AO MEU ESTIMADO AMIGO JOÃO (DE MINAS) BRUNO

Cires Pereira*


Não foram raras as vezes que nos alertava de que um dia recolheria suas tralhas e, como um grande guerreiro que jamais se furtou ao “bom combate”, voltaria para suas origens. Seu destino é, agora, a beira do mar da Bahia donde os rios de Minas também desaguam. Apesar de Minas não ser lambida pelo mar, ela empresta um pouco do doce das suas águas pra tornar o mar que vem de Lisboa menos salmoura.
Minas sempre com suas artérias adoça o mar e, de quando em vez, permite que seus filhos se banhem nele por um tempo. Saiba camarada João de Minas, que Minas, como uma boa mãe, empresta (jamais dá) os seus filhos. Minas sempre te quererá como um bom e grande filho.  
Hoje a beira do Mar, mas nunca se esqueça das curvas dos rios dos interstícios “minasbahiano”. As curvas dos rios sempre choram a sua ausência desde a juventude e, agora que estará mais perto delas, passe sempre por lá e sempre diga que um até breve. 
Por muitas primaveras esteve neste outro e longínquo canto de Minas entremeado pelos rios Grande, Paranaíba e das “Velhas”, cá plantou e cultivou muitos frutos e flores. Suas lições de vida, de história, de cultura e, acima de tudo, de amizade renderam-lhe uma multidão de fãs, eu inclusive. Sentiremos muita sua ausência, ainda que regozijemos com a sua presença, daqui há pouco, na Bahia e, um dia, no “Velho Tió”.
Tanto quanto você, sou um apaixonado pelas coisas de Minas com seus seres autóctones que sempre abrem os braços para acolher as “gentes dos brasis”. Você é um verdadeiro “negro da terra”, jamais se deixou levar pelos frívolos encantos da modernidade imposta pelos signos do capital. Não conheci uma pessoa tão abnegada em resistir a tais encantos, você é, portanto um vencedor meu camarada.  
João de Minas tu és a verdadeira cria de “Veia Messina e Zé da Silva Pereira”. 
As “quadradas das águas perdidas” clamam por sua volta, os vales Mucuripe, Gavião e Doce suplicam por sua presença e o Mar da Bahia exige o ar da sua graça. 
Atrevo-me a dizer em meu nome e de Olavo, Bustamante, Umberto, Camachão, Alkmin, Bahia, Thomé, Stöessel, Winston e outros que sua partida deixa-nos órfãos. Arrisco-me a afirmar que sua partida deixa Uberlândia e região culturalmente mais pobres e, politicamente, mais previsíveis.  
Nas escolas das bandas de cá de Minas, João Bruno ficará na memória, pois mesmo no final de nossas contas não temos ideia da quantidade de jovens que tiveram o privilégio de ouvi-lo e lê-lo. Quantos moças e moços aprenderam com suas aulas a serem mais decentes e cidadãos na plenitude. Quantos professores e educadores miraram e miram em seu exemplo?  
Sua obra, caro João, não se mensura, simplesmente mira, admira e aprende. 
Vá, “negro da terra”, cria de Messina e Zé e deixe-nos com o “pirtucho na guela” (apropriei de Elomar por uma justa causa) e o nó no coração. Sobreviveremos porque a sombra de seu frondoso imbuzeiro haverá de nos continuar ensinando o que se deve fazer pra ser “gente de bem”. 
Valeu a pena, pois sua “Mahatma”, grande João Bruno, nos possibilitou ser menos medíocres, menos previsíveis e mais humanos. 
* Cires Pereira, um de seus aprendizes entre a última semana do verão de 1983 e a antepenúltima semana do inverno de 2015. Um amigo até que sejamos plantados numa qualquer curva de um dos rios de Minas ou num dos verdes "chãos" das Gerais ou, quem sabe, num dos cumes de nossas montanhas.
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