12 de outubro de 2015

REFORMA PROTESTANTE E CONTRARREFORMA

CIRES PEREIRA

INTRODUÇÃO


No início da Época Moderna críticas à Igreja católica eram frequentes e cada vez mais intensas. Mesmo reprimindo, a Igreja não mais conseguia conter os seus críticos. E o resultado não poderia ser outro: o fim da unidade entre os cristãos ocidentais. As Igrejas cristãs que se constituíram, a partir destas críticas, denominadas protestantes ou reformadas, tinham em comum a não aceitação da autoridade papal.

RAZÕES
É preciso considerar o que se passa "fora dos portões da Igreja" para compreendermos a repercussão e a extensão dos problemas que surgiam em meio a outros problemas insolúveis dentro da instituição Igreja Católica. Assim são duas as grandes razões que levaram à Reforma Protestante.

1 - Conjuntura ou contexto histórico hostil à Igreja Católica

Plano econômico: a afirmação de uma economia de mercado graças à revolução comercial (decorrente do expansionismo marítimo) e à política mercantilismo deram início à transição feudo-capitalista. 

Plano político: a consolidação das autoridades em escala nacional em detrimento das autoridades ocais rurais e urbanas com a consolidação das monarquias absolutistas diminuíam a influência da autoridades eclesiásticas, sobretudo da autoridade supranacional do Papa. 

Plano Social: a afirmação da classe burguesa facilitada pela nova realidade econômica e o aumento da população, sobretudo nas cidades possibilitavam um processo de questionamentos cujas respostas dadas pela Igreja já não eram mais convincentes. Vale lembrar o crescente interesse pelos bens da Igreja Católica, especialmente as terras.

Plano Cultural: o avanço das críticas feitas pelos humanistas e pelos renascentistas fazendo surgir novas concepções sobre Deus, sobre a natureza e sobre o ser humano mais adequadas ao contexto e à nova ética urbana, individualista e competitiva.

2 - A crise católica

Este cenário externo agravou a crise dentro da Igreja Católica, encorajando assim os seus críticos. As principais evidências desta crise foram: o despreparo da maioria dos clérigos, o desgaste da posição doutrinal católica conhecida como escolástica e os abusos de uma parte dos clérigos que, comumente, ficavam impunes tais como venda de relíquias sagradas (simonia), comercialização dos cargos eclesiásticos e a venda de indulgências (perdão dos pecados).


A) LUTERANISMO

Martinho Lutero era um monge da ordem agostiniana na região da Saxônia localizada no Sacro Império Romano-Germânico (atuais Alemanha e Áustria). Em 1517 Lutero afixou um documento intitulado "95 Teses" na porta da  igreja de Wittenberg. Mesmo sob pressão da Igreja liderada pelo Papa Leão X, Lutero manteve-se firme, chegando a queimar em público a bula papal de sua excomunhão.

Lutero denunciou estas práticas abusivas do clero católico e expôs suas ideias visando reformular a Igreja, mesmo cético quanto à possibilidade da Igreja acolhê-las. Amparado pelo Príncipe da Saxônia, Frederico, Lutero passou a sistematizar estas ideias ou teses para tornar-las fundamentos da Igreja Luterana:

  1. A salvação depende somente da fé
  2. Livre exame da Bíblia (única fonte de fé)
  3. Supressão ou fim da Hierarquia eclesiástica
  4. Fim do princípio da infalibilidade papal
  5. Cultos no idioma nacional
  6. Fim do culto aos santos, às imagens e à “virgem Maria”
  7. Fim do celibato clerical
  8. Fim da maior parte dos sacramentos, mantendo-se apenas dois: Batismo e Eucaristia.

Expansão do Luteranismo no Sacro Império e na Escandinávia

Estas divergências no plano doutrinal acirraram ainda mais uma disputa político-territorial entre os nobres e príncipes de algumas regiões do Sacro Império que não aceitavam a autoridade do Imperador Carlos V da família dos Habsburgos. Os Habsburgos comandavam ainda a Espanha, os Países Baixos e parte do leste europeu. Carlos V tinha o apoio da Igreja e, em 1529, instalou uma Dieta (Parlamento) para exigir o alinhamento dos nobres e príncipes ao catolicismo. A reação destes nobres e príncipes convertidos ao luteranismo (protestantes), foi imediata com a formação de uma liga militar, conhecida como Liga do Samalkalde, em 1531. A guerra chegou ao fim somente em 1555 (nove anos depois da morte de Lutero) com a assinatura da Paz de Augsburg que assegurava aos príncipes o direito de impor sua religião no território sob sua autoridade: “cuius regio, eius religio” ou "Tal príncipe, sua religião".

Escandinávia: Os monarcas escandinavos (Gustavo Vasa da Suécia e Frederico I da Dinamarca-Noruega-Islândia-Groenlândia) confiscaram as terras da Igreja e aderiram às ideias luteranas por volta no início da década de 1530.


B) ANABATISMO


O Anabatismo inspirou-se nas ideias de Martinho Lutero. Esta denominação se deve à tese do Batismo Consciente, isto é os batizados dos anabatistas acontecem quando se inicia a idade adulta, escolhendo conscientemente se entregar à religião cristã. Dentre os pregadores anabatistas, destacou-se a liderança de Thomas Müntzer.

As condições de vida, de dificuldades materiais e de subordinação hierárquica social, que fundamentavam a exploração do trabalho dessas pessoas, levaram os anabatistas a encontrarem na religião uma expressão de sua discordância à situação social na qual estavam inseridos. Apesar de apresentar tendências diversas, algumas pacifistas, outras revolucionárias, havia em comum a necessidade de rebatizar os indivíduos, além de defenderem a separação entre Estado e igreja, de extinguir o culto de imagens e pregarem uma vida de simplicidade, criando relações sociais em que houvesse uma igualdade entre todos.

Dessa forma, os anabatistas ao fazerem uma leitura "progressista" da Bíblia, se viam como explorados pelas classes superiores e propunham formas de organização sociais distintas, pautadas numa igualdade inspirada na interpretação cristã da igualdade entre todos os homens. 

O anabatismo se espalhou em várias partes do mundo, iniciando em regiões da atual Alemanha e Suíça e, mais tarde no leste europeu. Nos Estados Unidos, no século XIX, os anabatistas eram conhecidos como menonitas.


A revolta camponesa de 1524 na Alemanha 

O início do movimento foi dado pelo próprio Martinho Lutero quando se opôs ao poder de algumas autoridades. Instigados por Lutero, cerca de 300 mil camponeses pegaram em armas contra seus senhores, estendendo a revolta para mais de um terço da Alemanha. O objetivo era romper a estrutura social feudal, principalmente através do confisco de terras da nobreza. 

Um dos doze artigos do manifesto dos revoltosos mostra o que eles queriam:
“Art. 5º: temos de nos queixar, também, a respeito dos bosques. Pois nossos senhores reservaram apenas para si a floresta, e quando um pobre necessita de madeira, deve comprá-la pelo dobro de seu valor. Eis portanto nossa intenção a respeito dos bosques. Os senhores eclesiásticos e leigos devem novamente deixar às comunidades as florestas que elas não conseguem adquirir a dinheiro e permitir às comunas a liberdade de exploração”. 
A reação a esta revolta, liderada por Thomas Müntzer foi extremamente violenta por parte da nobreza. Lutero, que havia inspirado os camponeses, recuou e se colocou contra a revolta, deixando clara a sua postura conservadora que remonta à Idade Média e à própria posição da cúpula católica: 
“Temos que despedaçá-los, degolá-los e apunhalá-los em segredo e em público: e que os matem todos os que possam matá-los, como se mata um cão furioso (...). Por isso, caros senhores, ouvi-me e matais, degolai sem piedade, e, se morrerdes, como seríeis ditosos – pois jamais poderíeis ter morte mais feliz”
 Lutero "Contras as hordas assassinas dos camponeses, 1524 
C) CALVINISMO

Suíça, após sua separação frente ao Império Romano-Germânico, em 1499, passou a ter contato com o luteranismo através das pregações do padre Ulrich Zwinglio. Várias revoltas foram deflagradas contra as bases do poder vigente, essencialmente católicas. A prática do zwinglianismo preparou terreno para a doutrina apresentada por um francês que se estabelecera em Genebra desde 1536. Perseguido na França pelos católicos João Calvino pretendia difundir uma compreensão de fé diferente da levantada pelo Lutero.

Segundo Calvino, o princípio da predestinação absoluta seria o responsável por explicar o destino dos homens na Terra. Tal princípio defendia a idéia de que, segundo a vontade de Deus, alguns escolhidos teriam direito à salvação eterna. Os sinais do favor de Deus estariam ligados a condução de uma vida materialmente próspera, ocupada pelo trabalho e afastada das ostentações materiais. O "agraciado" não se deixaria levar pelos prazeres cotidianos, pelos vícios e agiria sempre dentro da legislação, portanto teria uma conduta ascética ou puritana.

Abaixo um trecho da obra "Instituição da Religião Cristã" de Calvino, publicada em 1536:
Afirmamos pois (como a Escritura evidentemente o mos¬tra) que Deus constituiu em seu eterno e imutável desejo aqueles que Ele quis que fossem salvos e aqueles que desejou fossem condenados. 
Este desejo está fundado sobre a gratuita misericórdia divina, sem ter nenhuma relação com a dignidade do homem; ao contrário, o portão da vida eterna está fechado a todos aqueles que Ele quis entregar à condenação, e isso se faz por seu secreto e incompreensível juízo, o qual é justo e irrepreensível.
De acordo com alguns estudiosos, como o sociólogo Max Weber, o elogio feito ao trabalho e à economia fizeram com que grande parte da burguesia européia simpatizasse com a doutrina calvinista.

O calvinismo passou a ter denominações diferentes na Europa: na Escócia, os calvinistas eram denominados presbiterianos; na França, huguenotes; e na Inglaterra, puritanos.

D) ANGLICANISMO

Henrique VIII (1509-1547) comandava o Reino Unido e era, até 1534, um "grande defensor da fé católica" (título concedido ao regente por ter-se alinhado com o Papa por ocasião do embate com os luteranos). A ruptura com a Igreja foi motivada pela negativa do Papa Clemente VII em anular o seu matrimônio com Catarina de Aragão de uma família que comandava a Espanha. Com Catarina, Henrique teve cinco filhos, mas somente Maria sobreviveu, como Henrique pretendia ter um filho pra sucedê-lo, pediu que a Igreja lhe desse a concessão para divorciar-se e casar-se com Ana Bolena.

Em 1534, o parlamento inglês aprovou o Ato de Supremacia que anunciava uma nova Igreja - a Anglicana.
“O Rei é o chefe supremo da Igreja da Inglaterra […]. Nesta qualidade, o Rei tem todo poder de examinar, reprimir, corrigir tais erros, heresias, abusos, ofensas e irregularidades que sejam ou possam ser reformadas legalmente por autoridade espiritual, a fim de conservar a paz, a unidade e a tranqüilidade do Reino, não obstante todos os usos, costumes e leis estrangeiras, toda autoridade estrangeira…” 
 Ato de Supremacia, 1534
A Igreja Anglicana conservou, pelo Ato dos Seis Artigos, a estrutura e os dogmas da Igreja Católica, excetuando o princípio da autoridade papal, com poucos reparos. O idioma inglês passou a ser o usado nas cerimônias e o rei como um chefe da Instituição. Elizabeth I (1558-1603), filha de Henrique VIII e Ana Bolena consolidou o Anglicanismo como a religião oficial do Estado Inglês.

Dentre os desdobramentos mais importantes, vale destacar a consolidação da autoridade do monarca sobre os seus súditos de "maneira absoluta" e o crescimento da economia propiciado graças ao avanço de uma economia de mercado nas terras "cercadas" pelo Estado (terras que pertenciam à Igreja, mas que foram confiscadas pelo Estado que as repassou aos vassalos do rei - a nobreza) e ao crescimento da confiança da burguesia num Estado agora chefiado por quem não mais se curva à autoridade do Papa.

A CONTRARREFORMA


Sabemos que, desde a Baixa Idade Média, a Igreja Católica, tanto no que se refere à sua estrutura institucional quanto ao seu conjunto de dogmas, enfrentou críticas e discussões, comumente feitas pelas "heresias". No início do século XVI, estas críticas chegaram ao seu estágio mais avançado provocando a cisão no seio da Cristandade Ocidental. A reação católica ficou conhecida sob o nome de Contrarreforma.

A Contrarreforma ou Reforma Católica tinha por objetivos reorganizar a instituição, conter o avanço dos infiéis, sobretudo dos infiéis protestantes e conquistar novos adeptos que pudesse em parte compensar as perdas causadas pelo protestantismo ou reformismo cristão.

A cúpula da Igreja Católica convocou o Concílio de Trento, que se realizou entre as décadas de 1545 e 1563. Um concílio consiste na reunião dos membros da Igreja para decidir sobre questões referentes às bases que sustentam a fé católica. Este Concílio reafirmou os principais dogmas católicos e manteve a missa (rezada em latim) como sendo o rito do sacrifício de Cristo para a salvação dos homens e remissão dos pecados, instituiu a obrigatoriedade da formação sacerdotal com a criação dos "seminários". Também neste Concílio foi autorizado o funcionamento de uma nova ordem católica fundada na Espanha por Inácio de Loyola, a Cia de Jesus que passou a realizar dois importantes trabalhos: a reconversão de infiéis na Europa e a catequização de nativos nas áreas colonizadas pelos católicos no "Novo Mundo".

A Igreja determinou a criação do INDEX, desde 1564, de uma lista de obras tidas como prejudiciais à imagem da Instituição, pois continham posturas contrárias e estimulavam condutas heréticas e reativou, desde 1542, os Tribunais do Santo ofício, também conhecidos como Tribunais da Santa Inquisição.

A Contrarreforma não pode destruir o protestantismo que já havia sido disseminado e convertido muitas pessoas, dentre as quais homens poderosos, ricos e influentes, contudo impediu que houvesse perdas ainda maiores. A intolerância religiosa e os conflitos decorrentes desta intolerância tornaram-se muito frequentes até que a Europa Ocidental e a América pudessem passar por transformações políticas instituindo a laicidade dos Estados e a liberdade de cultos religiosos, transformações que somente viriam no final do século XVII em diante. Mas este é um tema pra outros textos...
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