15 de janeiro de 2015

O PAPA FRANCISCO E O TERROR

CIRES PEREIRA

Existiram e ainda existem certas personalidades que parecem não ter comedimento quando faz um discurso improvisado. Em seguida entram em cena os seus assessores, sendo o caso, procurando minimizar e ponderar o conteúdo destes discursos. É "um Deus nos acuda". Uma exceção desperta nossa atenção, tem sido raro assessores do Papa Francisco explicarem ou até consertarem seus "pronunciamentos pontificiais". Mais ainda interessante pelo fato de o pontífice improvisar, na maioria das vezes, as suas declarações, rompendo frequentemente com o protocolo do Vaticano.

Fomos surpreendidos por mais um ataque terrorista na semana passada em Paris que comoveu o mundo numa intensidade que nos faz lembrar dos atentados reivindicados pela Al-Qaeda em 11 de setembro de 2001. Logo após este atentado em Paris que custou as vidas de 10 pessoas que trabalhavam na Revista Charlie Hebdo além de dois policiais, teve início uma campanha em defesa das liberdades individuais e coletivas, com destaque para a liberdade de imprensa, afinal de contas foram mortos cartunistas que há muito tempo faziam críticas às religiosidades, particularmente à religiosidade islâmica por intermédio de charges do "Profeta" (Mohammad Maomé, precursor do islamismo no século VII). O que se viu semana passada foi a materialização de frequentes ameaças endereçadas aos cartunistas. Ameaças geralmente feitas por militantes de organizações muçulmanas fundamentalistas que apregoam a "Jihad" (guerra santa total) contra a blasfêmia e os inimigos da religião do profeta Maomé.

Reitero minha repulsa diante de quaisquer tipos de violências com o propósito de comprometer parcial ou totalmente os direitos individuais e coletivos devidamente consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem (ONU) de 1948 e no conjunto das Constituições que amparam os Estados Democráticos e Laicos pelo mundo.

As autoridades francesas conseguiram eliminar os terroristas que estiveram na linha de frente do atentado, mas é remotíssima a possibilidade de capturarem ou abaterem os seus mandantes e os seus defensores, cujas culpabilidades são, a meu ver, semelhantes. 

Bem, este é um lado....


Presidente da França: François Hollande

QUESTIONAMENTOS NECESSÁRIOS
Há outro lado ?   
Qual é o outro lado?  
Os cartunistas da Charlie Hebdo não eram terroristas, portanto eles não eram o "outro lado". Será mesmo?  
Até que ponto os cartunistas tiveram culpa de suas próprias mortes? 
Muitos são os textos que tem abordado estes questionamentos, uns apregoam que os cartunistas provocaram os radicais a se lançarem contra suas vidas, outros batem na tecla de que a melhor maneira de dissuadir o terror e demonstrando coragem de enfrentá-lo. Noutro texto deixei clara minha posição alinhada à tese da provocação. Deixo muito claro minha repulsa ao terror, do mesmo modo é clara minha posição contrária às provocações ou estímulos ao terror, sobretudo quando tais provocações ignoram os regulamentos amparadores das sociedades civis e dos Estados de Direito Democráticos, como era a essência das charges, via de regra, ofensiva à religiosidade que é um direito inalienável de todo indivíduo. Não estou tentando minimizar a atentado, tampouco  sendo indulgente com os terroristas. Terroristas, pessoas e governos que aludem ao terrorismo ou financiam e pessoas e governos que provocam o terrorismo não cabem numa ordem mundial multipolar, multicultural, democrática e laica e, quando flagradas desrespeitando esta ordem, é imperativo que sejam levadas aos tribunais e que paguem por seus ilícitos nos limites que a legislação impõe.

Tribunais e regulamentos tendo com referência a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU existem é preciso que se movam mais e melhor para enfrentar o terror de todos os lados, matizes e continentes.

Não tenho como não concordar com as declarações improvisadas do Papa Francisco, feitas ontem no início de seu périplo pelo leste da Ásia e Pacífico. Penso que os lideres mundiais precisam ouvir tudo e todos para enfrentarem os problemas que afligem a sociedade global, sugiro que dediquem um pouco mais de tempo e atenção para o que nosso "hermano de batina branca" diz, pode ser a luz nesse que parece ser um túnel sem fim, quando na verdade é um longo túnel.

Disse o Pontífice:


Quanto aos direitos civis:"
Acho que os dois são direitos humanos fundamentais, tanto a liberdade religiosa, como a liberdade de expressão".
Um "mea culpa":
"Também nós fomos pecadores, mas não se pode assassinar em nome de Deus"
Quanto ao terror:
"Não se pode ofender, ou fazer guerra, ou assassinar em nome da própria religião ou em nome de Deus".
Quanto às provocações:

"muita gente que fala mal de outras religiões ou das religiões (...), que transforma em um brinquedo as religiões dos demais". (...) "há um limite para a liberdade de expressão".
Postar um comentário