O ACASO

Cires Pereira




Não é por acaso minha contestação ao dito popular "nada acontece por acaso", afinal de contas iniciei este texto por acaso. 

Nos esmeramos por prescindir do acaso mesmo que precisemos dele.

Nos valemos do acaso para consertar o que estragamos. Limpar o que maculamos mesmo que, de quando em vez, ele suje o que asseamos.

Ora endireita o que entortamos, ora entorta o que endireitamos.

O acaso torna inútil o que nos parece imprescindível e torna útil o que, até então, tínhamos como dispensável.

Sentimo-nos aliviados quando o acaso esconde o que erramos ou evidencia o que acertamos.

Sentimo-nos indignados quanto o acaso esconde o que acertamos e evidencia o que erramos.

Mesmo à revelia dos dissimulados, o acaso pode ampliar a distancia entre a intenção e o gesto deles.

O acaso é, portanto, a "prova dos nove".

O acaso é a evidência das limitações humanas.

Os "pequenos", mesmo relutantes, teimam em continuar reféns de suas ações que são "grandes" na percepção somente deles.

O acaso é um dos nossos melhores exame de consciência, pois sempre nos surpreendem. É imperativo que admitamos o quão, por acaso, surpreendentes somos e o quão previsíveis, quase sempre somos. Quem sabe um primeiro passo para, em todos os sentidos, crescermos.

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