REINALDO AZEVEDO E O "MURRO" DE FRANCISCO.

CIRES PEREIRA

Não daria ouvidos ao que diz Reinaldo Azevedo em seu programa diário, intitulado “os pingos nos is” (Jovem PAN, sempre antes da “Voz do Brasil”), tampouco leria o ele escreve (Blog do Azevedo e “Folha de São Paulo”) se suas ideias não tivessem repercussão e aceitação expressivas. Em outras palavras, sou forçado a rebatê-lo, como permite o Estado de Direito Democrático, pois encontram-nos em polos diferentes e divergentes.

No dia 15 de Janeiro em sua coluna no jornal Folha de São Paulo e em seu blog, Reinaldo Azevedo publicou um artigo com o seguinte longo título: “Papa Francisco tropeça na sandália do pescador de águas turvas e diz besteira. Ou: Bergoglio está preparado para cura de aldeia, não para chefe da Igreja Católica” (acesse o link: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/nao-so-nao-me-arrependo-das-criticas-ao-papa-como-as-reitero-nao-entendi-as-criticas-queriam-o-que/ )

Peço licença ao Reinaldo de Azevedo para reproduzir de forma seccionada o seu artigo (itálico e negrito) para que os leitores possam acompanhar mais facilmente meus contrapontos ao seu texto.
"O mundo vive uma crise de liderança sem igual. Em toda parte. Onde está Barack Obama, presidente dos EUA? Deixem-me ver. Ele tentou transformar em notícia desta quinta mais um passo do governo americano na aproximação com… Cuba! Quem se importa com essa bananice? No comando da Igreja Católica, está um jesuíta com formação teológica precária, talhado, como diz um meu amigo italiano, para ser “cura de aldeia”, não o chefe da Igreja. Sim, ele é o líder máximo da minha religião, mas suas ambiguidades me incomodam".
Você, Reinaldo, sabe que a imprensa internacional repercutiu com ênfase um fato que tem frustrado os opositores do regime cubano mais empedernidos, a agenda do restabelecimento das relações entre EUA e Cuba cindidas após a "revolução de 1959". Contudo teima, inocuamente, em minimizar os efeitos desta agenda para milhões de cubanos, parece pouco se importar ("quem se importa com esta bananice") com o que esta agenda pode mudar na vida de milhões de cubanos. Ainda bem que muitos jornalistas, articulistas, intelectuais, governos se importam com esta "bananice".

Em seguida levanta a hipótese de que a formação teológica do Papa é precária, daria mais atenção a isto se o articulista argumentasse a este respeito, como não o fez sou forçado a afirmar que  é você, Reinaldo, que padece de  uma "precária capacidade argumentativa". Seria, portanto, temerário acatar o que diz sobre as precariedades teológicas de Francisco. Mas de qualquer modo preocupar-me-ei com o conteúdo do que escreveu, deixando de lado o que me parece ser mais um arroubo de sua arrogância
"Se concede uma entrevista sobre o aborto, depois é preciso esclarecer pontos obscuros de sua fala; se tece considerações sobre catolicismo e homossexualidade, logo é preciso que o Vaticano esclareça o que quis dizer. Faço aqui uma ironia delicada: jesuítas sempre foram de uma inteligência política ímpar, mas, em matéria de teologia, não são aquilo tudo… E Padre Vieira? Foi o maior prosador da língua portuguesa e um… grande político. Na teologia, forçava a mão".
Você, Reinaldo, sabe bem que o problema é mais embaixo, a Igreja Católica e o Papa patinam nestes temas por uma razão muito óbvia. Os temas caros à esta instituição que até pouco tempo eram pouco contraditados pelos seguidores/fiéis católicos, tem sido mais explorados em razão das mudanças que, de alguma forma, colidem com as posições da Igreja Católica. Se realmente quisesse fazer jus à realidade,  deveria você atribuir tais "deslizes" não ao papa, mas a toda a Igreja. Prefere "bater" no indivíduo (Bergóglio), mesmo que ele seja o "papa". Talvez isso lhe dê mais audiência, não é mesmo?

Num ponto confesso que fiquei curioso em ler algo mais aprofundado sobre sua tese (você deve ter estudado muito a respeito de Padre Vieira) sobre a compreensão teológica, supostamente rasa, de Padre Vieira, ah como queria ler esta que poderia até mesmo ser sua tese de doutorado em teologia.
"O ex-peronista Bergoglio não me entusiasma nem como teólogo, o que ele não é, nem como liderança política — e seu posto também tem esse significado. Parece-me viciado em aprovação popular. “E João Paulo II não era assim?”, poderia indagar alguém. Não à custa da clareza, respondo eu".
Fosse Bergoglio um peronista teria sido contido pelos seus pares e superiores e não ascenderia dentro da Igreja Argentina, não teria tido posições contrárias aos governos de Néstor e de Cristina Kirchner nos últimos anos e não teria sido favorável à pressão do empresários rurais contra Cristina em 2008. Ora se o Papa não "entusiasma como teólogo", escreva então sobre as  limitações e/ou equívocos do papa neste campo. Você acusa o Papa de sempre querer os holofotes ("parece-me viciado em aprovação popular"), dando a impressão de que as atitudes dele, tendencialmente humildes, não passam de uma dissimulação. Ou seja, centenas de milhões de católicos, exceto você, estão sendo vítimas de uma dissimulação que me faz lembrar de algumas passagens de Niccolo Michavelli em "O príncipe". 

É isso mesmo, o que você quis dizer? Se não foi, desculpe-me por minha apressada impressão.
"O papa falou a jornalistas durante uma viagem do Sri Lanka às Filipinas. Indagado sobre o ataque ao jornal francês “Charlie Hebdo”, saiu-se com a ambiguidade de hábito. Reconheceu que tanto a liberdade religiosa como a de expressão são “direitos humanos fundamentais”. Mas considerou: “Temos a obrigação de falar abertamente, de ter esta liberdade, mas sem ofender”. 

É claro que ninguém defende o direito natural à ofensa. O ponto não é esse. A questão é saber como devem reagir os que se consideram ofendidos. O papa afirmou, sim, que não se deve matar em nome de Deus, mas se saiu com um exemplo de uma pobreza, lamento dizer, estúpida. Até botou a mãe no meio. Disse: “Temos a obrigação de falar abertamente, de ter esta liberdade, mas sem ofender. É verdade que não se pode reagir violentamente, mas se Gasbarri [Alberto Gasbarri, responsável pelas viagens internacionais do papa], grande amigo, diz uma palavra feia sobre minha mãe, pode esperar um murro. É normal!”. 
O exemplo é de um didatismo pedestre. Não é uma fala para ser entendida pelos simples, como devem fazer os cristãos, mas para excitar os tolos. Em primeiro lugar, “papa” e “murro” não devem se misturar numa mesma frase. Em segundo lugar, a sua metáfora cretina, queira ele ou não, justifica o ataque terrorista. Afinal, para os extremistas, eles apenas deram “um murro” — a seu modo — porque provocados".
Para você, o "murro" pode ser até um atentado terrorista, mesmo sabendo que o Papa não tenha dito isto, pois na mesma conversa com os jornalista, e antes desta, o Papa já havia condenado o terrorismo.  Mas é claro que o jornalista não estaria disposto a colocar outras falas do Papa que pudessem comprometer a sua linha de raciocínio ou o que é mais grave, sua tese sobre as "hesitações papais". Faltou a Reinaldo sugerir que o Papa estivesse sendo aquiescente com os terroristas, o que não me surpreenderia.
"A fala se dá em meio a outras declarações delinquentes. Ahmet Davutoglu, primeiro-ministro da Turquia, comparou seu congênere israelense, Benyamin Netanyahu, aos terroristas de Paris. Lideranças muçulmanas mundo afora têm se manifestado de forma ambígua sobre os ataques, sempre partindo desse lamentável ponto de vista do papa: “Eles falaram mal de nossa mãe” — no caso, do “nosso Profeta”."
"Outras declarações delinquentes", neste trecho você, Reinaldo , revela-se por inteiro, pois parece adorar ser adorado valendo-se de adjetivações de efeito: o papa se alinha com o "delinquente" primeiro-ministro turco Ahmet Davutoglu que teria comparado "Bibi" de Israel (aquele mesmo que ordenou a invasão israelense em Gaza que provocou mais de dois mil mortos) aos terroristas franceses. Novamente, Reinaldo revelou-se por inteiro  ao, subliminarmente, considerar o líder israelense como um paladino na luta contra o terrorismo, não me chocaria se Reinaldo iniciasse uma campanha internacional para tornar Benyamin Netanyahu Secretário Geral da ONU ou quem sabe até, fosse ele católico, uma campanha no futuro por sua beatificação. 
"Bergoglio, dito Francisco, deveria se calar. Ser ambíguo sobre aborto, homossexuais ou casamento de padres só traz alguma turbulência à própria Igreja. Ser ambíguo sobre terrorismo pode ser muito perigoso". 
Reitero o que já disse, não li e não escutei o Papa em algum momento dizendo ter sido favorável ou compreendendo a ação terrorista de quem quer que seja contra ofensas. Há lideranças em nosso mundo que discordam da forma como o terrorismo está sendo combatido e isto não significa concordar com o terrorismo ou ser leniente com o terrorismo. O Papa Francisco ao considerar a provocação ou ofensa tão vil quanto a desproporcional reação dos terroristas não está em hipótese alguma sinalizando que os terroristas não paguem pelo que fizeram. 

A Igreja Católica, em quaisquer circunstâncias, coloca-se contrária à pena de morte valendo-se de argumentação prisioneira de dogmas cristãos. Levantemos uma situação hipotética. Caso os terroristas tivessem sido capturados e levado a juri, alguns iriam propor a pena de morte. E ai, Azevedo? Qual seria a sua posição se o Papa fizesse um apelo pra que os terroristas não fossem executados? Numa situação como esta, escreveria você que Francisco é ambíguo? Dilma fez  um apelo por clemência ao governo indonésio para que um brasileiro flagrado traficando cocaína naquele país não seja executado, estaria Dilma, neste caso, sendo também ambígua?
A propósito: se alguém insultar Cristo, que tipo de “murro” o papa acha que os católicos devem dar?
Provavelmente "murros" que respeitassem a legislação, exceto "murros" que matam (condenação à morte dos ofensores) porque a Igreja e o seu líder principal continuam contrários à pena de morte, logo contrários ao terrorismo. Ou você, Reinaldo Azevedo, prefere continuar duvidando disto? 

Mesmo não sendo eleitor de papa (prerrogativa exclusiva dos cardeais), mesmo não sendo um católico praticante e mesmo reconhecendo que o Papa tem outras pessoas com  credenciais e procuração pra defendê-lo, confesso que senti ofendido pelo que você escreveu sobre Francisco, por esta razão optei em "te esmurrar". 

Com palavras, naturalmente !!!

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