CHARLIE CHAPLIN E O "ÚLTIMO DISCURSO"

Cires Pereira
Chaplin interpretando o "Ditador Hinkel" em 1940
O filme "O Grande Ditador" lançado em outubro de 1940, dirigido e protagonizado por Charlie Chaplin, nos brinda com um dos mais comovente, audacioso e contundente discurso. Proferido pelo barbeiro (Charlie Chaplin, que, para não ser preso, havia assumido a identidade do ditador Hynkel (Hilter) também interpretado por Chaplin. Levado à capital da Tomânia (Alemanha) para fazer o discurso da vitória. O discurso obviamente foi o oposto das ideias nacionalistas e antissemita defendidas pelo ditador Hynkel.

Este célebre discurso, se converteu num dos maiores panfletos em nome da razão e da liberdade e em detrimento do militarismo e do ditatorialismo. O discurso, feito em 1940, com a 2ª guerra apenas em seu começo, tornou-se também uma espécie de provocação à ideologia americana também marcada pelo militarismo e pelo ufanismo.

O filme "O Grande Ditador", particularmente, o "Último Discurso"deflagraram uma perseguição política contra Chaplin em 1947, quando o deputado John Rankin exigiu que fosse expulso dos Estados Unidos por ter apoiado a União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial. Chaplin reagiu publicando um artigo em dezembro daquele ano intitulado "Declaro Guerra a Hollywood", no qual ele critica a perseguição. Grande parte da imprensa norte-americana protestou e o acusou de comunista e antiamericano, exigindo sua deportação. Em 1952, antes de comparecer perante o "Comitê das Atividades Antiamericanas" que o havia intimado, Chaplin optou por deixar os EUA. Chaplin, que era inglês, regressou aos EUA já com 84 anos, para receber uma premiação especial, um "Oscar" honorífico. Pelo conjunto de sua obra, recebeu vários prêmios e condecorações na Europa.



A injustiça do tratamento que ele recebeu do Estado americano, por meio de alguns de seus representantes, foi descomunal. A sociedade americana foi omissa e não o defendeu. Mas era uma época do Macarthismo, uma época marcada pela perseguição a todos aqueles que ousavam criticar os EUA eram, geralmente, taxados de alinhamento com a URSS e com o socialismo.

Chaplin, o maior de todos os comediantes da história, faleceu em 1977 aos 88 anos.
                                 


Integra do "Último Discurso" - Chaplin 
"Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar se possível - judeus, o gentio... negros... brancos. 
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo não para o seu infortúnio. Porque havemos de odiar - desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades. 
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido. 
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: 'Não desespereis!' A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. É assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá. 
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos! 
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! 
Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto - em nome da democracia - usemos deste poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice. 
É pela promessa de tais coisas que desalmados tem subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência.Lutemos por um mundo de razão um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à aventura de todos nós.
Soldados! Em nome da democracia unamo-nos! 
Hannah, estais me ouvindo? Onde te encontras, levanta os olhos! Vês hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo das trevas para a luz! Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos Hannah! 
A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos Hannah. Ergue os olhos!"
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