10 de abril de 2015

EMERGÊNCIA DA ECONOMIA DE MERCADO NA EUROPA OCIDENTAL

Professor Cires Pereira
Burgo Europeu na Baixa Idade Média


INTRODUÇÃO

A desestruturação lenta, o colapso do sistema feudal e a transição feudo-capitalista na Europa Ocidental estiveram vinculados à emergência e afirmação de uma economia de mercado na Europa Ocidental desde o século XI. 

A crise, que se abateu na região no século XIV, fez com que as resistências das elites mais indispostas com as mudanças fossem minadas, deste modo um novo tempo marcado pela centralidade na política, pela secularização do debate e florescência de novas concepções e interpretações sobre Deus e o Ser Humano e pelo avanço da economia de mercado em detrimento de uma economia subsistencial – a modernidade europeia.



BAIXA IDADE MÉDIA (SÉCULOS XI, XII, XIII, XIV, XV)   

A PROSPERIDADE NO SÉCULOS XI, XII e XIII 

As incursões promovidas pelos normandos no norte da Europa e na Grã-Bretanha e, principalmente as incursões promovidas pelos povos muçulmanos, provenientes da África e do Oriente Médio, nos mares ao sul e no sul do continente europeu comprometeram o envolvimento dos mercadores europeus com o pujante comércio pelos mares. Este comprometimento, verificado ao longos dos séculos XVIII, IX e X, implicou numa severa retração da atividade mercantil em quase todas as regiões da Europa Ocidental. Nestes séculos as atividades econômicas envolvendo os europeus passaram a ter como objetivo prioritário a subsistência, o comércio passou a ser uma atividade de complementação às atividades agrárias. Quase todas elas concentravam-se nos feudos que tendiam à autossuficiência. 

O feudalismo havia se consolidado na região. A maior parte dos europeus era subordinada simultaneamente aos clérigos vinculados à Igreja Cristã e aos nobres. Os clérigos exerciam uma autoridade abstrata ou imaterial sobre a sociedade, enquanto a nobreza, a nível local, impunha sua autoridade política, jurídica e militar.


I - O Renascimento Comercial

Desde meados do século X o quadro começou a sofrer alguma mudança. A Igreja Cristã, muito preocupada com a presença dos “infiéis”(muçulmanos) no sul e com o “cisma dos cristãos espalhados no Oriente”, inicia uma contraofensiva – as cruzadas - para restabelecer o controle sobre a região para que, em seguida, fosse possível restabelecer contato e controle sobre as regiões que deram origem ao cristianismo – o Oriente Médio. Ao mesmo tempo em que esta mesma instituição ampara e contribui para que os seus aliados governantes ibéricos liderassem a “Reconquista da Península Ibérica” que em grande parte, encontrava-se ocupada pelos muçulmanos.

Estas contraofensivas tiveram duas consequências importantes: o recuo da presença e dominação árabe nos mares ao sul – Adriático e Mediterrâneo -, e a reativação do comércio pela região envolvendo os emergentes comerciantes europeus com os mercados na África, no Oriente Médio e no Sul da Ásia. Este novo ambiente provocava mudanças dentro da Europa: o aumento da produção irrompendo os limites de uma economia até então subsistencial e o aumento das demandas provocado pelo crescimento da população, pelo crescimento da parcela empregada e pelo aumento do percentual de trabalhadores não mais servos (assalariados, autônomos, corporativos e arrendatários).

II - O Renascimento Urbano

As cidades europeias tornaram-se os espaços mais apropriados para residir, empreender e trabalhar. A taxa de crescimento demográfico era sempre maior nas cidades, muitos preferiam as cidades por entenderem que nelas poderiam ser livres e por nutrirem a esperança de que poderiam melhorar suas vidas. Em muitos feudos, os moradores das vilas respectivas avançavam contra o poder do “castelão” ou senhor feudal. Na maior parte das vezes, os senhores eram pressionados a transigir e conceder autonomia aos seus burgos rebelados. Nas cidades, diante do avanço da economia de mercado, emergia então a nova elite urbana, constituída por armadores de navios, banqueiros ou usurários, mercadores, mestres de ofício e artesãos autônomos. Com o passar dos anos nobres e Igreja também tiveram que ceder às “tentações do mundo urbano”. Tornavam-se comum as construções de suntuosas residências para os nobres e de mosteiros, escolas e templos para a Igreja Cristã.

Lucca - Itália
III - Da Democracia à Plutocracia nos burgos
Emancipados, a grande dificuldade encontrada nos burgos (comunas ou cidades) era de ordem financeira. Quase todos se mostravam incapazes de assegurar uma boa gestão das riquezas, em razão disto o poder acabava sendo apropriado pelos representantes da nascente burguesia, que se mostravam menos sensíveis e mais duros para com os setores populares do que com os antigos senhores. Daí a rápida transição de uma gestão popular/comunal para uma gestão plutocrática. No século XIV, os burgos, comumente, tornavam-se palcos de agitações e tumultos eram populares, agravados numa época de guerras, fomes e enfermidades.

A CRISE E O COLAPSO DO FEUDALISMO NO SÉCULO XIV

Os proprietários de terras (nobreza senhorial) tentavam se adequar à pressão da crescente demanda de bens primários nas cidades, contudo esbarravam-se numa estrutura ineficiente e numa mentalidade que em nada refletiam condutas e mentalidade dos que comandavam a economia nas cidades. Desejosos em consumir mais e melhor o que era gerado nas cidades, os senhores feudais viram-se pressionados a aumentarem suas produções para que pudessem ampliar seus recursos financeiros. Este era o problema ou o limite do sistema que ainda predominava no meio rural, produzir pra consumir. Os recursos destinados à melhoria das tecnologias e à aquisição de insumos pouco a pouco se tornavam insuficientes. 

A solução encontrada foi a ampliação das áreas de cultivo comprometendo pastos, florestas e ignorando a rotatividade das culturas que sempre assegurava descanso da área de plantio de tempos em tempos. A nobreza senhorial pouco interesse tinha em melhorar as condições de vida e de trabalho de seus camponeses ainda reféns da servidão ou do trabalho não remunerado. Pelo contrário, os nobres exigiam dos seus servos mais trabalho e mais tributos, configurando um crescente grau de exploração. Os resultados não poderiam ser outros: a queda da produtividade dos solos que levou às quedas na produção e na oferta de bens primários e alimentos e a crescente revolta dos camponeses levando a um clima de instabilidade social nos feudos.

As cidades não ficaram ilesas diante deste cenário, pois as atividades econômicas urbanas muito dependiam das matérias-primas do meio rural. O desemprego e a queda do poder de compra em razão da inflação dos alimentos provocada pelo seu escasseamento provocaram um cenário de devastação também nas cidades. Uma população menos assistida e nutrida fica mais exposta às doenças que nestes anos agravaram-se, como foi o caso da “peste negra”. A fome, as epidemias e as guerras (como a guerra travada entre os nobres ingleses e franceses no norte da França) causaram a retração demográfica no continente na ordem de um terço da população.

As estruturas de dominação erigidas ao longo da Alta Idade Média e mantidas na Baixa Idade Média, não eram mais capazes de evitar e de reprimir as crescentes mobilizações de uma população aterrorizada pelas doenças, impotente diante da fome e indignada em razão da superexploração nos campos e precarização nas cidades. Atemorizados diante de iminentes convulsões populares, nobres e clérigos optaram, previdentemente, por aceitarem (a nascente burguesia já o fizera) de modo definitivo a nova ordem política com o fortalecimento da autoridade política, militar e jurídica dos “suseranos dos suseranos” numa esfera nacional – o rei.

CONCLUSÃO

Os reinos bárbaros estruturados ao longo da Alta Idade Média tiveram que ceder espaços para a formação dos Estados Nacionais, excetuando as regiões italiana e alemã. As elites tradicionais formadas pelo clero católico e pela nobreza  tiveram que aceitar a inevitável aproximação e o acordo entre e a elite emergente, constituída pelos prósperos homens de negócios, e a “realeza”. Acordo que possibilitou a absolutização das autoridades políticas em escala nacional. Novas concepções sobre Deus, sobre o ser humano e sobre a natureza mais próxima do cientificismo emergia como reflexo destes novos tempos. 

Sobre a Revolução Comercial, o expansionismo e o mercantilismo leia o texto no link que se segue: http://www.escritaglobal.com.br/2016/03/economia-europeia-na-era-moderna.html
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