21 de março de 2015

1ª GUERRA MUNDIAL: INTRODUÇÃO

CIRES PEREIRA

1898 Cartoon da China imperialista: Chinês observa o retalhamento
 da China entre  rainha Vitória (Ingl) , Guilherme II (Alem)  Nicolau II
(Rus), França e um Samurai (Jap).
No início do século XX o mundo acompanhou a deflagração de um conflito que provocou uma diversidade de reações, das quais destacam-se a estupefação, o pânico, a apreensão, a desolação, a indignação e até a indiferença. Era ainda muito precoce avaliar a extensão ou compreender a natureza desta crise aberta diante dos primeiros choques entre as forças antagonistas, mesmo assim não faltaram comentaristas com e sem conhecimento de causa. Uns procuravam acalmar, outros nem tanto, mas a maioria destes comentaristas aproveitava-se da situação para ganhar audiência e prestígio. Mal sabia a maioria que aquele conflito perduraria por quatro anos e mudaria e muito o curso da história.

O resgate histórico é condição imprescindível para os que buscam explicações sobre o mundo que nos cercam, seja qual for o evento ou o conjunto de eventos. Um honesta e plausível explicação sobre o que se passa hoje no meio de nós depende também do(s) eventos(s) que selecionamos e da profundidade do estudo que fazemos sobre o(s) mesmo(s). É preciso reconhecer que os eventos tem uma importância relativa, para uma parcela da sociedade um evento pode ter importância maior do que o outro, pois esta importância depende dos objetivos que esta parcela elenca para a investigação e o julgamento daquele evento. 

Primeira Guerra Mundial que se iniciou no verão de 1914 e terminou no início do inverno de 1918 constituiu-se, a meu ver, num evento relevante para o delineamento do mundo atualmente. Procurarei observar e compreender as conexões entre os inícios dos séculos XX e XXI sempre imbuído dos propósitos de combater a indiferença de uns sobre este tema, de melhorar a compreensão deste tema para os que iniciaram os estudos e, principalmente, ampliar o número de cidadãos e cidadãs que se colocam absolutamente contrários às guerras desta natureza que só trazem desgraças para todos, mais ainda para os indefesos. Portanto meu esforço na concepção destes textos sobre a Primeira Guerra é mais uma homenagem aos que direta ou indiretamente se empenharam e se empenham nas mobilizações e luta contrárias às guerras, que pleiteavam e pleiteiam um mundo melhor, mais justo e pacífico.


INTRODUÇÃO

As perdas humanas e a destruição do que tinha sido erigido a princípio para contribuir no bem-estar da sociedade estão entre os efeitos mais sentidos pelo mundo após quatro anos de conflitos. Os interlocutores dos governos, dos órgãos multilaterais, das instituições de toda natureza, das empresas envolvidas e das forças militares e diplomáticas faziam um esforço impressionante (e irritante) para minimizá-los e, pasmem, até para não reconhecê-los. Contudo a morte e a destruição eram tão expressivas que o esforço destes asseclas de plantão tornava-se cada vez mais inútil.

Não é muito difícil compreender os danos e as vítimas do caos produzido por um conflito como a Primeira Guerra, difícil mesmo é apontarmos os responsáveis diretos e indiretos pelo conflito, mais ainda compreendermos suas motivações e suas conveniências. Antecipo que este conflito ampliou o fosso existente entre os interesses e conveniências dos provocadores e/ou protagonistas da Guerra e os interesses e direitos das vítimas diretas e indiretas, um fosso que não foi (provavelmente não o será) preenchido. Quando menciono "vítimas indiretas", incluo também a grande parte dos homens e mulheres do mundo presente. As feridas de uma guerra são abertas e suas cicatrizes são eternas.

Mesmo cientes dos danos que causariam, não eram poucos os que se esforçaram para que uma nova guerra ocorresse. Tinham ciência das benesses das guerras anteriores, mesmo que soubessem que as benesses limitavam-se a frações, comumente diminutas, das sociedades envolvidas nas guerras. A Guerra, para estas frações, geralmente eram providenciais para repararem os erros e melhorarem desempenhos e edificarem novas oportunidades de ganhos de toda natureza. 

Afinal de contas nada mais oportuno do que uma guerra para justificar o esforço governamental, incluindo o financeiro, em criar, manter e sofisticar os seus organismos de defesa e de ataque. Nada é mais oportuno do que uma guerra para justificar a existência e a (sempre) perigosa influência dos comandos militares no debate e nas definições políticas de um governo e, por conseguinte, nas definições do futuro das sociedades civis respectivas. Igualmente oportuna é a guerra para justificar a existência de corpos diplomáticos cujos integrantes sabem muito bem que suas condutas jamais irromperiam as conveniências dos governos e dos grupos sociais, geralmente, elitistas, que os tutelam.

A Guerra, a despeito das destruições, mutilações e do morticínio causados, é providencial para restabelecer as demandas de uma economia de mercado, como é o caso da economia no sistema capitalista. É providencial para criar e amplificar novos nichos de mercados como por exemplo, a indústria bélica, a indústria da (re)construção civil, do setor de seguros, da atividade de propaganda. Estimula a medicina, sobretudo a traumatologia, a indústria farmacêutica, etc. Acima de tudo a Guerra é imprescindível para a atividade financeira, pois os governos gastam fábulas de recursos que, não tendo sido arrecadadas, são captadas junto aos bancos privados através da emissão de títulos públicos a serem resgatados a médio e longo prazos fazendo aumentar suas dívidas que terão que ser pagas pelas sociedades contemporâneas e futuras ao conflito.

"Se país precisa de você"
Recrutamento na 1ª guerra mundial. 
Autor: Alfred Leete. 
Reitero que nada podia ser feito para impedir a deflagração do conflito, pois o mesmo era providencial para alguns governos e empresários que, grosso modo, compunham uma espécie de grande comando sobre a ordem mundial naquele início do último século do 2º milênio. Mesmo que alguns discursos das lideranças envolvidas tenham sido na direção de se evitar a Guerra, é fundamental compreender que havia um grandessíssimo fosso entre o discurso e a prática e a intenção e o gesto dos mesmos. 

A dissimulação, o engodo, o embuste e o blefe eram "armas" comumente usadas pelos governos diante do seus governados e eventualmente diante de outros governos. "Armas" que se revelarão tão letais quanto os canhões e as metralhadoras.
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