"MAIS MÉDICOS": ESTUDO DE UM CASO: BARRAS (PI)

CIRES PEREIRA
Dra. Olivia Rodriguez e Dr Omar Diaz  em Barras (Piauí) : Foto Portal Piauiense)
Barras é uma pequena cidade da região norte do Estado do Piauí, com um pouco mais de 45 mil habitantes. A cidade possuía em 2012 um IDH de 0,595 e um PIB per capita de R$ 4.418,68, indicadores sociais e econômicos bem abaixo dos indicadores nacionais de 2012: IDH de 0,730 e PIB Per capita de R$ 22.402,00. Pouco ou quase nada era feito para assistir uma população de baixa renda que carecia de tudo ou quase tudo. Os governos municipal e estadual com os seus orçamentos bastante limitados sempre dependeram de verbas e programas de assistência do governo federal.

Um destes programas começou a ser implantado há 15 meses, o Programa “Mais Médicos”. Para o município de Barras foram enviados dois médicos no dia 23 de setembro de 2013: Omar Diaz Barrios e Olivia Rodriguez González, ambos cubanos e com formação médica em Cuba. Na pequena cidade piauiense, ambos trabalham no posto de saúde de Barras.

Segundo a Dra. Olívia, as doenças mais frequentes são as respiratórias, hipertensão, parasitárias e diabetes. As mulheres gestantes, os idosos e recém nascidos são atendidos em suas casas. O Dr. Omar festeja o fato de que neste período não houve registro de mortalidade infantil e de mortalidade materna. Os dois médicos já trabalharam no Paraguai e na Venezuela onde tiveram que implantar uma rede de atenção básica. É um caso emblemático, pois o Estado do Piauí possui a terceira maior taxa de mortalidade no Brasil. 21,7 bebês morrem antes de completarem um ano de idade a cada 1 mil nascidos vivos, em Barras a mortalidade infantil era ainda maior.

Dr. Omar afirma que quando fazem suas visitas domiciliares de rotina, os moradores dizem que jamais tiveram a visita de um médico. 
“São pessoas muito carentes e quando vemos as pessoas acamadas e não podem caminhar, elas ficam muito contentes porque elas falam dos problemas de saúde que têm e nós também falamos muitas coisas”. 
Dra. Olívia, há dois meses deu início a um trabalho com 42 mulheres na cidade com atividades fisioterápicas para a descontinuação de um ciclo fármaco, pois estas mulheres estavam viciadas em medicamentos ansiolíticos para dormir e para conter a ansiedade.

Segundo Maria Aparecida Ferreira de 48 anos, 
"O médico cubano é melhor, ele dá atenção a gente, pergunta, fica ouvindo, o explica o que gente deve fazer, orienta os exames. Eu achei melhor do que os outros, já fui atendido por vários médicos. Os outros médicos não falavam, nem olhavam para a gente, não dava atenção, só escrevia no papel. O médico cubano ouve a gente, fala, sorri. Foi melhor, eu adorei".
Para a estudante de Administração da UESPI Laiana Moreira, de 25 anos e com diabetes:
"O tratamento é mais adequado, o médico cubano dá atenção, avalia o nível de glicemia (taxa de açúcar no sangue), faz exames. A diferença entre os médicos cubanos e os outros é grande. Eles são mais atenciosos. Dão mais atenção, perguntam o que a gente está sentindo, já os outros não, só passam os exames. Os médicos cubanos perguntam antes de pedir e autorizar os exames".
É público e notório que muito precisa ser feito ainda nos campos da saúde e da educação, igualmente óbvio que este programa é emergencial e não combate as origens dos déficits sociais históricos no Brasil. Mas é inegável que avanços ocorreram, colhi uma amostra deste avanço que não espelha a realidade em nosso “continental” território, há problemas e distorções em outras partes, mas tem sido gradativamente enfrentados tornando-se com o tempo exceções à regra geral. 

Cuidar saúde das pessoas carentes quando constituem um expressivo percentual da população custa caro para o Estado brasileiro, mas vale a pena, pois esta é a razão maior de existir do Estado. É preciso que estes recursos sejam bem empregados: cuidando das pessoas para que elas continuem saudáveis, possibilitando a elas alimentação e qualidade de vida melhor, além dos acessos ao atendimento médico preventivo e aos exames preventivos. O que ocorre em Barras, no extremo norte do Brasil, pode ser um exemplo para outras comunidades pelo Brasil inteiro. 

Os recursos para a saúde pública tem aumentado nos últimos anos, mas ainda são poucos, recentemente o parlamento brasileiro aprovou uma nova política dos Royalties do petróleo extraído nas bacias do pré-sal que ampliará de forma expressiva o recurso público para educação e saúde. 

O que todos os brasileiros desejam é a "presença do Estado" em todos os "cantos" do país assistindo prioritariamente os setores sociais historicamente desassistidos e preteridos. Barras no Piauí tem me parecido um bom exemplo disto. 
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