A CRISE BRASILEIRA NO CONTEXTO DA "CRISE MUNDIAL"

Cires Pereira


Brasil é um dos lugares da crise que é mundial, mas aqui os textos, as imagens e as falas midiáticas insistem na descontextualização da crise brasileira como se não houvesse uma crise mundial.
Assustadoramente, "ENFIA GOELA ABAIXO" o seguinte "senso comum": nosso país está em crise porque tem um comando incompetente, insensível e corrupto. Lá fora não se atribui as manifestações nacionais da crise que é MUNDIAL, aos governos nacionais respectivos, mas ao modelo econômico vigente.

Este modelo, propugnado pelos comandantes das maiores corporações privadas do mundo, resgatou os preceitos do pensamento liberal (smithiano e ricardiano). Em seguida procurou adequá-lo às circunstâncias e/ou conveniências de grande parte do empresariado que resistia ao intervencionismo/assistencialismo keynesiano implantado desde os idos de 1930 mundo afora.

A ordem era, desde o desmonte do "socialismo real" no leste europeu e na URSS, globalizar mercados, reduzir custos, diminuir os impostos e o Estado, reduzir a assistência e, acima de tudo, restabelecer a a liberdade das margens de lucros para as empresas privadas. Em suma a economia voltou, em parte, ao modelo que havia levado à corrida imperialista e aos conflitos na primeira metade do século XX.

Houve sim, entre 2008 e 2011, um esforço importante do governo brasileiro em reduzir os efeitos desta crise que, mais dia ou menos dia, acometeria a economia brasileira. Procurou-se reduzir a dependência histórica que a economia doméstica tinha das exportações, as políticas de transferência de renda e de amparo aos setores sociais mais humildes. O que se viu foi uma explosão do consumo. Era óbvio que o Estado teria que se incumbir disto e era inevitável que houvesse um aumento do déficit público e do endividamento. Não fosse o Estado não seria mais ninguém, logo o drama social seria maior.

O governo suspendeu as privatizações, distribuiu renda, reforçou o serviço público e a sua área social. Mesmo fazendo concessões ao neoliberalismo (carta aos brasileiros e compromisso com o pagamento da dívida para poder assumir o governo) desagradou as diretrizes mais gerais do neoliberalismo. Entre 2011 a 2014 Dilma manteve esta linha ampliando o investimento social.

A oposição e grande parte da mídia nacional, estupefatas, trataram de enaltecer os efeitos colaterais e os erros de aplicação desta lógica para desqualificar a (boa e providencial) intenção do governo. A ordem era e ainda é não admitir os acertos e não aceitar uma agenda positiva do governo (sequer se encarregaram de elaborar uma agenda alternativa pra negociarem).

Hoje a crise, que lá é crônica desde 2008, aqui se agrava, mas a tática "deles" é o "quanto pior, melhor". De tudo tem feito para abreviar o mandato legitimamente conquistado do governo atual, apegando-se à desacertos menores que não abreviariam o governo se fosse "deles" e à denunciação que tem por meta, mesmo sem o "domínio do fato", lançar a maioria contra o governo e assim esgana-lo pelo cansaço.

Este é o quadro atual.

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