RETROSPECTIVA 2015: POLÍTICA

CIRES PEREIRA
Reunião do G 20 na Turquia

Um  ano de importantes encontros e resoluções multilaterais que reforçam ainda mais a tese de que a ordem mundial não pode mais ser regida por um ou por dois governos, a saber: Cúpula do G 7, na Alemanha 7ª Cúpula dos BRICS, na Rússia, Cúpula do G 20, na Turquia e a COP 21, em Paris.

No G7, seus membros além de discutiram a crise, especialmente o quadro grave na Grécia que teve que se reestruturar para receber um socorro financeiro da Zona do Euro. O grupo também se comprometeu a reestruturar o setor energético e a promover a diminuição dos índices de carbono na atmosfera.

Na Cúpula dos BRICS o mais importante foi a aprovação de um documento "Estratégia para uma Parceria Econômica do BRICS" que reforça a Carta de Fortaleza da 6ª Cúpula no Brasil. Nele estabeleceu-se um roteiro para o fortalecimento da cooperação entre os países do bloco. A Estratégia prevê atividades consideradas prioritárias entre os BRICS em temas como comércio, investimento, energia, mineração, agricultura, cooperação financeira, infraestrutura, educação, ciência e tecnologia, turismo e mobilidade laboral. 

Na Cúpula do G20, a questão do terrorismo foi central, por seu caráter recente e urgente, porém as resoluções oriundas desta preocupação se limitaram em repudiar aos atentados. Pouco se avançou na estruturação de uma ação conjunta e multilateral pra combate-lo. Novamente não se discuti os órgãos de representação internacional que continuam pouco legítimos

Na COP 21, os Ministros de 195 países aprovaram o "Acordo de Paris", primeiro marco jurídico universal contra o aquecimento global. O documento terá caráter "legalmente vinculante", obrigará todas as nações signatárias a organizar estratégias para limitar o aumento médio da temperatura da Terra a 1,5ºC até 2100 e preverá US$ 100 bilhões por ano para projetos de adaptação dos efeitos do aquecimento a partir de 2020. Trata-se do mais amplo entendimento na área desde o Protocolo de Kyoto, assinado em 1997.

O RECRUDESCIMENTO DO TERROR


Franceses protestam contra o atentado cometido pelo Estado Islâmico em Paris
Vários foram os atentados perpetrados pelas organizações que se reivindicam de uma leitura fundamentalista do Corão (livro sagrado dos muçulmanos). Organizações como o Boko Haram que atua no oeste do continente africano, sobretudo na Nigéria; o Al-Shabaab, que atua na Somália, Etiópia e Quênia; a Al Qaeda e o Estado Islâmico (Síria e Iraque).

Dispostos a combaterem o imperialismo ocidental e "tudo que possa causar danos às suas crenças", estas organizações tem recrutado no mundo inteiro voluntários para as suas "jihads". Os governos ocidentais, liderado pelos EUA procuram combatê-los valendo-se igualmente da força militar, contudo os resultados tem sido ainda pouco animadores.


O AVANÇO DA "DIREITA"

Europa, América do Norte e América do Sul foram os lugares onde a direita avançou de maneira mais consistente em 2015. 

Europa: A extrema direita consolidou-se na Dinamarca, Áustria, Bélgica, Polônia, Hungria e Suíça. Mas foram nas principais economias e maiores colégios eleitorais que o seu avanço mais foi sentido, como Inglaterra, França e Alemanha. Nas eleições para o Parlamento Europeu em 2014, nas eleições para o parlamento do Reino Unido, o UKIP (UK Independence Party) ainda mais. Nas eleições regionais francesas o grande vencedor no primeiro turno foi a Frente Nacional de Marine Le Pen com 30 % dos votos, felizmente perdeu na segundo turno, contudo tornou-se uma alternativa concreta de governo. Na Alemanha a Alternativa para a Alemanha (AFD), liderada por Björn Höcke, conseguiu realizar as maiores manifestações. Nesta tem sido muito dura contra os refugiados estabelecidos na Alemanha e destilado um preconceito contra os muçulmanos muito perigoso. A AFD já tem a simpatia de 10% do eleitorado alemão e tudo indica que deverá crescer mais ainda. 

EUA: O candidato mais bem colocado nas primárias do Partido Republicano, Donald Trump, tem criticado asperamente a imigração, a "deslealdade chinesa no comércio" e estimulado o preconceito contra muçulmanos. Em 2016, a disputa com Hillary do Partido democrata deverá ser muito acirrada e tudo pode acontecer.

América do Sul: Argentina e Venezuela foram os locais onde a direita colheu os resultados mais significativos. Na Venezuela muitos candidatos direitistas abrigados no MUD  foram eleitos para o parlamento venezuelano. O governo de Nicolas Maduro (chavista) a partir de 2016 terá pela frente um parlamento com 2/3 de oposicionistas. Na Argentina Mauricio Macri derrotou Scioli (apoiado por Kirchner) e deverá adotar uma política mais sintonizada com os credores e investidores, cortando as políticas sociais do peronismo kirchnerista e adotando uma gestão neoliberal. 

Maurício Macri - Novo presidente da Argentina
No Brasil, as manifestações pelo impeachment contra Dilma Rousseff tiveram uma contração, mas ainda preocupam o governo. Nelas há uma parcela majoritária de lideranças e organizações defensoras da política neoliberal que foram derrotadas nas últimas eleições e uma parcela minoritária de ativistas que flertam com a ideia de um retorno ao regime militar no Brasil como único meio para a superação da crise no país.
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