16 de agosto de 2015

EUA 2 - A CRISE DE 1929 E O NEW DEAL

CIRES PEREIRA
FDR Franklin Delano Roosevelt (Democrata)
OS EUA E O "AMERICAN WAY OF LIFE"


A "Grande Guerra (como era denominada à época a 1ª Guerra Mundial), deflagrada no verão de 1914, acentuou a dependência das economias europeias em relação à economia dos EUA. Ao longo deste conflito, a corrente de comércio entre os mercados americanos e europeus aumentou substancialmente e, mais ainda superavit destas transações para os EUA. Ao final do conflito os governantes e as empresas europeias passaram a tomar emprestados os recursos financeiros excedentes nos EUA para se reconstruírem e se reorganizarem. Em grande parte contratados junto aos bancos privados dos EUA, tinham o aval do governo norte-americano.

O que era uma tendência no final do século XIX tornou-se, desde esta guerra, uma realidade: a relação estreita entre o crescimento econômico dos EUA e as crises, guerras ou até revoluções pelo mundo todo. O fato de a economia americana ter crescido tardiamente em relação às economias industriais europeias e num momento em que estas passavam por uma situação de retração nas décadas de 1870. 1880 e 1890, possibilitou aos EUA um crescimento acima das previsões mais otimistas.

Não era raro encontrar nos meios empresariais, políticos, culturais e sindicais uma euforia desmedida, conhecida como "american way of life" amparada pela falsa ideia de que o modelo econômico nos EUA era diferente (e melhor) do modelo europeu. Ora, as teses "smithianas e ricardianas" (liberais) embalavam os dois lados do Atlântico, com variações pequenas que não conspiravam contra o conteúdo principal do liberalismo - a não interferência governamental na concepção e aplicação, pelas empresas privadas, de suas margens de lucros que definiam, em última instância, os salários e quantidade de trabalhadores.

Vale ressaltar a providencial participação dos dólares americanos nesta reconstrução. Alguns poderiam questionar: porque os EUA auxiliariam a reconstrução da Europa? Por quatro razões importantes: a) os lucros destas operações de créditos; b) a necessidade de restabelecer as demandas que implicam em realizações de lucros; c) pra conter o avanço das esquerdas na Europa estimuladas pela nova situação instituída na Rússia soviética e bolchevista e d) ampliar a influência dos EUA na região.

Acesse este link e leia o texto sobre os EUA até 1929: http://www.escritaglobal.com.br/2014/04/eua-1-o-nascimento-e-afirmacao-de-um_19.html 

A CRISE OU O CICLO INFERNAL


Esta euforia desmedida foi suplantada por uma recorrente apreensão destes mesmos atores, desde 1925, ano em que as exportações de bens americanos para a Europa começaram a refluir, repercutindo a conclusão da reconstrução europeia, semi destruída pela guerra. Todavia os investidores acreditavam que a redução das vendas e o aumento dos estoques fossem passageiros, logo não lhes pareciam ser muito arriscado continuar seus investimentos. A procura por ações de empresas privadas de capital aberto e títulos da dívida pública na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) passou a ser cada vez maior do que as suas ofertas provocando uma valorização fictícia ou uma "Bolha especulativa". Até agosto de 1929, a realidade das empresas com seus estoques crescentes diante da redução das vendas não condizia com os valores de suas ações negociadas.




No momento em que a apreensão (preocupação) passou a ser maior do que a esperança, o desespero tomou conta dos compradores que se viram então forçados a serem vendedores de ações, o resultado não poderia ser outro, o Crack ou quebra no dia 29 de outubro de 1929 na NYSE.

A renda total da massa trabalhadora nestes anos caiu pela metade, o número de desempregados passou de dois milhões para 14 milhões, a produção de aço encolheu 80 %, as exportações refluíram em 2/3 e as importações em 3/4. O número de falências não parava de aumentar, somente no setor financeiro mais de quatro mil empresas cerraram suas portas e o meio rural amargava uma severa retração nas vendas. O ambiente era de desolação, pânico e indignação, criando uma possibilidade de convulsão social, o empresariado passou a temer o avanço das esquerdas também nos EUA.

Fila do pão em 1933
Muitos países dependentes do sistema de crédito americano sofreram uma grande recessão em suas economias. Dólares americanos que irrigavam a economia europeia começam a ser repatriados aos EUA. No Brasil foi preciso queimar o café, principal produto da época, para deter sua desvalorização. A crise era internacional.

NEW DEAL: O ENFRENTAMENTO DA CRISE

Os estadunidenses optaram no final de 1932 pela "alternativa democrata" para fazer frente ao quadro de severa crise sócio-econômica e de instabilidade política. Franklin Delano Roosevelt elegeu-se como o 32º Presidente dos EUA derrotando o então Presidente, o republicano Herbert Hoover, candidato à reeleição. Roosevelt, ao final de doze anos e quatro meses de governo (teria ficado dezesseis anos se não tivesse falecido), reergueu a economia, restabeleceu a "normalidade democrática". Liderou a aliança internacional vencedora da 2ª Guerra Mundial contra o "Eixo nazi-fascista" Roma-Berlim-Tóquio e colocou os EUA na condição de maior protagonista do bloco capitalista internacional.
"Permitam-me afirmar, declara em seu discurso de posse, que só temos uma coisa a temer: o próprio temor, o medo sem nome, irracional e sem justificativas. (...) Não fomos assolados pela invasão de alguma peste. (...) A abundância está na nossa porta".
FDR - Discurso Inaugural - Março 1933 
Estas passagens do discurso inaugural do Presidente Roosevelt, exprimiam muita confiança e convincente para muitas pessoas, até mesmo o empresariado que, à época, encontrava-se muito cético diante de um governo "democrata" pra debelar a crise. FDR enfrentou a crise valendo-de de um conjunto de políticas sociais e econômicas, denominado "New Deal" ou Novo Acordo, contou com o apoio do Congresso Americano (Senado da República e Câmara dos Representantes) para que aprovasse as leis que dessem respaldo jurídico ao seu programa. Dentre os programas do New Deal, destacam-se o Emergency Banking Act, o National Recovery Administration, o Social Security Act, o Agricultural Adjustment Act (AAA), o Civil Works Administration (CWA) e o National Industrial Recovery Act (NIRA).

Eleanor Roosevelt - Primeira-dama acompanha a execução do New Deal
Todos estes programas foram concebidos e sugeridos pelos "Brain Trust", que era um grupo formado para auxiliar Roosevelt durante a campanha presidencial de 1932. Era constituído por juristas, administradores, economistas e especialistas em diversas áreas sociais.

Elaborado pelo Brain Trust, o "New Deal" tinha como matriz doutrinal a principal tese do economista britânico John Maynard Keynes (1883-1943). Keynes propunha a intervenção do Estado na economia pra debelar crises e, sobretudo, salvar o sistema capitalista, tido como o sistema mais eficiente que a humanidade pode conceber. Defendia uma combinação entre o "altruísmo social", a cargo do Estado e o desejo de ganhos da iniciativa privada visando aperfeiçoar o sistema capitalista. Pregava a providencial intervenção do Estado que pudesse restabelecer o equilíbrio entre as demandas retraídas e as ofertas de bens e de serviços recrudescidas. 

Todas as medidas e programas integrantes do New Deal dependiam de recursos que o governo dos EUA não tinha, por isso foi preciso aumentar o controle sobre as empresas para coibir a sonegação de impostos. O congresso americano, com o apoio de Roosevelt, revogou a lei seca promulgada em 1919 para ampliar as receitas públicas, pois as proibições de produção, comercialização e consumo de bebidas alcoólicas só beneficiavam o crime organizado ou o gangsterismo. 

Os recursos públicos arrecadados não foram suficientes, por isso o governo ampliou a emissão de títulos públicos para capitar recursos junto à iniciativa privada, elevando a dívida pública americana.

PRINCIPAIS MEDIDAS
  1. Aumento dos investimentos públicos em obras públicas: como hospitais, escolas, aeroportos, hidroelétricas, barragens e portos, visando geração de empregos que pudessem absorver parte da mão-de-obra ociosa. 
  2. Reforma no setor financeiro ampliando o controle e a regulamentação estatais sobre o mercado financeiro pra evitar fraudes e reduzir os riscos das operações no mercado de capitais. 
  3. Controle de preços pra conter a inflação e melhorar a capacidade de compra dos salários. 
  4. Incentivos agrícolas através de subsídios e empréstimos a juros menores 
  5. Medidas de cunho social com a criação da Previdência Social, do seguro-desemprego e de um bônus para idosos acima de 65 anos. Redução da Jornada de trabalho (8 horas por dia) visando aumentar o número de empregados e reduzir o desemprego. 
  6. Manutenção das bases sustentadoras da democracia liberal americano como o calendário eleitoral, o direito de greve, a autonomia dos sindicatos e a liberdade de imprensa. 
  7. Desvalorização da moeda nacional e adoção de uma forte política protecionista visando estimular as exportações.

CONCLUSÃO

Com o New Deal, Roosevelt conseguiu restabelecer o equilíbrio entre a demanda e a oferta nos EUA, consolidando um novo modelo de gestão pública e econômico, o keynesiano. Um modelo que prevê ampliação dos recursos públicos para distribuí-los de forma menos desigual objetivando mitigar as desigualdades profundas deixadas pelo modelo liberal clássico. O alcance do New Deal, ainda assim não foi suficiente para reverter toda a crise econômica e social dos EUA. 

O crescimento dos investimentos públicos e privados em armas e a ampliação dos recrutas para as forças armadas constituíram-se em medidas complementares providenciais por um lado. Contudo, por outro lado, aumentou a influência dos setores militares sobre as decisões governamentais em detrimento da diplomacia de Estado.

FDR e Churchill no Marrocos em 1943
Como este foi um fenômeno mundial, uma nova guerra provocada pelas disputas por mercados e por territórios tornava-se cada vez mais iminente. A polarização da disputa no mundo capitalista em dois blocos ideologicamente opostos: democrático-liberal e fascista levou à segunda guerra mundial. O protagonismo dos EUA (econômico, militar, diplomático) neste conflito e a vitória sobre o eixo fascista liderado pelo III Reich de Adolf Hitler levaram os EUA a consolidarem seu hegemonismo após o conflito. Nesta nova ordem, denominada "Guerra Fria" que se erigiu, os EUA passaram a rivalizar com a URSS, pois ambos desejavam o hegemonismo sobre o mundo.
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