A PRIMAVERA ÁRABE E O QUADRO GERAL NO MUNDO ÁRABE

CIRES PEREIRA


INTRODUÇÃO

O liberalismo político, principal proposição do movimento setecentista europeu, constituiu-se no mais importante objetivo dos movimentos que na Europa Ocidental e continente americano que se levantaram contra o absolutismo-monárquico e o colonialismo, respectivamente. As sociedades humanas nestas regiões desde então passaram a lutar pra que fosse assegurado vários direitos, dentre os quais o direito de livre organização e expressão política, religiosa, etc. 
O Estado laico, portanto, se tornou ingrediente obrigatório na agenda liberal e democrática. Ele permite e preserva os direitos das pessoas escolherem uma profissão de fé bem como daquelas que optam por não terem uma designação religiosa.  Um nação laica separa a religião da política, reconhece a existência de diversas confissões religiosas e garante, às mesmas, a liberdade de culto e organização. 

Ainda nos dias atuais é grande o número de nações que se encontram prisioneiras do arbítrio político, e do arbítrio religioso. No seio das nações de maioria muçulmana, lamentavelmente, a democracia e o laicismo são ainda exceções. Os países localizados nas porções central e norte do continente africano, no Oriente Próximo e no sul da Ásia, excetuando a populosa Índia, são de maioria muçulmana.

Às sociedades humanas cabe preservar ou suplantar os seus regimes ditatoriais ou arbitrários, em alguns lugares onde parcelas expressivas desta sociedade se levantaram pela liberdade e democracia verificou-se o apoiamento dos governos ditos democráticos e liberais. Contudo, este apoiamento sempre esteve condicionado às conveniências geopolíticas e econômicas destes governos. De modo que há um insistente paradoxo no mundo atual - a democracia e a liberdade deixaram de ser os objetivos  para alguns governos que se reivindicam democráticos e liberais.


A PRIMAVERA ÁRABE

Até o início da "Primavera Árabe"os governos ditos democráticos das principais economia do mundo apoiavam descaradamente os regimes autoritários, uns laicos outros religiosos, nos países de maioria muçulmana. O Egito de Mubarak ora foi apoiado pela URSS, ora pelos EUA, a Arábia Saudita da família Saudi, jamais perdeu o entusiasmada amparo dos EUA, o Irã da "Era Pahlevi" sempre contou com o apoio dos EUA e, da "Era Teocrática" tem tido o apoio da URSS/Rússia. Este apoio continua, contudo não tem sido esparsos os encontros entre ditadores e os principais governos ocidentais para que uma agenda política mais flexível e reformas sociais e econômicas sejam consideradas para que se evitem outras "primaveras".

A "Primavera Árabe" teve início em 2010 na Tunísia, no norte da África, quando um jovem, revoltado com a sua situação financeira, ateou fogo em seu  corpo, como forma de protesto. Os protestos se espalharam pelo país fazendo com que, dez dias depois, o presidente Zeni El Abdine Ben Ali fosse destituído, no governo desde 1987.  As precárias condições de vida da maioria da população aliadas à falta de liberdade provocaram esta mudança. Em seguida, os egípcios foram às ruas, contra a ditadura do presidente Hosni Mubarak que governou o país por mais de 30 anos. As manifestações mais expressivas ocorreram na Praça Tahrir ou Praça da Libertação, no Cairo. Mubarak renunciou ao poder 18 dias após o início das manifestações. Em ambos os países, protestos foram marcados por intensa violência, empreendida tanto pelo povo nas ruas quanto pelas forças aliadas aos presidentes.

Na Tunísia e no Egito os cidadãos foram às urnas para escolherem novos governos, na Tunísia o Partido Enna Hda (islâmico, porém mais moderado) foi o grande vitorioso. Na Tunísia o quadro ainda não é de estabilidade. No Egito, a Irmandade Muçulmana foi a grande vencedora das eleições. Com forte relação com a religião islâmica, defende leis severas, baseadas na religião, que limitam a conduta humana. O governo de Mohamed Morsi, apoiado pela Irmandade Muçulmana, acabou sendo também deposto pelos militares que, em 2013 organizaram novas eleições vencidas pelo moderado Abdel Fattah el-Sisi, contudo a violência continua envolvendo os governistas e a Irmandade.

A Líbia também fez parte da Primavera Árabe. Muamar Kadaffi, presidente por 42 anos, foi derrubado do poder após uma longa guerra civil que durou oito meses. A tática dos rebeldes foi avançar lentamente em direção às cidades dominadas por Kadaffi, como Trípole, por exemplo. Em Sirte, cidade natal do presidente, os rebeldes capturaram o presidente, escondido dentro de um canal de esgoto. Após sua captura, Kadaffi foi torturado e morto pelos rebeldes.

O Iêmen foi o último país a derrubar o seu presidente. Ali Abdulhah Saleh foi alvo de um ataque contra a mesquita do palácio presidencial, em Sanaa. Com receio de ser assassinado, assinou um acordo para deixar o poder logo após o ocorrido. Em seguida o vice presidente Abd Rabbuh Mansur Al Radi assumiu o poder e anunciou um governo de conciliação nacional. 

Outros países também foram palcos desta "Primavera, contudo as estruturas típicas de um regime arbitrário não foram modificadas. São sãos casos do Marrocos, Argélia, Jordânia, Cisjordânia, Iraque, Irã, Kuwait, Bahrein, Arábia Saudita, Omã e Síria.

Na Síria o sucessor de Hafez al-Assad e seu filho, Bashar al-assad, se nega a deixar o poder e uma guerra civil, que perdura mais de quatro anos. Esta guerra já fez mais de 200 mil mortos e mais de 3,8 milhões de refugiados, a metade deles crianças, divididos em vários países como Turquia (mais de 1,7 milhões), Líbano (1,2 milhões), Jordânia (622 mil), Curdistão iraquiano (250 mil) e Egito (136 mil). Os deslocados na Síria passam de 7,5 milhões. Com o agravamento da guerra civil, surgiu e se espalhou o movimento em favor de um Estado teocrático islâmico na Síria e nos vizinhos (Iraque e Turquia) - o ISIS ou Estado Islâmico.

Os desfechos desta "primavera árabe, não tem sido aqueles desejados pela União Europeia e pelos EUA, pois o fundamentalismo islâmico tem sido muito exitoso em se aproveitar destas mobilizações para arregimentar mais adeptos. As potências ocidentais sempre contaram com a colaboração das ditaduras laicas para conterem os avanços dos movimentos populares liderados por marxistas e nacionalistas mais radicais durante a guerra fria. Estes ex-ditadores: Saddam, Muammar al-Gaddafi, Saleh e Ali, foram alguns dos principais governos apoiados e auxiliados pelos EUA e governos europeus, ainda que tenham alguns deixado de ser aliados dos EUA nos anos 90 em diante como Gaddafi e Hussein. Sem estes ditadores, o presente e o futuro nestas regiões ainda são uma incógnita para o "Ocidente". 

O mapa abaixo nos dá uma ideia da extensão da "Primavera Árabe":


Alguns destes governos, desde o final da "guerra fria", continuam unidos ao "Ocidente" na sua pretensão em conter o avanço do terrorismo originário de uma leitura ortodoxa do Corão (jihadismo) ou do anti-imperialismo radical. Na Síria, por exemplo, a manutenção do ditador laico Bashar al-assad é preferível, pois teme-se que sua queda possa levar o Estado Islâmico a se espalhar e se consolidar em todo o território sírio. A Síria se juntaria ao Irã como Estados Teocráticos alimentadores do terrorismo anti-Ocidental e jihadista, ainda que não sejam aliados devido às dissensões históricas entre o sunitas e xiitas*.
*Os sunitas são majoritários em todos os países de maioria muçulmana, com exceção do Irã e do Iraque de maiorias xiitas. Os sunitas são aderentes à "Suna", livro que narra a vida do Profeta Maomé. Os xiitas crêem que a adoção de princípios rígidos na vida garantiria o retorno do último descendente direto de Maomé para governar a humanidade. 
Esta rivalidade remonta da disputa sucessória após a morte de Maomé (632 d.C.). Os sunitas admitem somente a ascensão de líderes religiosos escolhidos pela população islâmica. Os xiitas, mais tradicionais, defendem que apenas os descendentes do profeta Maomé podem ser líderes legítimos do islamismo.

SUDÃO DO NORTE (UM CASO À PARTE)

A primavera árabe surtiu pouco efeito no Sudão. O governo sudanês é conduzido por Omar al-Bashir desde 1989 quando liderou um golpe de estado militar. Omar al-Bashir, no início dos anos 90, passou a fazer parte de uma aliança com a Líbia de Muammar al-Gaddafi e o Iraque de Sadam Hussein, ambos rompidos com os EUA. Bashir apoiou o Iraque  na invasão do Kuwait em 1990. O Irã também passou a fazer parte desta aliança. O governo iraniano sempre financiava o regime de Bashir. Com o ocidente e os países do noroeste africano – também conhecido como Magreb - as relações sempre foram marcadas por embates.Vários governos acusavam al-Bashir de desenvolver no Sudão um centro internacional do fundamentalismo islâmico, fazendo com que os EUA pusessem o país na lista negra de Estados suspeitos de fomentar o terrorismo internacional. 

Bashir deu guarida para Osama Bin Laden até 1996, após ter se evadido da Arábia Saudita cuja monarquia o tinha como inimigo número 1. Com o governo dos Talibãs (uma teocracia sunita no Afeganistão) a Al Qaeda transferiu suas principais operações do Sudão para o Afeganistão. Cinco anos mais tarde, Osama Bin Laden tornou-se o alvo número um dos EUA ao assumir os atentados nos EUA em 11 de setembro de 2001. 

Bashir, apesar de sentenciado por tribunal internacional por crimes cometidos contra a humanidade, continua no governo sudanês e parece não desejar deixá-lo, pelo menos é o que depreende das ultimas eleições ocorridas em abril deste ano. Bashir foi reeleito no Sudão do Norte (o sul se separou do Sudão em 2013) com 94,5% dos votos numa eleição disputada com outros 13 candidatos,boicotada pela oposição mais expressiva (compareceram menos de 50 % dos eleitores)  e não reconhecida pelo Ocidente.
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