A ATUALIDADE DO PENSAMENTO DE MARX II: A CONTRADIÇÃO DO CAPITAL E O MANIFESTO COMUNISTA

CIRES PEREIRA

Muito se comenta sobre a análise  de Karl Marx sobre a ordem capitalista, seguramente seus escritos estão entre os mais lidos de toda a história. Karl Marx nasceu no Reino da Prússia em 1818 e faleceu em 1883, doze anos após a unificação dos estados alemães e a proclamação do II Reich comandada por Otto Von Bismarck, à época chanceler do  governo prussiano. Com 23 anos apresentou sua tese de doutorado pautada nas diferenças entre Demócrito e Epicuro. A partir de 1843,  Friedrich Engels tornou-se parceiro de elaboração, escreveram e publicaram, "A Ideologia Alemã",  "A Sagrada Família" e "O Manifesto Comunista". 

Já estabelecido em Londres, Karl Marx dois livros sobre a situação na França: "Luta de Classes em França" e o "18 Brumário de Louis Bonaparte". Em 1859 publicou "Contribuição à crítica da economia política". A obra mais importante de Marx, "O Capital", começou a ser publicada em 1867, o que seria o 1º volume. Engels, após a morte de Marx, publicou os outros três volumes.


Para saber mais, recomendo a leitura do seguinte texto (neste site publicado): http://www.escritaglobal.com.br/2014/08/a-atualidade-do-pensamento-de-marx.html 


Nas páginas de "O Capital" encontramos uma análise crítica sobre o sistema capitalista que, em última instância, ampara ou justifica a sua tese mais famosa e controversa: a defesa da destruição do sistema capitalista pelo proletariado e a edificação do sistema socialista com vistas ao sistema comunista.

Marx começou sua análise (capítulo 1) discorrendo sobre "mercadoria" que, na sociedade burguesa e capitalista apresenta-se como  "valor de uso" e "valor" (ou valor de troca) que seria a "substância ou grandeza do valor". Como valor de uso a mercadoria satisfaz as necessidades humanas, isto é, tem utilidade. O valor de uso tornou-se, portanto, o conteúdo material da riqueza desde que o ser humano passou a manipular a natureza para extrair dela as bases de sua sobrevivência. Assim, na sociedade hegemonizada pela burguesia e o capital, resultante da revolução industrial, a mercadoria passou a possuir valor de troca.

As mercadorias são o produto do trabalho humano e sua grandeza de valor é mensurada pelo "quantum de trabalho", é este quantum que gera o valor. Neste momento Marx faz uma provocação ciente que os defensores do sistema capitalista, geralmente ardorosos defensores da teoria liberal de pensadores como Adam Smith e David Ricardo, não poderiam responder sob pena de terem que rever as suas teses. Como o trabalho é o fundamento principal e a origem principal do valor (não é o único), como explicar a condição miserável dos trabalhadores ou dos geradores de trabalho?

Sem as respostas convincentes de seus antagonistas, como era previsível, Marx formulou a teoria da mais-valia para comprovar que o trabalho produzido pelos indivíduos e pela coletividade que gera um valor foi remunerado por um valor, invariavelmente, inferior. Esta diferença é, portanto, apropriada pelos donos do capital que, comumente contrata os trabalhadores ou compradores da força de trabalho. 

A mais-valia divide-se entre absoluta e relativa. Produção de mais-valia absoluta é um modo de aumentar a produção do excedente a ser apropriado pelo capitalista. O ritmo de trabalho intensifica-se graças a uma série de controles impostos aos trabalhadores, que incluem da mais severa vigilância a todos os seus atos na unidade produtiva até a mensuração de seus movimentos para a realização das suas tarefas. 

Este modus operandi é finito em razão dos limites da resistência do ser humano, assim assiste-se a uma deterioração de suas condições físicas. Impõe-se deste modo uma espécie de "plano B", a extração da mais-valia relativa que possibilitou ao capitalismo ser o sistema mais dinâmico de todos os tempos, transformando continuamente seus métodos de produção e introduzindo incessantemente inovações tecnológicas. Pois é apenas através da mudança técnica que o tempo de trabalho socialmente necessário de determinados bens pode ser reduzido. Os aumentos na produtividade resultantes e novos métodos de produção proporcionaram lucros ainda maiores aos investidores, este repasse (parcial ou total), ou não, da produtividade dependeria do poder de pressão dos trabalhadores ou de uma regulação promovida pelo Estado. O empresariado, a princípio, prefere que não haja nem a regulação, tampouco a pressão.

Marx afirmou categoricamente que a propriedade privada dos meios de produção é a comprovação de uma apropriação privada dos valores gerados pelo trabalho (força de trabalho) dispendido pelo conjunto dos trabalhadores ou proletários. O capitalismo, sistema amparado pela propriedade privada dos meios de produção e o lucro, se impõe graças à exploração imposta pelos donos do capital sobre o proletariado. Uma minoria detentora de capital, na ordem capitalista, tende a amplia-lo e uma maioria, alienadora ou vendedora de sua força de trabalho tende a receber apenas o suficiente para sobreviver por esta alienação.

Engels e Marx
Ciente disto, Marx propôs a destruição do sistema capitalista pela ação revolucionária dos trabalhadores e a edificação de um novo sistema, o socialismo. Este como uma transição ao sistema ideal, o comunismo. Como se trata de uma alternativa, ainda que ousada e traumática, exequível, Marx e suas teses passaram a ser frequentemente combatidos tanto pelo empresariado, quanto pelos governos alinhados com o capital. 

Enquanto o sistema capitalista existir, existirão as contradições que lhe são intrínsecas, assim o pensamento de Karl Marx continua atual. Seu pensamento provoca temores e calafrios na burguesia, que tem muito a perder com as mudanças, afinal de contas teria que devolver o que havia sido acumulado ou apropriado. 

Um trecho extraído do "Manifesto Comunista" sempre foi e continuará sendo emblemático: 

"




Todas as classes que anteriormente conquistaram o poder procuraram fortalecer o seu status subordinado toda a sociedade às suas condições de apropriação. Os proletários não podem apoderar-se das forças produtivas sem abolir a forma de apropriação que lhes era própria e, portanto, toda e qualquer forma de apropriação. Nada tem de seu a salvaguardar; sua missão é destruir todas as garantias e seguranças da propriedade individual."1 - Burgueses e Proletários; Manifesto do Partido Comunista - Karl Marx e F Engels - 1848 "Alle früheren Klassen, die sich die Herrschaft eroberten, suchten ihre schon erworbene Lebensstellung zu sichern, indem sie die ganze Gesellschaft den Bedingungen ihres Erwerbs unterwarfen. Die Proletarier können sich die gesellschaftlichen Produktivkräfte nur erobern, indem sie ihre eigene bisherige Aneignungsweise und damit die ganze bisherige Aneignungsweise abschaffen. Die Proletarier haben nichts von dem Ihrigen zu sichern, sie haben alle bisherigen Privatsicherheiten und Privatversicherungen zu zerstören." 1- Bourgeois und Proletarier in: Manifest der Kommunistischen Partei - Marx, Karl and Engels, Friedrich. - 1848



0