16 de novembro de 2015

"FRANÇA ESTÁ EM GUERRA"

CIRES PEREIRA
François Hollande - Presidente da França
O Presidente François Hollande afirmou hoje no Congresso Nacional da França que a "França está em guerra", pois os atos terroristas da última sexta (13 de novembro) foram "atos de guerra que fizeram ao menos 129 mortos e muitos feridos." (...) "Constituem uma agressão contra os cidadãos, contra os nossos valores, contra nossa juventude, contra o nosso modo de vida" (...) "os jihadistas combatem a França, porque somos um país de liberdade, porque somos a pátria dos direitos do homem".

Os jihadistas do Estado Islâmico não atacaram a França porque ela é "a pátria dos direitos do homem", o fizeram em resposta ao envolvimento da França na ofensiva contra o califado protagonizada pelos EUA. Todos os países filiados à ONU tem que acatar a Carta dos Direitos Humanos que é um ordenamento jurídico internacional construído e firmado pelas nações. Definitivamente o discurso francês de que "França é a pátria dos direitos do homem" e o discurso estadunidense de que "os EUA são a pátria da liberdade" não ajudam em nada, pois sabemos que as realidades são diametralmente opostas. Mas esta é uma análise que pode ser feita em outro texto e outro momento.

Depois desta previsível e conveniente introdução, o Presidente Hollande pediu ao Congresso francês que autorize a ampliação do estado de urgência em três meses, anunciou que buscará apoio junto aos EUA e à Rússia e que os ataques contra o Estado Islâmico serão intensificados. O mandatário francês finalizou dizendo que "O Estado Islâmico não irá destruir a República, pois é a República que o destruirá." 

Tal como qualquer cidadão e governo minimamente comprometido com os "direitos humanos", defendo a reação legítima contra a tirania e o "Estado Islâmico" apregoa a tirania contra quaisquer opositores, incluindo a grande maioria pacífica dos mais de hum bilhão e duzentos milhões de muçulmanos. É preciso destruir as organizações defensoras desta tirania como por exemplos, o Estado Islâmico, o Boko Haram, o Al-Shabaab e a Al Qaeda.

Estado Islâmico
Discordo com veemência da estratégia que tem sido usada pelos EUA  e pela Rússia e agora a ser usada pelo Presidente François Hollande. Esta estratégia pode até destruir o Estado Islâmico, mas é a que causará o maior número de mortos, em sua maioria indefesos e inocentes na Síria, no Iraque, na Líbia, na França, nos EUA, na Rússia, enfim em todos os cantos do planeta. 
Neste momento caças franceses, americanos e russos alvejam o território do "Califado". Quantos inocentes morrerão nestas operações? Provavelmente um número igual ou superior aos 129 franceses covardemente mortos pelo EI.
Ressalto ainda que, mesmo destruindo o EI e outras organizações similares, outras aparecerão alimentando-se do ressentimento e do desejo de vingança. Há estrutura suficiente para destruir o EI e organizações similares e como o EI sabe disto, opta por promover atentados cirúrgicos. O objetivo é provoca os governos à estratégia mais conveniente ao EI, que é a estratégia em curso e, agora, ratificada pelo governo francês.

A destruição do mal começa pela destruição do que é a causa do mal e, convenhamos, o "Ocidente" precisa deixar de lado sua costumeira arrogância e deixar de se autoproclamar único defensor das liberdades e da democracia. É preciso uma nova ordem construída a partir de consensos mínimos sob a arbitragem de órgãos de representação multiculturais e multilaterais. Pra início de conversa o Conselho de Segurança das Nações Unidas precisa se reformular e se tornar de fato um órgão deliberativo isento e imparcial e não continuar sendo uma marionete nas mãos de ingleses, americanos, chineses, franceses e russos.

A destruição dos radicalismos passa pelo entendimento entre as forças moderadas, estas deveriam incumbir a ONU o protagonismo para congregar governos e organizações que se disponham a formatar um marco legal internacional, à luz da Carta dos Direitos Humanos das Nações Unidas. Em seguida caberia à ONU, em nome de todos, a criação de instituições executadoras das sanções definidas por este marco legal. Enganam-se aqueles que creem ser possível destruir o radicalismo preservando as motivações de seu surgimento ou na base do "olho por olho, dente por dente". A história já nos deu várias lições de que se trata de uma tática inócua.


Bashar Al-Assad - Presidente da Síria
Bashar Al-Assad e Estado Islâmico são duas ameaças aos direitos humanos elementares, precisam ser contidos e destruídos, mas não pela França "a pátria dos direitos humanos" ou pelos EUA "a pátria da liberdade e democracia". Este papel deve ser reservado à todos os governos congregados na ONU

Imediatamente, é necessário que uma força multinacional chancelada pela ONU invada e ocupe a Síria, dilacere o EI, derrube Bashar al-Assad e edifique um governo multinacional no País. Em outro flanco, é igualmente urgente que outra força multinacional, chancelada pela ONU, invada o norte da Nigéria e dilacerar o Boko Haram e restaure a ordem de direito na região.

O mundo pode ser melhor mas é preciso que o mundo saiba escolher melhor seus mandatários e nada melhor do que aprender com os erros dos que foram até agora escolhidos e escolher outros que minimamente traduzem as demandas por um mundo mais tolerante e menos desigual, pelo menos.
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