28 de março de 2015

ROGÉRIO BOTELHO E A ODE AO AMOR

CIRES PEREIRA


Há oito meses não me contive e arrisquei umas linhas a respeito da obra do artesão, a quem chamei de "mestre", Rogério Botelho. Movido pelo embasbaque que sua obra provocou rasguei -lhe elogios. Supus silenciosamente que poderia ter cometido uma injustiça com o "mestre" ao elogiá-lo como se estivesse diante da perfeição. Nada de ponderação, nenhum reparo ou sugestão para que ele "mergulhasse" naquilo que tenha me parecido superficial e/ou generalizante ou mais comum e menos original. 

Desde então ocorreu-me, não raras vezes, de que minhas considerações sobre sua obra pudessem gerar incompreensão e não esclarecimento, adoração e não reflexão. Mas não !!

Rogério Botelho estendeu suas calejadas mãos e me arrastou para longe da movediça areia que havia atraído a mim. Ora, como não havia pensado nisso antes (talvez não precisasse agonizar na iminência de ser tragado pela areia) era só suplicar para que o "Mestre Botelho" concebesse uma nova "peça" que pudesse me tirar aquela angústia. Mas felizmente (apenas um aparente paradoxo) não o supliquei por salvação e optei que o tempo (será o tempo da arte?) me acalmasse e me desse paciência para esperar. E, parafraseando o grande Pessoa em seu irrepreensível "Mar Português, "valeu a pena" . 

Muito, mas muito mesmo!!!

Eis que me deparo com a mais nova "peça" de sua "obra", quando a vi minha mandíbula relaxou, meus olhos voltaram ao viço que sempre cri que houvesse neles e minhas considerações expressas no final do inverno passado foram corroboradas. Esta sua nova "peça" que para mim foi uma espécie de redenção para Rogério Botelho talvez seja o seu "conceito". A essência de sua obra parece estar sintetizada naquele esquadro com 80 centímetros quadrados.

Rogério Botelho confidenciou-me que se trata de "um casal romântico preso a um amor" e emendou "perceba que as mãos transcendem as molduras, mas eles (o casal) continuam presos". Ao final da conversa concluiu que sua arte ao ser publicizada provocaria outras impressões e conclusões. Sim Rogério toda sua arte, particularmente esta peça, provocará muitas interpretações e é exatamente isto que importa ao artista e à sua obra. Conseguiste isto, "mestre"!

Os corpos ferreamente retorcidos e em movimento nos imploram para que deixemos o nosso "lugar-comum" e nos mergulhemos numa viagem imbuídas de pelos menos dois propósitos: compreender o amor ou sentir o amor. Com palavras, confesso que alguém havia me proporcionado isto. Aldir Blanc e João Bosco conceberam preciosidades musicais nos anos 70 e 80, numa destas preciosidades compuseram "Falso Brilhante" onde expressavam o que o amor proporciona.
"O amor é um falso brilhante no dedo da debutante. O amor é um disparate na mala do mascate, macacos tocam tambor" O amor é um mascarado. A patada da fera na cara do domador. O amor sempre foi o causador da queda da trapezista pelo motociclista do globo da morte. O amor é de morte. Faz a odalisca atear fogo às vestes e o dominó beber água-raz. O amor é demais. Me fez pintar os cabelos, me fez dobrar os joelhos, me faz tirar coelhos da cartola surrada da esperança. O amor é uma criança e o mesmo diante da hora fatal. O amor me dará forças pro grito de carnaval, pro canto do cisne, pra gargalhada final."
Fiz questão de republicar na íntegra a peça de Aldir/João exatamente porque se trata de uma peça sem reparos, sem repreensão, íntegra, sublime e definitiva. Mestre Rogério Botelho a emoção que estas letras me proporcionam, desde que as li a as ouvi pela primeira vez ainda menino, se assemelha à emoção que sua "peça" em mim provoca. 

Pensando bem, prefiro ficar com a sua impressão sobre esta peça "um casal romântico preso a um amor". É sim, uma impressão singela, honesta e irremediavelmente sublime (como a peça encerra) sobre o amor. Peço apenas um pouco mais de tempo para sorvê-la e quem sabe assim, desvencilhado da emoção que a "peça" me causou, possa debruçar sobre a sua estética e, à luz desta, investigar a respeito do "conceito" que, nesta "peça", conseguiste exalar. 

Fosse minha (perdoe-me pelo inverossímil arroubo) dar-lhe-ia um nome: "Ode ao amor".


Bravo "mestre", bravo!!
Postar um comentário