29 de janeiro de 2015

JORNAL DA GLOBO: UMA MATRIZ DOUTRINAL DO SENSO COMUM

Cires Pereira


Valendo-se de argumentações rasas e manipulando os dados coletados para encaixarem um juízo coincidente à hipótese, o apresentador (Willian Waack) e o comentarista Carlos Sardenberg do “Jornal da Globo”, diariamente, constroem as bases ou a fonte de milhões de comentários por todo o país no dia seguinte. Globo/Globo.com, Folha de São Paulo/UOL e “Revista Veja” compõem um trio que ecoa os juízos da oposição ao governo atual. 

Assim no dia posterior à reportagem e/ou análise contrárias ao governo, deparamo-nos com muitas postagens nas redes sociais e muitos comentários nas ruas , nas escolas, nos locais de trabalho e em casa que replicam o dito e reforçam conclusões com pouca ou nenhuma sustentação científica – é o senso comum.

Tem sido cada vez mais raro notícias ou comentários nestes veículos de comunicação favoráveis ao governo. Para termos informações sobre a maior parte das ações do governo, recorremos, comumente, às mídias oficiais. É óbvio que temos sempre que ficar com “um pé atrás” com as notícias, os balanços, os números e as conclusões que nos chegam. A diferença entre as conclusões, sobre o governo, feitas pelo governo e as conclusões feitas pelos órgãos de imprensa citados tem sido cada vez maior. Como estas mídias tem uma audiência muita maior do que as mídias oficiais, a disputa de versões tem sido absurdamente assimétrica em favor das mídias privadas.

A constatação deste assimetrismo pode ser feita em minutos numa roda de conversa qualquer envolvendo homens e mulheres que se autoproclamam “bam bam bans” em economia, em política, em política energética, em saúde pública e (não podia ficar de fora) em futebol. Confesso que em alguns momentos dou ouvidos ao que falam. A rigor são frases feitas pelas mídias sobre o governo recheadas por piadas sobre a roupa que usam ou  marcas físicas peculiares aos personagens. Mas o incrível fica por conta das soluções que apresentam: pena de morte, deportação para Indonésia (onde há pena de morte) ou “entregar os nossos políticos para o Estado Islâmico no Irã” – sim, leitores, um conhecido afirmou de forma categórica que o Estado islâmico atuava no Irã e que era financiado pelo (falecido) Chávez.

Dou-lhes um bom exemplo de uma manipulação grosseira. Na edição do dia 28 de janeiro do Jornal da Globo os apresentadores disseram que a Dívida Pública Federal (segundo eles é a soma de tudo que o governo federal deve para os credores dentro e fora do país) cresceu em 2014, 8,15%. No final de 2013 estava em 2.12 trilhões de reais e agora no final de 2014 chegou a 2,29 trilhões de reais. 

Os números estão corretos, a conclusão não, explico.

A divida pública federal (DPF) é a soma da DPMFi (Dívida Pública Mobiliária Federal Interna) e DPMFe (Dívida Púbica Mobiliária Federal Externa). Em 2012 o estoque ou montante da DPF era de 2 trilhões de reais, em 2013 era de 2,12 trilhões de reais e agora em 2014 de 2,29, significa dizer que a variação 2012/2013 foi de 5,7% e a variação 2013/2014 de 8,15%. Os fatores deste aumento percentual foram: as desonerações feitas pelo governo como forma de reduzir o impacto na produção/emprego/comercialização dos setores produtivos nacionais, o aumento das taxas de juros como forma de manter a inflação dentro da meta acordada e aprovada no parlamento e a não consumação da expectativa de arrecadação por conta do contração do crescimento do PIB (início do ano a previsão era de 3% e deve fechar em 0,4 %). 


A OCULTAÇÃO DOS BONS INFORMES: UM MODUS OPERANDI GROSSEIRO DESTAS MÍDIAS.

A mídia oponente ao governo não noticia o esforço do governo em alongar o prazo médio (“duration”) de pagamentos da DPF que em 2004 era de 2,9 anos e agora em 2013/2014 encontra-se no patamar de 4,2 anos e a ATM (“average time to maturity”) que é outro indicador usado pelas agências de risco cujos relatórios são usados nas renegociações das dívidas no mundo inteiro; em 2005 era de 4,6 anos agora em 2014 gira em torno de 6,7 anos.

Outra ocultação: O governo criou em 2002, em parceria com a BM&FBovespa, o Tesouro Direto (TD), um programa para as pessoas físicas de todas as rendas se cadastrarem para compra de títulos da dívida pela internet, a partir de 50 reais. Em 2002 eram 5.854 pessoas, em 2012 passou pra 328 mil pessoas e em 2013, 378 mil pessoas. Em 2014, O Tesouro Direto atingiu o total de 454.126 investidores cadastrados, após uma alta de 20% no número de nos últimos 12 meses. Este é também um indicador da confiança dos investidores/credores internos.

Por fim a principal manipulação: Houve ao longo de 2014 uma depreciação importante do real frente ao dólar americano, logo ao convertermos o montante da DPF em dólar, é óbvio que a DPF diminuiu e se estabelecermos a comparação da DPF em dólar com o percentual do PIB, também houve diminuição. Assim quando é noticiado apenas o resultado (DPF em reais) fica a impressão de que a situação piorou muito, reforçando assim o senso comum de que o governo não tem feito nada ou tem sido competente para o gerenciamento da Dívida Pública Federal.

DPF em 02 Janeiro de 2014 era de 2,12 tri reais ou 879 bilhões de dólares (dólar comercial a 2,41), em 29 de dezembro a DPF era de 2.29 trilhões de reais ou 864 bilhões de dólares (dólar comercial a 2,65 neste dia). A Relação DPF/PIB, portanto melhorou, pois o PIB estagnou praticamente em 2014 e a DPF em dólares encolheu. 

O PIB em reais 2013 R$ 4,84 trilhões reais ou 2,20 trilhões de dólares, em 2014 deverá ser (dados ainda não computados) de 5.50 trilhões de reais ou 2,20 trilhões de dólares. A relação DPF/PIB em US$ em 2013 ficou em 39,95 % e a relação DPF/PIB em US$ deverá ficar em 39,22 %, já a relação DPF/PIB 2013 em R$ ficou em 43,8 % e a relação DPF/PIB 2014 em R$ deverá ficar 41,63 %.

As mídias ocultam a banda sadia do fato: o encolhimento da Dívida Pública Federal considerando sua relação com a produção de riquezas ao longo de 2014 e convertida em dólares e noticiam o crescimento nominal em reais. Estamos passando por turbulências internas e por problemas internacionais importantes, nestes tempos difíceis é fundamental que a verdade impere para um diagnóstico minimamente honesto, bases para a concepção e aplicação de soluções mais eficientes e menos traumáticas. 

Lamento muitíssimo que Globo/Veja/UOL-Folha/Estadão tenham se distanciado da essência dos fatos para corroborar com os argumentos oposicionistas que, em última instância, amparam teses estapafúrdias como a interrupção precoce do governo Dilma tendo por base indícios de corrupção que, não comprovados, não seriam outra coisa senão indícios...
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