EU, A MEDICINA E O MEU SIM !

LUDMILA ARAÚJO SANTANA*

Ludmila Araujo Santana
Não é de hoje que me perguntam: 

“POR QUE VOCÊ ESCOLHEU MEDICINA?”

E a verdade é que encontrar a resposta pra essa pergunta, aparentemente simples, fez todo meu universo girar e me colocar diante de uma inevitável Maiêutica Socrática: 

POR QUE EU ESCOLHI MEDICINA?

O sonho de se tornar um médico - aquele super-herói imaginário que se veste de branco e salva vidas - geralmente se inicia na infância, com algum tipo de experiência vivida que impulsiona o pensamento e o coração imbuídos do propósito de ajudar o próximo. E assim você decide: pronto, quero ser médico. E comigo não foi muito diferente.

Ah caro leitor, a distância que separa essa decisão da enfim concretização é longa. E por que não sofrida e desafiadora?

Mas calma, parece que estou aqui tentando construir uma imagem de que a Medicina é algo quase que inalcançável. Não! O meu papel aqui não é esse. O meu papel é mostrar o quanto a minha identidade com a Medicina foi uma construção lenta, cheia de altos e baixos, mas que me permitiu alcançar uma idealização madura sobre essa profissão.

Esse meu processo não se limitou aos seis anos que frequentei as aulas no curso Pré-Vestibular. Começou muito antes. Começou como todo início de um sonho: a idealização.

Quando criança a sensação que tinha era que o médico era aquela pessoa que salvaria o mundo. O meu imaginário infantil contribuiu para que eu só reforçasse a linda imagem de alguém que se prontifica a ajudar as pessoas em quaisquer circunstâncias. Porque, afinal de contas, o médico seria aquele que sempre se disporia a ajudar.  A gente vai ficando "grandinha" e entende que algumas coisas não acontecem exatamente como idealizávamos quando criança. E a pergunta sempre voltava, no ensino médio e no cursinho: 

"Hipócrates examinando criança" - Robert Thom 1950.
Por que escolhi Medicina? 

Prontamente respondia usando sempre a máxima adquirida nos meus idos de criança: Ora, quero ajudar as pessoas!

Às vezes esgotada de ficar ali, sentada durante 14 horas de meu dia, acompanhando a dedicação dos professores e estudando para aprender algo, sempre questionando o porquê de tudo aquilo. A cada novo dia de estudos para enfrentar o vestibular, que inevitavelmente insistia em deixar marcas e feridas e a cada NÃO que recebia, voltava a me questionar se, de fato, eu havia escolhido a profissão certa. O que acontecia comigo, pensava, acontecia em algum momento na vida de todos. Mas eu voltava a repetir, no meu íntimo, no silêncio do meu coração: é por que você quer ajudar as pessoas, lembra?

Depois de alguns anos de cursinho, extremamente desgastada, eu entrei em crise. Pois alguém teve a audácia de novamente perguntar: 

Por que você escolheu Medicina? 

Automaticamente respondi, porque eu quero ajudar as pessoas, mesmo assim esse alguém voltava a me questionar:

- Por que você não se torna BOMBEIRO? Bombeiro ajuda as pessoas. 
Eu: Verdade, porque não bombeira? 
- Por que você não se torna ENFERMEIRA? Enfermeiro ajuda as pessoas. 
Eu: É mesmo, por não enfermeira? 
- Por que você não se torna PROFESSORA? Professor ajuda muito as pessoas. 
Eu: Gente. É verdade!  
- Por que você escolheu Medicina se todas as profissões ajudam as pessoas direta ou indiretamente?
- Eu .... 
De repente, pela primeira vez, aquela passou a ser a pergunta mais inédita e, devo confessar, perturbante da minha vida. Após ela, entrei em crise. Abandonei o cursinho e fiquei quatro meses sem nem mesmo pegar em um caderno, uma apostila, um livro. Para os meus pais, eu estava abandonando tudo e talvez ficasse por ali “coçando” o resto da vida. Para os meus amigos, eu me tornei uma desistente, talvez uma decepção. 

Para mim, ah...

Para mim era claro que eu precisava daquele tempo. Eu não estava abandonando, não estava desistindo, eu estava parando para respirar, estava me permitindo sair do “modo automático”. Eu precisava encontrar essa resposta. Pois era ela quem me levaria para outro caminho ou me tornaria mais firme na direção que eu já estava. 

Então, longe de tudo e de qualquer influência externa, eu pude questionar e refletir durante horas, dias e meses. Eu vivia naquele momento o que lia nos livros de Filosofia sobre o Método Socrático. Nunca entendi tão bem o que Sócrates dizia a respeito de indagarmos e desconstruirmos um pensamento e, com isso, fazer nascer uma ideia. Uma reconstrução. Uma ideia livre de PRÉ-conceitos, livre de amarras, uma ideia que superasse qualquer contestação. Foi como encontrar o pote de ouro no final do arco íris. O MEU pote de ouro naquele arco íris que sempre esteve distante, contudo sempre à minha frente para alcança-lo.

SIM, encontrei a resposta que me fez voltar a encarar tudo novamente. Voltar para o cursinho preparatório e retomar meus estudos, meu projeto em busca de um sonho, mas dessa vez com a certeza que nada me fragilizaria, nada me faria duvidar, nada me faria desistir. Mais três anos de muita entrega e disciplina e, passei em MEDICINA. 

SIM, encontrei a resposta que me fez encarar até agora a metade do curso, que me fará encarar o resto do curso. Que me fará viver toda uma vida dedicada à Medicina.

E mesmo estando em eterna busca e aprendizado sobre mim mesma e sobre meu papel na sociedade, eu continuo, assim como naquela época, certa de que nada me fará duvidar e nada me fará desistir.


Sabem por que escolhi Medicina?

Jean Paul Sartre me ajudou a resumir um pouco quando disse que o homem tem de poder ESCOLHER A VIDA em todas as circunstâncias. E assim, a fiz. Assumi essa escolha para mim e para todos aqueles que cruzarem por mim.

E ainda que, na busca pela cura, eu encontre limitações e não consiga curar, eu posso cuidar e aliviar a dor e angústia que os males trazem. E assim, escolherei pela VIDA, em suas várias formas de entendimento, em qualquer extensão, em qualquer circunstância. Pois escolher a VIDA é escolher aliviar o sofrimento humano. 

Entre um "Sócrates" e um "Sartre" e sob as bençãos de Hipócrates, Drummond! 

Ah Drummond! Com sua costumeira sagacidade e inigualável talento sintetizou muito do que tenho sentido e vivido...

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.”
"Viver Não Dói": Carlos Drummond de Andrade 

 *Estudante de Medicina pela Universidade Federal de Uberlândia e "pretensa" escritora.
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