, barbárie. Manter a espinha ereta e mente tranquila ante o tribunal da própria consciência é a tarefa maior daqueles que almejam ter o espelho como aliado. Abaixo disto, é a covardia e a vileza que operam em estado puro.

*Roberto Bueno é Pós-doutor e Professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Uberlândia.

Artigo publicado na Coluna "Ponto de Vista" do Jornal Correio de Uberlândia edição de 28 de abril de 2016. 

Postar um comentário