11 de julho de 2015

CRISE NA GRÉCIA: FACE DE UMA CRISE GLOBAL

CIRES PEREIRA


Com a introdução do euro como moeda única, em 1999, os gastos correntes do governo grego aumentaram gerando déficits públicos recorrentes, agravados em 2004 devido aos gastos extraordinários com a realização dos jogos olímpicos em 2004. Assim, desde 2008, com a crise internacional os custos dos empréstimos ficaram ainda maiores, comprometendo a capacidade de pagamento do governo. 

Por isso os empréstimos tiveram que ser feitos pelos parceiros da "zona do euro" e pelo FMI ao governo grego. Estes empréstimos aumentavam tanto quanto aumentavam as contrapartidas do governo grego como redução de gastos, elevação de impostos e privatizações. Os investimentos diminuíram em razão da crescente desconfiança dos investidores, provocando queda na atividade econômica e desemprego.

Este cenário provocou desgaste no governo grego e a ascensão do principal partido oposicionista ao governo, o Syriza, um partido crítico das políticas neoliberais ortodoxas, comandado por Alexis Tsipras. O programa econômico do Syriza propunha o fim das políticas de austeridade fiscal, a renegociação da dívida pública e a emancipação frente à Alemanha, visto como responsável principal da pressão por uma política de austeridade sobre o governo grego. Em seu discurso como novo primeiro-ministro, Tsipras afirmou: "Os gregos terão um presidente de verdade, não um delegado de Ângela Merkel, que irá priorizar os interesses de seu país e de seu povo"


Tsipras convocou o referendum diante do impasse nas negociações entre o governo e o seus credores externos. No domingo, dia 05 de julho, os gregos foram às urnas para referendarem ("NAI") ou rechaçarem (OXI) a proposição feita pelos credores da dívida pública grega (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e  FMI) que caminha pra ser duas vezes o tamanho do PIB grego. Atualmente a relação entre a DPM (Dívida Pública Mobiliária) e o PIB (Produto Interno Bruto) encontra-se próxima aos 180 %. OXI ou NÃO obteve 61 % e o "NAI" ou SIM 39 % dos votos. 

Este resultado significou uma espécie de voto de confiança da maioria dos gregos ao governo do Primeiro Ministro Alexis Tsipras do Partido Syriza. Pode-se considerar uma espécie de anuência à forma como o governo está conduzindo as negociações com os credores e com a União Europeia.

A Alemanha, maior credora da dívida grega exige do governo grego uma conduta semelhante à que exigiu do governo irlandês que passou por uma grave crise entre 2008 e 2012, tendo que recorrer à vultosos empréstimos que somaram 68 bilhões de euros. Os alemães argumentam que Irlanda, cumpriu bem as metas impostas e desde 2013 tem voltado a crescer e tem mantido suas contas púbicas estáveis. Ocorre que o referendum de domingo sinalizou que a sociedade grega não se dispõe a aceitar uma política tão austera na Grécia como foi na Irlanda, por outro lado a Irlanda parece ter superado sua crise, ainda muitas reminiscências desta crise subsistirão por mais anos, como a redução do grau de imunidade frente à novas crises econômicas externas e a precarização dos serviços públicos de assistência social.


RAZÕES DA CRISE ATUAL


1 - A CRISE ECONÔMICO/FINANCEIRA 2007/2015 

Os últimos sete anos tem sido marcados por uma desaceleração do crescimento da economia mundial. Tudo teve início com a crise financeira/imobiliária nos EUA desde o início de 2007, durante a gestão republicana de George W. Bush. O mercado imobiliário encontrava-se em franca expansão e, tomadas pela euforia, as financeiras americanas passaram a confiar demasiadamente na capacidade de pagamento de seus clientes que usavam os recursos para aquisição da casa própria. Estes bancos usaram estes empréstimos hipotecários para apreciarem os seus títulos que então foram repassados para outras instituições financeiras. Os casos mais emblemáticos foram a falência do banco Lehman Brothers e a absorção do agonizante Bank Merrill Lynch pelo Bank Of América. 

Visando conter a disseminação da crise, o governo Bush estatizou, em 2008, as agências de crédito imobiliário Fannie Mae e Freddie Mac. No mesmo ano, em meio a uma queda de 1,5 % do PIB no quarto trimestre de 2008, os governos das principais economias europeias anunciaram um pacote de ajuda financeira que somam 1,2 Trilhões de euros ou 1,6 trilhão de dólares. Obama, desde 2009, manteve a estratégia de seu antecessor, injetando capitais nas empresas que em dificuldades viam, sem poderem reverter, suas ações "desidratarem". 

A crise já havia se "globalizado". Com a "evaporação" dos créditos, os investimentos nos setores produtivos e de serviços minguaram provocando fechamento de vagas de emprego e atingindo a renda, a crise emitia sinais de que seria crônica. Todo este abalo nas economias centrais contaminava as economias emergentes de grande e de pequeno portes. O fluxo do comercio mundial retraiu-se desde então, provocando desvalorização das commodities agrícolas e minerais. Inapelavelmente os grandes fornecedores destas commodities como o Oriente Médio, Brasil, Venezuela, Argentina, Rússia e México sentiram os seus efeitos mais nefastos.
2 - A (NOCIVA) FÓRMULA ALEMÃ
A Alemanha da primeira-ministra Ângela Merkel (CDU - União Democrata-Cristã) optou por uma fórmula peculiar no enfrentamento da crise desde 2008, que se assemelha àquela adotada no III Reich (1933/1945) e que tanto malefício causou às demais economias europeias. Conhecida como "beggar thy neighbor", esta fórmula consiste nas seguintes ações: barateamento dos custos, pela via das desonerações e de política cambial que estimule as vendas externas para a ampliação do superávit em conta corrente. 
Esta fórmula pressiona algumas economias da "zona do euro" que, sendo menores, dependem diretamente da economia alemã, como são os casos da italiana, da espanhola, da portuguesa e da grega. Deste modo estas economias, desde 2010, tem amargado crescentes déficits em conta corrente (soma dos saldos das transações comerciais e transações em serviços). Estando a economia com deficit, os habitantes acabam ampliando seus endividamentos com o exterior. 
A Grécia é um caso emblemático, pois as crises verificadas nas economias periféricas da "zona do euro" estão relacionadas com a fórmula alemã para o enfrentamento da contração de seu crescimento econômico numa economia mundial retraída. Segundo o novo governo grego, a crise na Grécia não está associada aos equívocos na escolha de instrumentos de política econômica ou ao mau gerenciamento de sua dívida soberana mas, antes, ao próprio arranjo estrutural da zona do euro ditado pelo seu maior sócio - a Alemanha. 
O financiamento desse deficit, num ambiente marcado pela austeridade fiscal e pela forte contração da atividade econômica, nos habilitam a compreender o avanço do endividamento da Grécia (como também de Portugal, da Espanha, da Irlanda e até da Itália). Ainda importa considerar o fato de as transações correntes entre a Zona do Euro e a China continuarem crescentemente deficitárias, o que amplia ainda mais o déficit das transações da Grécia, minando sua capacidade de reduzir ou pelo menos estancar seu endividamento.

CENÁRIO PÓS REFERENDUM

Diante do rechaçamento, determinado por 61 % do eleitorado grego, das condições impostas pelos credores que significou também a anuência do eleitorado grego à forma como o governo do Syriza vem negociando com os credores, novas negociações foram abertas neste final de semana à pedido do governo Tsipras (Syriza) que para tanto apresentou as bases de seu governo para um acordo possível, lembrando que a oposição grega aprovou no parlamento o proposta do governo, que são as seguintes:
Impostos: aumento do imposto sobre valor agregado que passaria de 13 % para 23%, aumento do imposto sobre artigos de luxo, redução das renúncias fiscais nas ilhas gregas e um aumento para as empresas em 2%, era de 26%. 
Despesas militares: corte de verbas para a defesa em 300 milhões de euros anuais. 
Retomada das privatizações no setor de infraestrutura portuária e telecomunicações. 
Redução das despesas com aposentadorias a começar pelo corte de um bônus concedido aos aposentados que recebem 700 euros por mês. 
Dívida: o governo pede um auxílio emergencial até 2018 de 53 bilhões de euros para cobrir os juros da dívida consolidada e um auxílio de 35 bilhões de euros pra retomada do crescimento econômico. 
Superávit fiscal primário: o governo se compromete a fazer uma economia de 1% do PIB em 2015, 2% em 2016 e 3% em 2017 para pagamento dos serviços da dívida pública
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Estão reunidos neste sábado e domingo (11 e 12 de julho) em Bruxelas os ministros das finanças dos governos que compõem a zona do euro, 19 ao todo, para avaliar a proposta grega. Para o governo alemão, principal credor da dívida grega, a proposta está muito distante daquilo que os alemães aceitariam. É pouco provável que um acordo de longo prazo ocorra até domingo, prevejo que mais dias serão dados ao governo grego pra melhorar sua proposta, do contrário Grécia pode ser a primeira baixa da "zona do euro".


EM TEMPO:

A reunião de cúpula da "zona do euro", liderada pelo Presidente do Conselho Europeu Donald Tusk, terminou na madrugada deste domingo dia 12 de julho com a seguinte resolução (acolhida unanimemente): Retomada das negociações rumo ao resgate em favor da Grécia via Programa Europeu de Estabilidade (MEE). 

A adoção do MEE implica, segundo as normas regedoras da "zona do euro", em acompanhamento e fiscalização sobre todas as resoluções e medidas que virão a ser tomadas pelo governo grego. Estabilidade à vista? É provável, contudo será preciso muita austeridade por parte do governo grego e muita compreensão da sociedade grega que terá que aceitar as condições estabelecidas pelos credores. 

Os mercados financeiros no mundo devem abrir nesta segunda em alta moderada repercutindo este acordo.

O site www.escritaglobal.com.br acompanhará esta situação da Grécia e se compromete a publicar informações e análise a respeito. 
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