ORIENTE PRÓXIMO NO CONTEXTO DA GUERRA FRIA: UMA VISÃO PANORÂMICA

Professor Cires Pereira

A região do Oriente Médio importa ao mundo pelas seguintes razões: possuidora da maior reserva de petróleo no mundo, por ter sido o local das primeiras grandes civilizações da história e o núcleo embrionário das maiores religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo.

Palestina ou “Terra dos Filisteus” é uma denominação feita desde os tempos antigos encontra-se localizada a nordeste do Sinai, ao sul do Líbano tendo o Mediterrâneo a oeste e o Vale do Rio Jordão à Leste. É também conhecida pelo nome de Canaã (Terra Prometida) ou Sion como preferem os judeus chama-la. A Palestina foi conquistada pelos hebreus ou israelitas (mais tarde também conhecidos como judeus) por volta de 1200 a.C., depois que aquele povo se retirou do Egito, onde vivera por alguns séculos.

Entre os anos de 66 e 70 os romanos, liderados por Tito, e entre  os anos de 133 e 135, liderados pelo Imperador Adriano, massacraram as principais rebeliões judaicas e proibiram os judeus em jerusalém, com isso muitos judeus deixaram a região e se espalharam pelo mundo, principalmente pela Europa - a diáspora judia.

Mais tarde, os árabes identificados com o islamismo, apregoado pelo Profeta Maomé, conquistaram a região por volta de 638. A Palestina passou a ser disputada entre os próprios árabes. Com o movimento das Cruzadas a região chegou a ter um Estado cristão ao longo do século XII. Desde 1517 até 1919 a Palestina e seus vizinhos tornaram-se partes integrantes do Império Turco Otomano. Com a derrocada do Império Turco, que estivera ao lado do II Reich na 1ª Guerra, a Turquia obrigou-se a devolver estes territórios que a partir de então passaram para os controles dos governos francês e inglês.

O SIONISMO E A FUNDAÇÃO DO ESTADO DE ISRAEL

O sionismo constituiu-se num dos principais movimentos envolvendo os judeus espalhados pelo mundo desde o século I a.C quando a região da Palestina foi tomada pelos romanos, comandados por Tito, em 70 a.C. Em 1896 Theodor Herzl, escritor austríaco e judeu, criou o movimento sionista no qual propunha a criação de um Estado para os judeus, espalhados por todo o mundo, localizado exatamente na Palestina. 

Com o desmembramento do Império Turco-Otomano em 1919, a Palestina, Transjordânia e o Iraque passaram para o controle do Império Britânico e as regiões do Líbano e da Síria para o controle francês. Uma decisão frustrante para a grande parte dos habitantes destas regiões que demandavam a autonomia total. Depois da Guerra os judeus passaram a comprar e colonizar terras na região da Palestina. Como havia muitos árabes na região, os judeus criaram uma força de segurança particular denominada Haganah.

Durante a 2ª guerra mundial o holocausto empreendido pelo III Reich comandado pelos nazistas eliminou milhões de judeus provocando um sentimento de comoção internacional. A guerra evidenciou a diminuição da influência das antigas forças econômicas europeias (Inglaterra e França) e fez emergir uma nova potência econômica capitalista, os EUA. O governo dos EUA foi favorável à criação do Estado de Israel: um “Estado para os judeus” como advogavam Herzl e o sionismo.

Em 1947 a ONU (Organização das Nações Unidas) propôs a divisão da Palestina entre árabes e judeus. Em 14 de maio de 1948 David Bem Gurion proclamou a criação do Estado de Israel, comprometendo-se a “internacionalizar a cidade de Jerusalém” (referência cultural-religiosa para judeus, cristãos e muçulmanos).


A REAÇÃO DOS ÁRABES E A AMPLIAÇÃO DE ISRAEL 

1ª Guerra Árabe-Israelense: em 1948, os governos vizinhos: egípcio, sírio, libanês, iraquiano e jordaniano tentaram, sem êxito, derrotar Israel. Desunidos e enfrentando uma força militar bem estruturada e amparada pelos soviéticos e americanos, estes governos viram os israelenses apropriarem-se de quase três quartos da Palestina. Muitos palestinos, sem território – Gaza ficou sob tutela egípcia e Cisjordânia sob domínio da Jordânia - tiveram que se refugiar e se espalhar pela Transjordânia e Egito.


A Guerra de Suez – 1956: os nacionalistas, sob a liderança de Gamal Abdel Nasser, haviam vencido as eleições no Egito e deflagraram um processo de nacionalização da economia atingindo o sistema bancário e o Canal de Suez, até então controlados por empresas europeias. França, Inglaterra e Israel uniram-se contra o Egito invadindo a Península do Sinai, contudo os governos dos EUA e da URSS não apoiaram a invasão e exigiram a retirada das tropas invasoras. Mesmo que o Egito tenha sido, militarmente, derrotado o governo Nasser manteve o Canal de Suez, condicionado à livre navegação em suas águas para o acesso ao Mar Vermelho e Oceano Índico.

A Guerra dos Seis Dias – 1967: Onze anos depois, o governo egípcio (Gamal Nasser) proíbe a navegação de embarcações israelenses do Golfo de Akaba. Israel reage imediatamente atacando o Egito, a Jordânia e a Síria. Em seis dias todas as metas das forças israelenses já estavam atingidas, assim a Península do Sinai, pertencente ao Egito, a Cisjordânia pertencente à Jordânia e as Colinas de Golã à Síria, foram ocupadas por Israel. O Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução (242-1967) exigindo a retirada das tropas israelenses. O governo israelense, certo de que não seria punido em razão de sua parceria com os EUA, jamais cumpriria esta resolução. 


Os palestinos foram forçados a viverem separadamente nos territórios ocupados pelos israelenses, na Jordânia, na Síria e no Líbano. Em 1964 Yasser Arafat funda a OLP (Organização pela Libertação da Palestina) com o intuito de organizar a resistência contra os israelenses. Frustrado com a falta de colaboração dos governos árabes, Arafat orienta, desde 1969, seus comandados a agirem de forma autônoma, isto é sem a interferência dos governos árabes. Esta decisão da OLP provocou a ira do governo jordaniano - Setembro Negro - que reprimiu, em setembro de 1970, os palestinos descontentes que viviam na Jordânia. O próprio governo do rei Hussein reconheceu a morte de 3.400 palestinos e algo em torno de 10.000 feridos. 

As hostilidades entre o governo jordaniano e os palestinos estenderam-se até junho de 1971. Derrotados os palestinos em grande maioria estabeleceram-se no sul Líbano.


GUERRA DO YOM KIPPUR E O PRIMEIRO CHOQUE DO PETRÓLEO

No dia em que se comemora o Perdão no calendário judaico, tropas egípcias e sírias atacaram Israel, mas acabam derrotadas. Israel manteve os territórios do Sinai e de Golã anteriormente conquistados. Sem dúvidas, o rearmamento de Israel pelos Estados Unidos na Guerra do Yom Kippur, certamente foi decisivo para que Israel contivesse os árabes.

A guerra do Yom Kippur, o atentado em Munique perpetrado por uma organização pró-Palestina “Setembro Negro” (Massacre de Munique, durante as olimpíadas de 1972) e as resistências dos palestinos nos territórios ocupados (Intifada) reforçaram o ambiente de incertezas e geraram ainda mais intranquilidade na região do Oriente Próximo. 

As potências ocidentais foram surpreendidas em razão da retaliação em bloco conduzida pela OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). Em outubro de 1973, os países membros, detentores de quase toda a produção mundial, aumentaram o preço do barril (o preço passou de US$ 2,90 para US$ 11,60) de modo significativo, diminuíram a produção e embargaram vendas para EUA e Europa. 

A elevação dos custos de produção no mundo, a retração das demandas internacionais e a recessão foram os efeitos mais sentidos na economia internacional imediatamente. Em 1974, Kissinger, Secretário de estado do governo Nixon e governo israelense chegaram a um entendimento de que era preciso recuar. Israel devolveu territórios ao Egito (Península do Sinai) e à Síria (Colinas de Golã) e os governos árabes voltam a aumentar a produção visando um ajustamento do preço.

Toda esta crise serviu para que os EUA passassem a ser vistos como o único país com potencial para mediar acordos entre as partes em litígio no conturbado palco que se tornou o Oriente Próximo. Israel não tinha outra opção de mediador fora os americanos. Além de já usufruírem de uma ligação especial com os Estados Unidos. Sabiam que não poderiam contar com os europeus e a ONU porque ambos já os haviam condenado várias vezes pelo uso da força contra os árabes. Egito e a Síria eram aliados da URSS e contavam com sua ajuda para se equipar militarmente, uma ajuda que estava minguando em razão de problemas na URSS. Esta lacuna criada pelos soviéticos na relação com os árabes acabou sendo preenchida lenta e sutilmente pela diplomacia dos EUA. O acordo de 1978 em “Camp David” e os sucessivos acordos nos anos seguintes comprovaram esta tendência.

As eleições de 1977 em Israel deram o comando do país e consequente a condução das negociações ao Likud que havia formado uma coalização conservadora no parlamento. Menachem Begin iniciou o assentamento de colonos judeus nos territórios ocupados.

No ano seguinte Begin e Anwar Al-Sadat firmam o Acordo de Camp David, mediado pelo governo Jimmy Carter dos EUA. Israel devolve o restante da Península do Sinai e Egito reconhece o Estado de Israel. Por um lado, o acordo rendeu aos três governantes o prêmio Nobel da Paz de 1979. Por outro lado, Sadat acabou sendo assassinado em 1981 num atentado perpetrado pelo grupo “Jihad Islâmica Egípcia” contrária ao acordo e o Egito, expulso da Liga Árabe até o final dos anos 80. Combatido por extremistas de ambos os lados, o processo de paz mostrou-se irrevogável. Na década de 1990, incluirá até a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), a princípio favorável à luta armada.


LÍBANO: GUERRA CIVIL E OFENSIVA ISRAELENSE 

Desde 1970, acampamentos palestinos estavam sendo feitos no sul provocando desentendimentos entre os cristãos, contrários à presença de palestinos e favoráveis à causa israelense, e muçulmanos, apoiadores da presença palestinos e contrários à causa israelense. Estas divergências levaram ao início da guerra civil em 1975. Os combates entre cristãos e muçulmanos arrasaram a capital (Beirute) e provocaram recessão econômica.

Em 1982 o governo de Israel decidiu pela invasão no Líbano invade o Líbano objetivando combater os radicais da OLP” que acabam expulsos do território libanês. Os israelenses chegaram a ocupar a capital, Beirute. Os refugiados palestinos passaram a se concentrar no sul do país, mesmo assim a repressão se intensificou com a ação das milícias cristãs libanesas, auxiliadas pelas tropas israelenses que também optaram por se concentrarem no sul para manterem uma “zona de segurança”. Para combater a ocupação israelense, forma-se o Hezbollah (“Partido de Deus”), organização xiita libanesa apoiada pelo governo islâmico fundamentalista do Irã e pelo governo sírio.

A guerra civil libanesa chegou ao fim em 1990 depois da formação de um governo compartilhado entre cristãos (Presidência) e muçulmanos sunitas (1º ministro). Israelenses deixaram o sul do Líbano somente no ano de 2000, Contudo perduram até hoje as tensões entre o Hezzbollah e Israel.


Organizações palestinas 
PALESTINA: NOVA INTIFADA E DECLARAÇÃO DE INDEPENDÊNCIA

Entre 1987 e 1992 intensificaram-se as ofensivas de palestinos contra Israelenses que ocupam seus territórios – a “Intifada” – Os palestinos, sob o comando da OLP liderado por Yasser Arafat, cujo braço armado era o “Fatah”. Neste contexto o Hamas, com posições contrárias ao diálogo entre Israel e OLP, começa a ganhar espaços, especialmente em gaza. Em meio à Intifada, Yasser Arafat declarou a independência da Palestina com sede em Jerusalém. Israel somente reconhecerá esta autonomia, mesmo assim condicionada, somente em 1993. 
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