28 de fevereiro de 2016

GABARITO É UMA ESCOLA

Professor Cires Pereira*
A escola é o espaço mais adequado para a escolarização ou a transmissão e compreensão do conhecimento acumulado pelas gerações pretéritas e o conhecimento de seus contemporâneos. A escola pode (e deve) ser também um espaço de educação, tornando-se a extensão das famílias de seus alunos. Nela, professores, psicólogos, funcionários e diretores, devem cuidar dos alunos com o carinho, o amor e o respeito que estes desfrutam em suas casas.
Falta muito pouco para completar um quartel de século na condição de professor e não hesitaria em aceitar, se pudesse,passar outros vinte e cinco anos numa escola como um professor. Não há ambiente mais adequado e mais controverso do que um ambiente escolar, pois é a confluência de tudo que se vê e que se sente nos ambientes externos (clube,casa, Igreja, ruas, praças, bares, becos, etc). Um ambiente que pode ser ora atraente, ora repulsivo. Numa escola, como em qualquer outro lugar privado ou público, existem regras e o respeito a elas é importante para sua estabilidade e harmonia entre todos que nela passam.

As regras foram uma importante conquista dos homens e mulheres que um dia se levantaram contra a ordem “absolutista” no ocidente europeu. A ordem anterior, pautada na desigualdade jurídica, satisfazia a uma parcela diminuta da sociedade e assegurava ao Estado prerrogativas que comprometiam os direitos mais elementares da pessoa, como a vida e a liberdade.

Sim, nos “setecentos” e nos “oitocentos”milhões de homens e mulheres lutaram pelo direito de serem livres tanto "do lado de lá" quanto "do lado de cá" do Atlântico. Lutaram pelo direito de serem tratados com dignidade, de serem respeitados e de serem iguais perante o Estado. A preservação do Estado tornou-se uma quase unanimidade entre estes lutadores e estas lutadoras que impuseram a seguinte condição: o Estado deve-se tornar um instrumento zelador/garantidor dos direitos mais elementares e inalienáveis do indivíduo e da coletividade, como os direitos de ser livre e de viver.

Estes revolucionários entendiam (não conheço nenhuma corrente que objete isto até hoje) que era necessário um conjunto de regras e normas para que todos os indivíduos pudessem ser tratados com igualda de perante o “Estado”. No começo estes direitos eram restritos aos indivíduos do sexo masculino, maiores de idade e com rendas e patrimônio acimada média. Aqueles que se sentiram excluídos ou alijados, felizmente, levantaram-se e exigiram que também fossem incluídos. Na história não foram e não são raros os movimentos pela igualdade jurídica (todos iguais perante o Estado), todos eles são motivos de aplausos. Graças a estes movimentos, vivemos numa sociedade democrática onde o Estado é laico e democrático. As regras quando bem discutidas e democraticamente definidas possibilitam o exercício pleno da cidadania.

Na ordem democrática as regras delimitam as condutas da coletividade e da individualidade. As regras não são a expressão da opressão, como erroneamente insinuam algumas pessoas. Deste modo considero legítimo e salutar que se faça questionamentos quanto às regras, desde que se tenham outras mais adequadas eque sejam acolhidas pela maioria numa escola, numa nação, enfim em qualquer lugar.

Vale considerar que as regras eventualmente podem ser mal interpretadas e assim é possível que sejam mal aplicadas e/ou negligenciadas. Nesta situação é previsível que ocorram reclamações por parte de quem se sentiu injustiçado ou discriminado.

Negligência, abusos e omissão, por mais que tentemos evitar, ocorrem e numa escola não poderia ser diferente e nada mais razoável do que um pedido de desculpas. Assim os erros cometidos por aqueles que foram contratado ou escolhidos para “zelar” pelas regras gerais (regimento escolar), precisam ser apurados. A apuração não pode levar em conta somente uma versão ou um lado, do contrário não há como advertir ou punir se for o caso.

Lamento muito que a história, antes das devidas apuração e providências, tenha se espalhado pelas redes sociais, ainda que seja um direito denunciar. Frise-se o ônus da prova é do denunciante/acusador. Sem a prova é possível que se torneuma denúncia vazia e, como bem diz a nota de esclarecimento do Sistema Gabarito, não houve discriminação de gênero.

No Colégio Gabarito, como é previsível e crível numa instituição escolar, existem regras que delimitam as condutas de seus funcionários, professores, diretores e alunos. São estas regras que garantem direitos, pois“a priori” foram feitas para impedir abusos, incluindo o abuso de autoridade. A observância destas regras materializa a reprodução “in loco” dos preceitos e ordenamento do Estado de Direito Democrático.

Há um ano nesta instituição não presenciei nenhum caso em que a norma não estivesse sendo aplicada ou que alguém estivesse sendo discriminado. Nossa aluna entrou na escola usando vestido, uma peça do vestuário cujo uso durante as aulas transcende o permitido no regimento escolar. A funcionária ponderou que da próxima vez a norma fosse por ela observada, o que também foi dito pelo coordenador da escola.

A abordagem e as ponderações feitas à nossa aluna não configuraram uma discriminação, tampouco discriminação de gênero, pois este também tem sido o procedimento adotado junto aos alunos. Uma escola melhora graças aos questionamentos de quem vive o seu dia-a-dia e espero que este “incidente” nos ajude a ser uma escola ainda melhor.

A manifestação dos membros de uma instituição social é legítima, ainda que não concorde com o seu conteúdo, contudo é imperativo que seja uma peça com juízos de valores comprovados e,preferivelmente, que aponte soluções para melhorar a referida instituição. O texto motivador deste (link:, mesmo discordando dele e mesmo julgando impertinente a sua publicação antes da apuração dos fatos, pode servir de referência para melhorar a escola.

As escolas, os livros e os (as) professores(as) são as armas para confrontar o “senso comum” que, comumente, é amparado em versão apressada, em juízo às vezes equivocado e que se apresenta na forma de libelos acusatórios eivado de frases de efeito e lugar comum. Precisando de audiência e de aderentes, do contrário seus conceptores poderiam ser taxados de“loucos”, a denúncia não hesita em valer-se apenas da versão do denunciante ignorando muitas vezes o fato.

Neste mundo virtual uma centelha deflagra labaredas inescrupulosas que tentam carcomer o que nos custou anos para erigir.Felizmente não damos por vencidos, não nos vergamos em meio à falácia“radioativa” de quem pouco ou nada conhece o universo de uma escola e/ou a célula de uma sala de aula sob a ótica de seus funcionários, professores e diretores.

A verdade, o documento, o fato, o objeto, a observação, a mensuração, a comprovação, a tese e sua aplicação, o respeito, o carinho. É tudo isso e mais um pouco o que uma escola precisa oferecer às crianças e aos jovens que desejam se desvencilhar do "senso comum".

O Gabarito é uma escola com os seus limites,seus problemas e equívocos e muitos, muitos tem sido os seus acertos. Diferencia-sede muitas outras escolas graças à sua predisposição em aperfeiçoar mais ainda os serviços prestados à comunidade na área da educação. Tem sido motivo de orgulho participar deste projeto e penso que esta também é a opinião de meus colegas professores e funcionários. Definitivamente, não “arredaremos o pé” em servir com dignidade, com esmero e com respeito o nobre ofício de educar.

* Professor de História do pré-vestibular e Sociologia da 1ª série do ensino médio no Sistema Gabarito.
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